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Os caminhos paulistas do SUS: conheça as contribuições do estado de São Paulo para a construção do sistema público de saúde brasileiro

Descentralização da gestão, melhor compreensão das necessidades locais e participação popular ajudaram a transformar o direito à saúde em realidade nacional


Publicado em: 18/02/2026

Reportagem: Natasha Pinelli
Imagens: Centro de Memória/Instituto Butantan

Enquanto o Brasil caminhava rumo à redemocratização, na década de 1980, o estado de São Paulo se tornava um verdadeiro laboratório de experiências inovadoras em saúde pública. Muitas das ações desenvolvidas nesse período ajudaram a moldar o celebrado Sistema Único de Saúde (SUS), que em setembro de 2025 completou 35 anos de existência como uma das maiores conquistas sociais do país.

Estabelecido na Constituição Federal de 1988, o SUS definiu a saúde como direito de todos e dever do Estado. Dois anos depois, sua estrutura foi regulamentada pela Lei nº 8.080, que instituiu um sistema público, gratuito e universal em todo o território brasileiro.
 

 

Parte fundamental dessa história está registrada no projeto SUS – Trajetória da Saúde em São Paulo: Instituições, Ideias e Atores, lançado virtualmente em agosto de 2025. Por meio de documentos, infográficos e depoimentos de profissionais, gestores e pesquisadores que atuaram entre 1983 e 1994, a publicação recupera marcos, desafios e inovações que fizeram do estado paulista uma referência nacional na gestão da saúde pública.

O projeto é uma iniciativa do Museu de Saúde Pública Emílio Ribas (MUSPER) e do Centro de Memória do Instituto Butantan, em parceria com o Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. A coordenação dos trabalhos ficou por conta do médico sanitarista Nelson Ibañez, pesquisador do Centro de Memória e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

 

 

O cenário paulista

Antes mesmo da criação do SUS, os paulistas já se destacavam por suas iniciativas pioneiras na gestão pública da saúde. Desde as décadas de 1960 e 1970, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) vinha implementando reformas para reorganizar sua estrutura, apostando em bases regionalizadas e integradas que buscavam tornar o sistema estadual mais eficiente.

Em um primeiro momento, as reformas sugeridas pelos ex-secretários de estado Walter Sidney Pereira Leser (1967-1969 e 1975-1979) e Adib Jatene (1979-1982) tinham o intuito de “reorganizar a casa”, aproximando a gestão de saúde das realidades e necessidades de diferentes regiões paulistas. 

Leser, por exemplo, aboliu departamentos voltados a doenças específicas e estruturou redes regionais de centros e postos de saúde. “O secretário de saúde já havia estabelecido uma estrutura inovadora que não existia em nenhum outro lugar no Brasil e no mundo. Ele criou centros de saúde que não eram especializados, mas organizados por níveis,  com coordenação regional e discussões com a sociedade”, pontuou o médico José da Rocha Carvalheiro em seu depoimento para o projeto

Já Jatene aprofundou a regionalização e consolidou o papel dos médicos sanitaristas, aliando planejamento e vigilância epidemiológica. “[Quando assumi a Secretaria Estadual em 1979], coloquei um mapa da cidade de São Paulo em minha sala e pedi à minha secretária que marcasse todos os hospitais da região. Quando ela terminou, observei e percebi algo interessante: se traçasse um raio de cinco quilômetros a partir do cruzamento da Rua Pamplona com a Avenida Paulista, abrangeria cerca de 80% dos pacientes”, recordou o ex-Secretário Estadual e Ministro da Saúde, falecido em 2014.

Vale lembrar que, até então, o modelo assistencial brasileiro estava centralizado no Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), que restringia o atendimento aos trabalhadores com carteira assinada. Aqueles que não possuíam um vínculo formal de trabalho eram excluídos do sistema e dependiam de ações pontuais das diferentes esferas de governo.

