Até 8 milhões de pessoas na América Latina convivem com a doença de Chagas, mas 70% desconhecem infecção

O motivo por trás das alterações no material genético e proteínas que envolvem o protozoário ainda são uma incógnita


Publicado em: 14/04/2022

Após 113 anos de sua descoberta pelo médico sanitarista e pesquisador Carlos Chagas, o Trypanosoma cruzi, parasita causador da doença de Chagas, ainda é objeto de estudo da saúde pública. Na América Latina, segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), até 8 milhões de pessoas convivem com a doença. No entanto, 70% delas não sabem que estão infectadas devido à ausência de sintomas clínicos. Ainda de acordo com a OPAS, mais de 10 mil pessoas morrem a cada ano em consequência de complicações e cerca de 75 milhões de pessoas na região correm risco de contrair a doença.

Originária do meio rural, a doença de Chagas migrou para o meio urbano devido às condições precárias de habitação da população. Com as mudanças de ambiente, a infecção passou a ocorrer menos pela picada do inseto barbeiro e mais por via oral, transfusão e/ou condição congênita. Mas, ainda assim, o êxito do Trypanosoma cruzi nas células de infectados segue chamando a atenção.

O Laboratório de Ciclo Celular do Instituto Butantan estuda justamente os mecanismos moleculares envolvidos nos processos de replicação e alterações no material genético do Trypanosoma cruzi, fundamentais para que ele seja capaz de causar infecção em seres humanos. Outro foco de estudos é o poder de replicação do parasita, que permite a ele se adaptar facilmente e, assim, driblar o sistema imunológico. “Entender essa variabilidade genética e as modificações químicas nas proteínas ajudará no desenvolvimento de novos medicamentos para a doença”, destaca a pesquisadora Maria Carolina Sabbaga, diretora do laboratório.

Os estudos buscam compreender também as alterações na cromatina (complexo de DNA mais proteínas presentes no núcleo celular do T. cruzi), que ocorrem durante o ciclo de vida do parasita, e como acontecem as transições entre as diferentes formas de vida, que vivem em organismos vertebrados e invertebrados.

A facilidade do protozoário em alterar sua forma genética contribui não apenas para a infecção, mas também para sua resistência a tratamentos. Atualmente, há somente dois medicamentos disponíveis para a doença de Chagas, o benznidazol e o nifurtimox, desenvolvidos na década de 1970. “A biologia do Trypanosoma cruzi é pouco entendida e estudos recentes mostraram que parasitas que sobreviveram a tratamentos se replicavam em uma velocidade muito baixa. Esse fator pode estar ligado à sua resistência, o que dificulta encontrar novas drogas”, ressalta Simone Guedes Calderano, pesquisadora do Laboratório de Ciclo Celular.

 

Uma doença grave e silenciosa

A doença de Chagas tem como vetor o barbeiro. A transmissão acontece pelas fezes do inseto, depositadas na pele da pessoa durante a picada, que provoca coceira. O ato de coçar facilita a penetração do Trypanosoma cruzi no organismo, o que pode acontecer também pela mucosa dos olhos, nariz e boca ou feridas e cortes na pele.

Os sintomas iniciais, quando ocorrem, são genéricos, o que torna mais difícil o diagnóstico. Na fase aguda, os sintomas envolvem febre, mal-estar, falta de apetite, inchaço, entre outros. Já na fase crônica, os pacientes podem passar um longo período, ou a vida toda, sem apresentar manifestação da doença. O tratamento é feito com medicamentos que são eficazes apenas na fase inicial, por isso a importância da descoberta logo no começo.

“Geralmente as pessoas infectadas só irão descobrir que têm a doença muitos anos após a infecção, quando os problemas cardíacos surgem. Por isso ela é uma doença silenciosa, já que permanece por muitos anos sem ser diagnosticada”, afirma Simone. “Quando o T. cruzi entra no nosso organismo, ele consegue infectar praticamente qualquer tipo de célula, como a muscular e a cardíaca, mas a doença não se manifesta, ao contrário da leishmaniose, também causada por protozoários.”

 

Sobre a doença de Chagas

Comum nas Américas Central e Latina, a doença de Chagas costuma atingir populações mais vulneráveis, já que o barbeiro se aloja em frestas ou buracos das paredes em casas de taipa ou barro, entre outros locais. “Com o avanço da sociedade no meio ambiente, invadimos o espaço do barbeiro, o que aumenta as chances de contaminação. É preciso pensar em conjunto, na saúde do meio ambiente e da pessoa”, lembra Maria Carolina.

A prevenção é feita com medidas de controle ao barbeiro, que consistem em ações educativas e, principalmente, melhoria das condições de habitação da população, o que já proporcionou a diminuição das contaminações através da picada do vetor. Atualmente, a maior parte das infecções ocorre por via oral.