Reportagem: Camila Neumam
Ilustração: Lorena Weinketz
Você já se perguntou de onde vêm as cantigas tradicionais brasileiras que há anos a gente canta e dança? Segundo Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), um grande estudioso do nosso folclore, elas são de origem europeia, embora possivelmente tenham herdado influência das culturas indígena e africana, que formam a nação brasileira. “As raças cantadeiras e dançarinas tornaram o canto e a dança expressões da alegria plena do brasileiro”, descreveu o folclorista potiguar no livro “A literatura oral no Brasil”.
Uma dessas canções é “Peixe vivo” (veja a letra abaixo), repleta de componentes de influência lusitana: as repetições na letra das cantigas infantis portuguesas; as estrofes parelhas; a letra romântica e as referências à Igreja Católica; além das lembranças do mar e das aldeias distantes, que remetem à “terrinha”, escreveu o estudioso.
Quanto às influências das culturas indígena e africana em “Peixe vivo” e nas cantigas tradicionais em geral, Câmara Cascudo lembra as descobertas do poeta e pesquisador da cultura popular Mario de Andrade (1883-1945). Para o fundador do Modernismo brasileiro, os indígenas trouxeram à nossa música refrões curtos, instrumentos de sopro e chocalhos, e as danças ritualísticas sobre a natureza e os animais. Dos africanos, herdamos os timbres variados, o jeito vistoso de dançar, e a valorização do ritmo e dos instrumentos de percussão, que mudaram a forma de cantar as cantigas.
“Peixe vivo” costumava ser entoada em reuniões de cantorias, as chamadas serestas, comuns no século passado, na cidade de Diamantina (MG), e assim passou a ser atribuída ao folclore mineiro. Ela se tornou mais popular no resto do país a partir da década de 1950 por causa do mineiro de Diamantina Juscelino Kubitschek (1902-1976), presidente do Brasil entre 1956 e 1961. O político costumava cantarolar seus versos e a música passou a ser tocada em suas solenidades. Hoje em dia a cantiga é símbolo do município mineiro, que decretou uma lei em 2014 tornando a Associação dos Seresteiros do Grupo Peixe Vivo artigo de utilidade pública.
PEIXE VIVO
Como pode um peixe vivo
Viver fora da água fria?
Como pode um peixe vivo
Viver fora da água fria? (x2)
Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a sua, sem a sua
Sem a sua companhia?
Sem a sua, sem a sua
Sem a sua companhia?
Os pastores dessa aldeia
Fazem preces noite e dia
Os pastores dessa aldeia
Fazem preces noite e dia
Como poderei viver?
Como poderei viver?
Agora que aprendemos um pouco sobre as cantigas de roda e a origem da música “Peixe Vivo”, que tal conhecermos se suas lindas estrofes fazem sentido do ponto de vista científico? Quem faz as associações é a imunologista e pesquisadora científica do Laboratório de Toxinologia Aplicada do Instituto Butantan (LETA), Mônica Lopes Ferreira. Ela trabalha com diferentes peixes para caracterização toxinológica de venenos e toxinas animais.
1- Os peixes são capazes de viver fora da água?
Os peixes, no geral, precisam viver dentro da água porque dependem dela para respirar. Mas algumas espécies podem ficar horas, dias ou meses fora d’água sob algumas condições. Todos os peixes são vertebrados e a grande maioria respira pelas brânquias, por onde inspiram o oxigênio da água e eliminam o gás carbônico. As brânquias são equivalentes aos pulmões nos peixes, embora haja algumas espécies que realmente têm pulmões – são estas que conseguem respirar fora da água.
2- Quais espécies conseguem respirar fora d´água?
"Há seis espécies de peixes pulmonados no mundo, mas no Brasil temos somente a Piramboia, típica da bacia do Rio Amazonas. "Nos períodos de seca, ela cava um buraco na terra, faz uma toca e fica enterrada até a água voltar a subir. Como possui dois pequenos pulmões, ela consegue respirar mesmo na ausência de água.
Detalhe: este período de seca pode durar até seis meses! Para conseguir ficar tanto tempo sem água, a piramboia retarda o metabolismo a ponto de parecer que está hibernando e só acorda quando o rio estiver cheio novamente. Essa é uma forma adotada por alguns bichos para se preservar em condições climáticas desafiadoras.
Há ainda peixes que possuem um sistema respiratório misto, ou seja, brânquias e uma bexiga natatória, que também lhes permite respirar fora d’agua, mas apenas por um tempo. Um exemplo brasileiro é o pirarucu, outra espécie da bacia amazônica. Além de ser imenso e pesado, podendo chegar a três metros de comprimento e pesar mais de 200 quilos, ele consegue se manter respirando fora d’água por pelo menos 30 minutos.
O niquim é outro exemplo de peixe que consegue respirar fora d’água. Também conhecido como peixe-sapo, ele é pequeno e peçonhento, e vive no encontro das águas doces e salgadas no norte e nordeste brasileiros. Quando a maré recua, o niquim cava um buraco onde fica enterrado. Além disso, ele se camufla, ficando da cor da terra ou da areia, e permanece escondido até o mar voltar a subir, processo que pode demorar até 12 horas.
O niquim também reduz seu metabolismo quando está escondido para evitar gasto de energia. Quando a maré sobe, ele sai da toca e volta a nadar. O problema é que a sua toca é rasa e ele pode ser pisado por quem passa. Quando isso acontece, os espinhos onde ficam as glândulas de veneno são pressionados, inoculando a peçonha e causando um acidente. O envenenamento provoca uma séria lesão local, que precisa de atendimento médico. O Instituto Butantan estuda a fórmula de um soro contra esse veneno.
3- Os peixes vivem somente em águas frias?
Há peixe nativos de águas frias, como o salmão, a truta e a carpa, e de águas mornas, como o pirarucu. Mas os peixes, no geral, estão preparados para viver em ambientes com variação de temperatura, mesmo não sendo as ideais.
Referências:
“A literatura oral no Brasil” (Luís da Câmara Cascudo)
“Antologia do Folclore Brasileiro. Volume 2” (Luís da Câmara Cascudo)
“Pequena História da Música” (Mario de Andrade)
“O negro e o garimpo em Minas Gerais” (Aires da Mata Machado Filho)