“Era claro que o modelo vigente não era sustentável, com dois terços da população sem qualquer garantia de assistência à saúde, exceto para aqueles economicamente privilegiados ou com empregos formalizados. A discussão sobre a necessidade de uma reforma sanitária estava em andamento, não apenas em São Paulo, mas em todo o Brasil [...]. Essas discussões foram fundamentais para preparar o terreno para as mudanças que viriam com a Constituinte e a criação do SUS”, declarou o médico sanitarista Eduardo Jorge durante entrevista concedida ao projeto.

 

 

Os experimentos paulistas 

Ao longo dos anos 1980, a SES-SP testou diferentes estratégias de descentralização, regionalização e municipalização – iniciativas que abriram caminho para uma nova forma de pensar o sistema público de saúde.

Um dos marcos foi o Programa de Ações Integradas de Saúde (AIS), lançado em 1983 em parceria com o governo federal. O projeto buscava superar a fragmentação entre a saúde pública e a previdenciária, unificando ações de prevenção, promoção da saúde e assistência médica. Em poucos anos, praticamente todos os municípios paulistas haviam aderido ao programa, que ampliou a cobertura de atendimento e introduziu mecanismos de gestão compartilhada entre as esferas estadual e municipal.

As experiências e os resultados obtidos com as AIS deram espaço para o Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde (SUDS). Regulamentada em São Paulo em 1988, a estratégia marcou a descentralização administrativa e financeira da saúde, ao oferecer aos municípios maior autonomia para a gestão de recursos, planejamento de ações e organização de serviços.

Outro passo importante foi o Programa Metropolitano de Saúde (PMS), implementado durante o governo Franco Montoro (1983-1987), com apoio do Banco Mundial. A iniciativa propôs uma nova lógica para a região metropolitana de São Paulo, que representava um importante desafio devido a sua alta densidade populacional e complexidade logística. A estratégia priorizou a expansão da rede básica e a integração entre hospitais e unidades de saúde, baseada nos Sistemas Locais de Saúde (SILOS) – modelo que organizava e ligava Unidades Básicas de Saúde (UBS) a hospitais de referência dentro de um mesmo território.

“O impacto do Programa Metropolitano foi profundo e duradouro. Conseguimos expandir a rede de serviços de saúde na Grande São Paulo, melhorando o acesso e a qualidade do atendimento para milhões de pessoas. A construção de novos hospitais e unidades básicas de saúde reduziu a sobrecarga nos hospitais existentes e permitiu que a população recebesse atendimento mais próximo de suas casas”, recordou Nelson Ibañez, que na época atuou como coordenador da iniciativa.

A partir de 1986, os Escritórios Regionais de Saúde (ERSAs) consolidaram uma estrutura administrativa intermediária entre estado e municípios. O objetivo era coordenar territorialmente os serviços de saúde, preparando o sistema paulista para uma futura municipalização do sistema. 

“Os ERSAs se articularam também com os escritórios de governo que cada região tinha, responsáveis por dialogar com os prefeitos e resolver conflitos locais. Isso dava governabilidade. Se surgia um problema em algum município, resolvíamos no escritório regional, sem necessidade de escalar até o secretário ou o governador. Era uma lógica de gestão mais próxima, com reuniões entre prefeitos, pactuações e fluxos compartilhados”, relatou a médica sanitarista Lia Giraldo da Silva Augusto em depoimento ao projeto

 

 

Modelos comunitários e a participação social

O estado de São Paulo também se destacou por experiências que aproximaram o sistema de saúde da população. Essas iniciativas ajudaram a redefinir o papel do cidadão, que deixou de ser apenas usuário para atuar ativamente na formulação, acompanhamento e controle das políticas de saúde.

Um exemplo foi o ambulatório voluntário do Cangaíba, na zona leste da capital, criado em 1976 por um grupo de médicos e estudantes liderados por Gilberto Natalini. A iniciativa oferecia atendimento gratuito e comunitário, articulando com a comunidade melhorias como saneamento, água encanada e coleta de lixo. 

