Reportagem: Natasha Pinelli
Fotos: José Felipe Batista e Marília Ruberti/Comunicação Instituto Butantan
O Brasil parece ter motivos para celebrar neste Dia Nacional da Imunização, celebrado em 9/6. Depois de um período marcado pela redução das coberturas e pelo aumento da hesitação vacinal, indicadores mais recentes apontam uma retomada gradual nos índices de vacinação no país. Ainda assim, é preciso manter o sinal de alerta, uma vez que a maior parte dos imunizantes ofertados pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) ainda permanece com índices abaixo dos preconizados – um cenário preocupante, que favorece o reaparecimento de doenças já controladas, como sarampo e poliomielite.
“Temos muito a comemorar, porque cada conquista é importante. Mas precisamos entender que mesmo quando atingirmos essas metas não podemos baixar a guarda. Sempre seguiremos vacinando, trata-se de uma ação contínua”, reforça a gerente de farmacovigilância do Instituto Butantan e diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mayra Moura.
O Dia Nacional da Imunização busca chamar a atenção para a importância da vacinação, tanto individualmente como para a saúde coletiva. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os imunizantes foram responsáveis por aproximadamente 40% da redução global da mortalidade infantil nos últimos 50 anos. Desde 1974, estima-se que a vacinação tenha evitado 154 milhões de mortes em todo o mundo, sendo 95% delas entre menores de 5 anos.

Vacinação aponta tendência de crescimento nos últimos quatro anos (Foto: José Felipe Batista)
Os dados disponibilizados* pelos Painéis de Vacinação do Ministério da Saúde revelam um cenário de recuperação no país desde 2022, quando observou-se uma tendência de crescimento gradual em diversas coberturas, embora a maioria das vacinas ainda não tenha alcançado os percentuais considerados ideais para garantir proteção coletiva, acima de 95%.
Em 2024, por exemplo, apenas três dos 16 imunizantes indicados até o primeiro ano de vida atingiram as metas preconizadas pelo órgão federal. Foram eles: BCG (98,63%), capaz de prevenir formas graves de tuberculose, e hepatite B (97,39%) – ambos aplicados logo após o nascimento; além da primeira dose da tríplice viral (95,85%), que é administrada aos 12 meses e protege contra sarampo, caxumba e rubéola.
Já em 2025, as coberturas de BCG e hepatite B mantiveram-se acima do índice recomendado de 95%, registrando uma cobertura superior a 99%. Outro destaque positivo foi a cobertura da vacina contra o rotavírus, que ficou pouco acima dos 90% – média considerada ideal para esse imunizante.
Apesar dos números indicarem uma constante melhora nas coberturas vacinais no Brasil, até abril de 2026 nenhum dos imunizantes ofertados pelo PNI atingiu a chamada “meta ótima” de cobertura, sendo que muitas encontram-se abaixo dos 80%. As mais alarmantes são a da segunda dose da tríplice viral, com 72,54%; da vacina contra a varicela, com 73,93%; e o primeiro reforço da DTP, com 74,71%.
“A imunização tornou-se uma prioridade estratégica do atual momento do país, resultando em maiores investimentos financeiros e na implementação do microplanejamento para adaptar as ações às realidades locais. Agora, estamos em um momento de ajustes finos, já que sair dos 10% para os 50% é mais fácil do que saltar dos 80% para os 90%”, observa Mayra Moura.

Quanto maior a proporção de pessoas vacinadas, menor a circulação de vírus e o risco de exposição a doenças (Foto: José Felipe Batista)
Outra cobertura que tem causado preocupação é a da vacinação contra a poliomielite, uma vez que o Brasil não alcança a meta de 95% desde 2016. Segundo o Anuário VacinaBR 2025, elaborado pelo Instituto Questão de Ciência (IQC) com apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e parceria do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a queda na imunização contra a doença se intensificou entre 2020 e 2021 – período mais intenso da pandemia de Covid-19 –, mostrando leve recuperação a partir de 2022.
Desde novembro de 2024, o esquema vacinal contra a doença mudou, sendo a vacina injetável contra a poliomielite (VIP) aplicada no lugar do imunizante em gotas (VOP). O atual esquema vacinal contra a doença é de três doses, com aplicação no segundo, quarto e sexto mês de vida, e uma única dose de reforço aos 15 meses.
Em 2025, nenhum estado brasileiro atingiu a meta de 95% de vacinação contra a poliomielite, sendo o Norte a região com o menor índice do país (78,8%). Até abril de 2026, a cobertura com a VIP foi de 85,16% entre menores de 1 ano e de 77,50% em crianças de até 1 ano.
Embora o Brasil esteja livre da circulação do poliovírus selvagem há décadas, as taxas de imunização menores do que a meta acendem o alerta para o risco de reintrodução de doenças erradicadas por meio de casos importados.
“As metas de cobertura são estipuladas para reduzir consideravelmente a incidência de uma doença ou até mesmo eliminá-la. Quando não conseguimos atingir esse índice, uma parte da população ainda fica bastante suscetível. Estamos falando de doenças que se espalham rapidamente”, pontua a gerente de farmacovigilância do Instituto Butantan.
O registro de um caso confirmado de sarampo na capital paulista, em março de 2026, ilustra essa vulnerabilidade. O vírus foi contraído por um bebê de seis meses durante uma viagem em família para a Bolívia, país que enfrenta problemas com a doença. A criança não estava vacinada, pois ainda não tinha idade para receber a tríplice viral – de acordo com o calendário do PNI, a primeira dose do imunizante deve ser aplicada aos 12 meses com um reforço aos 15.
Mayra Moura explica que em situações como essa, a proteção depende justamente da chamada imunidade coletiva: ou seja, quanto maior a proporção de pessoas vacinadas na comunidade, menor a circulação do vírus e o risco de exposição dos indivíduos vulneráveis.
Apesar de o Brasil manter o certificado de país livre da circulação endêmica do sarampo, concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em 2024, a manutenção desse status depende da vigilância epidemiológica contínua e da manutenção de coberturas vacinais elevadas em todo o território nacional.

