Teremos que tomar vacina contra Covid-19 todo ano, como a da gripe? Especialistas respondem


Publicado em: 21/12/2021

O surgimento de novas variantes do SARS-CoV-2 vai tornar a vacinação contra Covid-19 anual e com imunizantes atualizados, tal como acontece com a vacina da gripe? Evidências científicas demonstram a necessidade de doses extras para grupos de risco, mas ainda não há comprovação de que os imunizantes vão precisar ser reformulados a cada ano para melhorar sua proteção, como o que ocorre com a vacina da influenza. 

Isso porque estudos com vacinas anti-Covid demonstraram que o contato com diferentes variantes do novo coronavírus pouco altera a imunogenicidade dos imunizantes. Já com a vacina da influenza, a resposta imune é afetada a cada nova mutação, e, por isso uma nova vacina é criada anualmente, explica o diretor do Laboratório Multipropósito do Instituto Butantan, Renato Astray. 

“Apesar de serem vírus transmitidos por via respiratória e terem um comportamento epidemiológico parecido, os vírus influenza e SARS-CoV-2 são bastante diferentes. O vírus da influenza tem uma capacidade de se tornar pandêmico e a resposta imune muda de acordo com as mutações. Já o vírus da Covid-19 passa por mutações que geram as variantes de preocupação, mas as vacinas desenhadas pelo vírus original ainda preservam a imunidade”, explica. 

 

Imunização contra influenza pode ser modelo 

Apesar disso, a vacinação contra a influenza pode ser um modelo a ser usado na imunização periódica contra Covid-19, argumentou o pesquisador Arnold S. Monto, do Departamento de Epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, em um artigo publicado recentemente no The New England Journal of Medicine

Para Monto, a frequência de revacinação e as consequências precisarão ser determinadas porque, segundo ele, “está claro que a revacinação será necessária, pelos mesmos motivos que a revacinação contra influenza: variação antigênica [surgimento de variantes] e diminuição da imunidade”, escreveu. 

“Dado o desfile de variantes, sua transmissibilidade variável e a preocupação contínua com as mudanças antigênicas que afetam a proteção da vacina, acredito que agora deve ficar claro que não é possível eliminar este vírus da população e que devemos desenvolver planos de longo prazo para lidar com ele depois que os picos insuportáveis são totalmente controlados. A pandemia e a influenza sazonal fornecem os modelos mais apropriados para ajudar no desenvolvimento de estratégias futuras”, completou.

Vacinação anual para idosos 

Para Renato, populações mais vulneráveis ao SARS-CoV-2, como os idosos, poderiam ser beneficiados pela vacinação anual realizada antes do inverno, como a da gripe. 

“Me parece que a estratégia de revacinação dos idosos anualmente possa ser estabelecida para que, ainda que não seja contra uma variante diferente, e a vacina seja feita com base no vírus original, ela promova a geração de uma grande quantidade de anticorpos no começo do inverno. Talvez esse reforço vacinal seja necessário para um grupo de risco”, afirma.