Surto de influenza H3N2 foi impulsionado por cepa mais transmissível, baixa vacinação e redução de medidas contra Covid

Retomada de atividades presenciais e o relaxamento no uso de máscaras também ajudaram a criar condições para a cepa Darwin se disseminar pelo país; vacinação contra gripe ajuda a conter casos e sintomas mais graves


Publicado em: 05/01/2022

A causa do surto de influenza H3N2 (Darwin) pelo país não é isolada, mas consequência de vários fatores que permitiram a disseminação do vírus fora de época, segundo especialistas do Butantan.

Para o diretor de produção Ricardo Oliveira, responsável pela distribuição da vacina da influenza produzida pelo instituto, o alto poder de transmissão da Darwin, aliado à baixa adesão à campanha de vacinação contra a influenza em 2021 e à diminuição das medidas preventivas contra a Covid-19, podem explicar o atual surto em algumas localidades e a necessidade de vacinar quem ainda não tomou o imunizante.

“O surto fora de época pode ter relação com o fato de a cepa H3N2 parecer ser mais transmissível. Além disso, a população priorizou a vacinação contra Covid e, com isso, a cobertura vacinal da influenza não chegou no esperado e mais pessoas ficaram desprotegidas, o que reforça a importância de serem vacinadas”, afirma Ricardo.

Relaxamento aumentou exposição

A retomada de atividades presenciais e o relaxamento de medidas de contenção contra Covid-19 também ajudou a criar condições adequadas para o espalhamento do vírus. “A influenza encontrou uma boa oportunidade de se disseminar com a diminuição do distanciamento e a retomada das atividades como um todo”, destaca Ricardo. 

Isso aconteceu em pleno verão brasileiro porque o H3N2 que já circulava em vários países, mas ganhou força em solo brasileiro após a reabertura de atividades e a retomada de viagens, explica o diretor do Laboratório Multipropósito do Instituto Butantan, Renato Astray.

O avanço na vacinação e consequente relaxamento das medidas de contenção da Covid-19, como o uso de máscara, pode ter causado impacto direto no surgimento do surto em pleno verão. “Estávamos há dois anos usando máscara e ela protege tanto contra a influenza quanto contra o SARS-CoV-2 porque inibe o contato com vírus respiratórios, mas essas medidas foram relaxadas e as pessoas ficaram mais expostas ao contato com estes vírus”, aponta Renato. 

Doação de doses para conter surto

As vacinas contra a influenza aplicadas no Brasil na campanha de vacinação de 2021 pelo Programa Nacional de Imunizações, do Ministério da Saúde, foram produzidas pelo Butantan. O instituto enviou 80 milhões de doses ao governo federal, que as disponibilizou gratuitamente por meio do Sistema Único de Saúde aos públicos mais vulneráveis à doença.

Para evitar que o surto fora de época se espalhasse ainda mais, o Butantan doou 1,4 milhão de doses para as cidades de São Paulo (1 milhão) e Rio de Janeiro (400 mil), após pedidos das secretarias municipais de saúde. O foco desta distribuição foi nas pessoas que não tomaram o imunizante durante a campanha.  

No Brasil, a campanha de vacinação contra a influenza do ano passado começou em abril e se estendeu até setembro na tentativa de contemplar todo o público prioritário. Os idosos, gestantes, puérperas, crianças, indígenas e profissionais de saúde, mais vulneráveis à infecção, foram o foco da campanha, finalizada sem atingir a meta de vacinar 90% desta população, segundo o Ministério da Saúde.