Vacina da gripe: cobertura dos grupos prioritários alcançou pouco mais da metade do público-alvo nas regiões Sul, Sudeste, Centro Oeste e Nordeste em 2025 (Foto: Marília Ruberti)
Indicada para meninos e meninas entre 9 e 14 anos, a cobertura da vacina contra o HPV nunca atingiu de forma homogênea a meta estabelecida de 90%, desde que integrou a lista do PNI.
Os dados mais recentes mostram oscilações importantes entre as coberturas dos públicos feminino e masculino, assim como nas diferentes faixas etárias contempladas pela estratégia. Em 2026, a cobertura entre meninas de 9 a 14 anos é de 74,14% até o momento, e entre os meninos o número é de 66,14%.
No entanto, a vacinação aos 9 anos, idade inicial para receber o imunizante, registra coberturas muito baixas, de apenas 19,85% entre as meninas e de 16,29% entre os meninos. Entre os adolescentes de 11 a 14 anos há as maiores coberturas, superiores a 80%.
A imunização contra o HPV é uma ferramenta fundamental para a prevenção de diversos tipos de câncer e outras doenças associadas ao papilomavírus humano. O cenário reforça a necessidade de ampliar as ações de conscientização para garantir a proteção antes do início da vida sexual, momento em que a vacina apresenta maior efetividade.
Outra preocupação das autoridades são as baixas coberturas da vacinação contra a gripe no país, que protege contra o vírus influenza. O imunizante é recomendado para crianças de 6 meses a menores de 6 anos, gestantes, puérperas e pessoas acima dos 60 anos, e deve ser administrado anualmente, uma vez que o microrganismo tem alta capacidade de mutação.
Em 2025, a cobertura dos grupos prioritários alcançou pouco mais da metade do público-alvo nas regiões Sul, Sudeste, Centro Oeste e Nordeste. Apenas 1,38% dos municípios das regiões registraram cobertura vacinal significativa, acima dos 80%; enquanto 48,95% marcaram índices de vacinação entre 41% e 60%. Já no Norte, onde a campanha acontece no segundo semestre, por conta da sazonalidade da doença, a cobertura vacinal foi ainda menor: de apenas 47,98%.
De acordo com a gerente de farmacovigilância do Instituto Butantan, quando o assunto é hesitação vacinal, tem pesado na balança os constantes questionamentos à segurança do produto explorado pelos chamados “antivacinas”. Fundamentado na disseminação de fake News e que ganhou força com a pandemia de Covid-19.
“As vacinas estão entre os medicamentos mais seguros que existem. Assim como qualquer produto, no Brasil elas passam por uma avaliação rigorosa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária [Anvisa] – que é uma das mais respeitadas no mundo –, antes de serem aplicadas na população”, afirma a especialista. Para isso, os imunizantes são submetidos a uma série de testes que confirmam sua segurança.
A gerente de farmacovigilância do Instituto Butantan explica que mesmo depois do aval da Anvisa, esses produtos continuam sendo monitorados. “Enquanto as pessoas estiverem sendo vacinadas, a farmacovigilância estará ativa. O objetivo será sempre garantir que o benefício de um imunizante seja superior a um possível risco que ela possa trazer. Na maioria das vezes, as vacinas desencadeiam reações leves a moderadas, como dor e vermelhidão no local da aplicação, febre baixa e mal-estar e são autolimitadas, ou seja, duram poucos dias”, conclui Mayra Moura.
*Dados atualizados até 4/2026 e coletados em 3/6/2026.



