Reportagem: Aline Tavares
Fotos: José Felipe Batista e Carlos Alexandre Mattos Raposo (capa)
O que é o que é: tem oito pernas compridas, coloração marrom e “pinças” (quelíceras) perto da boca? Não, não estamos falando das aranhas, e sim dos opiliões! Eles também são aracnídeos, mas pertencem a um grupo diferente do de suas parentes, e são frequentemente confundidos com elas. São mais de 6 mil espécies ao redor do mundo, sendo mil só no Brasil, especificamente nas regiões da Mata Atlântica e do Cerrado.
Os opiliões podem ser encontrados nos mais diversos locais, mas gostam mesmo é de áreas com matéria orgânica em decomposição, umidade e pouca luz – como entre folhas caídas no chão, em troncos de árvores, em cavernas e, às vezes, até no quintal das nossas casas.
Em geral, esses aracnídeos são onívoros e se alimentam de matéria orgânica, como restos de alimentos, folhas e sementes, mas alguns podem se nutrir de pequenos insetos e até de fezes e restos animais.
Quando ameaçado, o opilião possui uma estratégia de defesa um tanto desagradável: ele secreta uma substância malcheirosa que afasta todos os animais que estão por perto, podendo até ter um efeito letal em alguns predadores. O odor é tão ruim que, no Brasil, o animal foi apelidado de “aranha-bode” ou “aranha-fedorenta”.
O opilião (à direita) tem apenas um par de olhos, e a aranha (à esquerda) pode ter três ou quatro pares
Mas, afinal, qual a diferença entre opilião e aranha?
O principal motivo da confusão é que ambos têm o mesmo número de pernas. No entanto, é preciso lembrar que todos os aracnídeos possuem oito pernas – essa subclasse de artrópodes inclui não somente aranhas, mas também opiliões, escorpiões, ácaros e carrapatos.
Observando com atenção, é possível notar muitas diferenças entre o opilião e a aranha. Enquanto o primeiro possui somente um par de olhos, o segundo geralmente apresenta três ou quatro pares (ou seja, seis ou oito olhos no total).
Além disso, o corpo do opilião é composto por uma única estrutura sem divisão; já o da aranha é separado em duas partes: o abdômen e o cefalotórax (que une cabeça e tórax). O tamanho também é bem diferente: o opilião pode medir até 1,5 cm, desconsiderando as pernas, enquanto as aranhas podem variar de alguns milímetros a 20 cm, dependendo da espécie.
Outra característica importante é que o opilião não faz teia, pois não possui glândulas de seda, e também não tem glândula de veneno, diferente das aranhas.
Existe, no entanto, uma espécie de aranha que é bastante parecida com esse aracnídeo: a Pholcus phalangioides, da família Pholcidae, que possui corpo pequeno e pernas compridas. Também conhecida como aranha de porão, costuma viver no interior das casas e não representa perigo para nós, humanos – ainda que seu veneno seja altamente tóxico para insetos e outras aranhas.
Aranha Pholcus phalangioides, do lado esquerdo, e o opilião, do lado direito
O opilião pode picar?
Não. As peças bucais do opilião são muito pequenas para que ele consiga picar. O que pode acontecer – e que geralmente é confundido com uma picada – são acidentes com os espinhos de suas pernas. Eles causam somente um ferimento físico, e não envenenamento, uma vez que não estão ligados a nenhuma glândula.
Ainda assim, a “espetada” pode assustar quando as pessoas confundem o opilião com a aranha-marrom (Loxosceles) – aquela que causa envenenamento grave e pode gerar necrose na pele. Na dúvida se está diante de um opilião ou uma aranha-marrom, lembre-se que esta tem pernas mais grossas, seis olhos e quelíceras maiores. Além disso, ela só pica se for pressionada contra o corpo, como quando colocamos um sapato ou uma roupa. O envenenamento pela aranha-marrom pode ser tratado com o soro antiaracnídico produzido no Instituto Butantan.
Essa matéria contou com a colaboração do aracnólogo e tecnologista do Laboratório de Coleções Zoológicas do Butantan, Paulo Goldoni
Referências:
American Arachnological Society
Harvestmen: The Biology of Opiliones. Editora: Harvard Univ Press. 2007.