Reportagem: Camila Neumam
Fotos: José Felipe Batista/Comunicação Butantan
Ricardo Stuckert/Presidência da República
O Instituto Butantan, órgão ligado à Secretaria de Estado da Saúde (SES) de São Paulo, anunciou nesta segunda-feira (9) um pacote de investimentos de R$ 1,85 bilhão em obras de ampliação, construção e equipagem de novas fábricas de vacinas e soros hiperimunes, para atender a população brasileira por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). A data também marcou o início da vacinação de profissionais de saúde com a Butantan-DV, a primeira vacina contra dengue em dose única do mundo, desenvolvida pelo Butantan.
Os investimentos preveem a construção de uma fábrica de vacina tetravalente contra o Papilomavírus Humano (HPV); a reforma da unidade de produção e desenvolvimento de vacinas com a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA); a construção de uma nova fábrica para produção do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) da vacina DTPa (difteria, tétano e coqueluche); e a reforma do prédio de produção de soros com a criação de uma nova área de envase e liofilização do produto.
As obras serão financiadas por meio de um aporte de aproximadamente R$ 1 bilhão do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, além de R$ 450 milhões para equipamentos. O Instituto Butantan, por meio da Fundação Butantan, investirá mais R$ 400 milhões nos empreendimentos.

O anúncio foi realizado em evento que contou com as presenças do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva; do ministro da Saúde, Alexandre Padilha; do vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin; do ministro da Fazenda, Fernando Haddad; do ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, Márcio França; do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos; do secretário do Estado da Saúde de São Paulo, Eleuses Paiva; do diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás; e do diretor da Fundação Butantan, Saulo Simoni Nacif.
Para Esper Kallás, o anúncio acontece em um dia de celebração para a saúde brasileira. Segundo ele, o empenho dos mais de 4.000 colaboradores do Butantan permitiu à instituição “fazer uma proeza do ano passado para cá”: disponibilizar a vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), que combate a bronquiolite em bebês, para gestantes; iniciar a vacinação piloto contra a chikungunya em dez cidades brasileiras; e iniciar a vacinação contra dengue no Brasil com a Butantan-DV. Tudo isso sem deixar de manter o oferecimento de soros para o SUS; o desenvolvimento de anticorpos monoclonais que tratam desde doenças autoimunes até câncer, e manter a produção do seu amplo portfólio de vacinas.
“As vacinas são uma das principais armas de redução de desigualdade. Elas estão sempre no foco desse instituto e de nossas instituições irmãs do Brasil para atingirmos ou ficarmos muito próximos da autossuficiência tão necessitada aqui no país”, afirmou Esper Kallás.
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O diretor do Instituto ressaltou que o Butantan utilizará os investimentos em projetos de inovação, como o aprimoramento da vacina contra o HPV, visando torná-la nonavalente. “Temos a ambição de ser um dos principais centros de desenvolvimento e produção de tecnologia de RNA, não só para vacinas, mas também para várias outras tecnologias, inclusive para enfrentamento do câncer. E estes recursos vão ajudar”, disse.
O viés tecnológico poderá ainda aprimorar o compromisso da instituição com os seus valores tradicionais, ressaltados nos 125 anos que completa este ano. “O Instituto Butantan é cultura, educação, ciência, divulgação científica, inovação, desenvolvimento e gestão com responsabilidade e transparência. Viva a saúde brasileira, viva a ciência, viva o SUS”, finalizou Esper, emocionado.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembrou-se de sua primeira visita ao Instituto, em 2003, quando foi apresentado ao projeto da fábrica de vacinas de influenza, e do trabalho contínuo do Butantan até se tornar fornecedor de 100% das vacinas de gripe do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

“Fortalecer o Butantan não é uma decisão econômica. Ajudar o Butantan é ajudar 215 milhões de almas que vivem nesse país e que precisam que o estado brasileiro invista”, disse.
Lula ressaltou ainda o trabalho incansável do Instituto em combater fake news sobre vacinas e afirmou que este deve ser um trabalho de toda a população.
“Qual é o país que tem a primazia de ter um Instituto Butantan? Por isso, temos a obrigação de não desanimar, de fazer campanha, de falar na escola, até que a gente convença as pessoas de que tomar a vacina significa evitar a possibilidade de que, em algum momento, a natureza possa atrapalhar a vida de uma pessoa”, ressaltou o presidente da República.