“Começamos a atender ali todos os sábados, e esse ambulatório funciona até hoje, após 48 anos, com o apoio de voluntários e da comunidade. Nosso objetivo sempre foi usar o atendimento e as necessidades individuais para mobilizar a população a melhorar a saúde coletiva do bairro e da região”, afirmou Natalini em entrevista para a publicação.

O trabalho do grupo também introduziu práticas que se tornariam referência para a atenção primária à saúde, como o acompanhamento contínuo de gestantes, crianças, idosos e portadores de doenças crônicas. Em vez de priorizar ações isoladas, o modelo do Cangaíba defendia uma abordagem integral e comunitária, na qual a escuta e o vínculo com os moradores eram partes fundamentais do cuidado.

Na mesma época, também sob a gestão de Adib Jatene, foram implementados os chamados Conselhos das Unidades, instâncias locais que fortaleciam a comunicação entre os profissionais de saúde e a população atendida. Para se ter uma ideia do sucesso da estratégia, a segunda eleição para os conselhos, realizada em 1981, contou com cerca de 80 mil votantes. “Esse processo não apenas mostrou o poder da participação comunitária, mas também solidificou a estrutura e a institucionalização desses conselhos dentro da gestão da saúde pública”, afirmou Eduardo Jorge.

Paralelamente, surgiram os primeiros projetos de agentes comunitários de saúde, inspirados em experiências internacionais de atenção primária e adaptados à realidade de regiões com baixa cobertura médica. O destaque foi o projeto “Municípios Carentes”, implementado no Vale do Ribeira sob coordenação da médica Cecília Della Torre, que enviava equipes multiprofissionais aos municípios da região. 

Originada dessas iniciativas, a figura do agente comunitário de saúde foi incorporada nacionalmente e tornou-se eixo central da Estratégia de Saúde da Família – até hoje uma das principais portas de entrada do SUS nas comunidades.

“Uma das principais lições que aprendi é a importância da colaboração e do trabalho em equipe. A saúde pública é um esforço coletivo, e os melhores resultados são alcançados quando trabalhamos juntos, compartilhando conhecimentos e recursos”, observou o médico Gonzalo Vecina Neto, em entrevista ao projeto.

 

 

Inovações assistenciais 

Outros programas implementados pela SES-SP também anteciparam políticas que mais tarde seriam adotadas em todo o país. Um exemplo foi a reforma psiquiátrica, conduzida na gestão do médico João Yunes (1983-1987). A mudança encerrou o modelo manicomial, introduzindo psicólogos e equipes multiprofissionais na rede básica de saúde, além de substituir o isolamento por um cuidado mais humanizado.

“Também inauguramos, em 1983, o primeiro Centro de Saúde do Trabalhador do país, com vigilância epidemiológica voltada a agravos relacionados ao trabalho. Essa experiência levou a uma resolução em 1984, tornando compulsória a notificação desses agravos na região siderúrgica e petroquímica de Cubatão, duas décadas antes de a política nacional adotar medida semelhante”, contou Lia Giraldo da Silva Augusto.

No campo da gestão do conhecimento, pesquisadores vinculados à SES-SP e ao Ministério da Saúde participaram da criação do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), nos anos 1980. A iniciativa padronizou os modelos de atestados de óbito em todo o país e melhorou a coleta de dados epidemiológicos.

Essas práticas demonstram que o processo de construção do sistema de saúde público brasileiro não nasceu de um decreto único, mas de uma sucessão de experiências locais e regionais, nas quais o estado de São Paulo teve papel relevante. 

Passadas mais de três décadas desde a criação do SUS, os desafios da saúde pública brasileira continuam sendo inúmeros, porém, sem nunca perder de vista o princípio básico da universalidade. 

Como bem observa o pesquisador Nelson Ibañez em seu depoimento para a publicação: “[...] o futuro da saúde pública no Brasil depende de um compromisso contínuo com a justiça social e a equidade. Precisamos garantir que todos tenham acesso a cuidados de saúde de qualidade, independentemente de sua situação socioeconômica. Isso requer não apenas investimentos em infraestrutura de saúde, mas também políticas públicas que abordem os determinantes sociais da saúde, como educação, habitação e emprego.”