Reportagem: Gabriela Ribeiro
Foto: Carlos Jared
Uma fotografia registrada pelo pesquisador científico e diretor do Laboratório de Biologia Estrutural do Instituto Butantan, Carlos Jared, foi selecionada para integrar a Summer Science Exhibition 2026 da Royal Society do Reino Unido, uma das mais tradicionais academias científicas do mundo. A imagem, intitulada The rainy season, the green tree frog and the maintenance of life (“A estação chuvosa, a perereca-verde e a manutenção da vida”, em português) será exibida em 3 de julho, em Londres, como uma das melhores fotografias científicas dos últimos dez anos.
Premiada originalmente pela Royal Society em 2017 com menção honrosa na categoria Ecologia e Ciência Ambiental, a obra retrata o acasalamento de pererecas-verdes (Phyllomedusa nordestina, atualmente classificadas como Pithecopus gonzagai) e foi selecionada para retornar à exposição em uma mostra comemorativa, que celebra o poder da fotografia científica em revelar fenômenos naturais e aproximar a sociedade da ciência.
“Muito além da beleza estética, a fotografia registra décadas de pesquisa sobre a biodiversidade brasileira”, conta Carlos Jared. A imagem foi feita durante uma expedição realizada no município de Angicos, no Rio Grande do Norte, que abriga o bioma da Caatinga. Há mais de 40 anos, o pesquisador estuda as adaptações de anfíbios capazes de sobreviver em um dos ambientes mais secos do país.

A imagem mostra um casal de pererecas-verdes em amplexo – o abraço reprodutivo característico dos anfíbios. O momento ocorre logo após as primeiras chuvas, quando os animais que passaram meses ou até anos escondidos em ambientes úmidos saem para garantir a reprodução da espécie.
Segundo o cientista, o título da obra faz referência justamente a esse fenômeno. “Quando chegam as chuvas, a prioridade desses animais não é se alimentar, e sim se reproduzir. É a manutenção da vida”, destaca.
Registrar esse comportamento exigiu anos de trabalho de campo e de observação da fauna. “Se chegássemos alguns minutos antes ou depois, provavelmente perderíamos a cena. É isso que torna esse tipo de fotografia tão especial: ela registra um instante muito específico da história natural da espécie”, finaliza.
Com mais de 50 anos de trabalho no Instituto Butantan, Carlos Jared reúne um extenso acervo com cerca de 46 mil fotos produzidas durante suas pesquisas em diferentes biomas brasileiros desde a década de 1970, além de um vasto arquivo em preto e branco. Suas imagens já ilustraram capas de revistas científicas internacionais, livros e reportagens, consolidando sua trajetória na união entre ciência e fotografia.
Para o pesquisador, a fotografia é uma poderosa ferramenta de divulgação científica. "A arte ajuda a comunicar a ciência. E a ciência oferece histórias extraordinárias para a arte registrar."
Segundo Carlos, imagens como essa despertam a curiosidade do público e ajudam a aproximar as pessoas da pesquisa científica. "Quando alguém olha para essa fotografia, primeiro vê a beleza. Depois, quer entender o que está acontecendo. É aí que começa a divulgação científica”, reflete.
Fundada em 1660, em Londres, a Royal Society (The Royal Society of London for Improving Natural Knowledge) é a academia nacional de ciências do Reino Unido e a sociedade científica mais antiga do mundo em funcionamento contínuo. A instituição reúne alguns dos mais renomados cientistas, engenheiros e médicos e atua na promoção da excelência científica e da divulgação do conhecimento.
Realizada anualmente, a Summer Science Exhibition é um evento de divulgação científica da Royal Society que visa aproximar a pesquisa da sociedade. A edição de 2026 reúne pesquisadores de diversas áreas e uma mostra especial com as principais fotografias premiadas pela instituição na última década, reforçando o papel das imagens na popularização da ciência.