A parceria do Ministério da Saúde com o Instituto Butantan marca um momento histórico na vida do país, na opinião do titular da pasta, Alexandre Padilha.
“Hoje nós estamos presenciando um marco histórico que vai colocar o Butantan entre os maiores complexos de inovação e tecnologia industrial do mundo. Diferente de outros grandes complexos econômicos, tecnológicos e industriais, esse aqui é 100% SUS. Cada vacina que sai daqui, cada medicamento que sai daqui, cada tecnologia que sai daqui, cada inovação que vai sair daqui, vai tratar as pessoas no Brasil. E cada vez mais, vai tratar no mundo, com o único interesse de salvar vidas”, afirmou o ministro.

A partir desta segunda (9), começa a vacinação contra dengue em profissionais de saúde em todo o país. O início da imunização foi marcado pela imunização, realizada durante o evento no Butantan, de duas agentes comunitárias de saúde: Lucimeire Coelho, vacinada pelo ministro Alexandre Padilha; e Francisca de Oliveira que foi vacinada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. Esper Kallas, médico infectologista e um dos pesquisadores principais do estudo clínico de fase 3 que comprovou a eficácia do imunizante, também foi imunizado por Alckmin durante a cerimônia.
Para o secretário de Estado da Saúde, Eleuses Paiva, o início da vacinação dos profissionais de saúde, ressalta que “a vacina de São Paulo, feita pelo Instituto Butantan, é para todos os brasileiros”.
“Eu não tenho dúvidas que esse passo que o Butantan dá hoje, que o estado de São Paulo dá hoje, é a grande ferramenta que vamos ter para enfrentar e derrotar definitivamente a dengue no nosso país”, concluiu.

Representantes de outras instituições de saúde estiveram presentes no evento, como o presidente do Conselho Diretor do Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Roberto Kalil Filho; o professor titular da Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Hoff; e o reitor da Universidade de São Paulo, Aluísio Augusto Cotrim Segurado.
Uma das obras mais importantes do pacote de investimentos é a construção da planta para a produção de IFA da vacina tetravalente contra o Papilomavírus Humano (HPV), grupo de mais de 200 tipos de vírus, responsável por causar a infecção sexualmente transmissível mais comum do mundo. Alguns destes vírus podem provocar verrugas genitais, outros afetam a pele e as mucosas, enquanto os mais agressivos estão associados a diversos tipos de câncer, como o de colo do útero. Pesquisa nacional divulgada pelo Ministério da Saúde, em 2023, mostrou que a taxa de infecção pelo HPV na região genital atinge 54,4% das mulheres que já iniciaram a vida sexual e 41,6% dos homens. O novo prédio viabilizará terá capacidade produtiva para 20 milhões de doses ao ano.
A reforma da unidade de produção e desenvolvimento de plataforma com a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) vai permitir a produção local de IFA de vacinas deste modelo, e terá capacidade produtiva de 15 milhões de doses. Uma das mais promissoras da atualidade, a plataforma vacinal de RNA mensageiro permite a rápida entrega de vacinas em larga escala. Diferentemente das vacinas convencionais, que são produzidas a partir do próprio agente infeccioso morto ou atenuado, a vacina de mRNA é produzida de forma sintética utilizando parte da sequência genética do agente infeccioso. Inicialmente, essa plataforma será utilizada para o desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19 e outra vacina contra a raiva.
Os recursos também irão contemplar a construção de uma nova fábrica para produção do IFA para a vacina contra difteria, tétano, pertussis (coqueluche), que permitirá a produção anual de 6 milhões de doses de dTpa – tríplice bacteriana acelular tipo adulto, que protege contra difteria, tétano e coqueluche – e 1 milhão de doses de DT, que previne difteria e tétano, indicada a partir de 7 anos.
O pacote contempla, ainda, a reforma do prédio de produção de soros e criação de uma nova área de envase e liofilização, permitindo dobrar a capacidade produtiva da unidade, que aumentará sua produção anual de 600 mil frascos de soro para 1,2 milhão de frascos. Já com a nova área de envase, o Instituto Butantan terá capacidade para envasar anualmente 5,2 milhões de frascos na forma líquida e 7,1 milhões de doses na forma liofilizada, tanto de soros como de vacinas.



