Reportagem: Marcella Franco
Fotos: Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória
A paulista Noêmia Saraiva tinha 38 anos quando, em meio a uma discreta trajetória no magistério, recebeu um convite que mudaria sua carreira por completo. Nascida em 21 de setembro de 1894 em Rio Claro, cidade do interior de São Paulo, Noêmia foi chamada para lecionar na Escola Isolada de Butantan. Instalado nas dependências do Instituto Butantan, o estabelecimento atendia aos filhos de funcionários e às crianças da comunidade local. A chegada de Noêmia seria o início de uma revolução pedagógica não apenas para seus alunos, mas para a história da educação brasileira como um todo.
Formada em 1912, aos 18 anos, pela Escola Normal da Praça da República – onde hoje funciona a Escola Estadual Caetano de Campos, no centro da capital –, Noêmia conquistou o primeiro emprego como professora substituta no Grupo Escolar da Consolação. Pouco tempo depois, foi nomeada professora adjunta no Grupo Escolar de Pedreira, na zona rural paulista, onde conheceu de perto a vida no campo e vislumbrou a possibilidade de um ensino que abordasse essa temática em sala de aula.
Sua carreira foi brevemente interrompida na década de 1920, quando pediu exoneração do cargo de professora no Grupo Escolar do Arouche, no centro de São Paulo. O motivo era nobre: Noêmia se mudaria em breve para o Rio de Janeiro, logo depois de seu casamento com o industrial português Aristides de Matos Cruz, membro de uma família influente repleta de grandes figuras da magistratura e do direito paulistas da época.
Anos se passaram antes que os Matos Cruz retornassem a São Paulo. Assim que chegaram, retomaram o contato com um dos padrinhos do casal, o jornalista Oscar Americano. Oscar, um dos sete irmãos de Vital Brazil, médico e cientista que fundara o Instituto Butantan em 1901, apresentou Noêmia ao educador Horácio da Silveira, que atuava como articulador de outra grande figura da educação paulista, seu conterrâneo Sud Mennucci.
Nascido em 1892 em Piracicaba, Mennucci foi um influente jornalista, geógrafo e intelectual. Ocupava à época o cargo de diretor geral de Ensino do Estado de São Paulo e sonhava em tirar do papel uma reforma educacional em toda a rede. Para tanto, requisitava professores e criava grupos escolares experimentais voltados a essa formação. Ao conhecer Noêmia – que agora assinava o sobrenome de casada, Saraiva de Matos Cruz –, viu nela a figura ideal para assumir uma vaga na Escola Isolada de Butantã.

Professora Noêmia com estudantes do Clube Agrícola do Grupo Escolar do Butantan. Foto: Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória
A educadora aceitou a proposta: recebeu em 1932 o desafio de voltar a lecionar e se comprometeu, ali, a implementar propostas inovadoras na escolinha criada por Vital Brazil em 1908, e à época sob a direção de Dinorah Círio Chacon. Noêmia atuava como professora do 4º ano ao mesmo tempo em que se especializava em técnicas laboratoriais e biologia aplicada no Instituto Biológico e na Secretaria de Agricultura.
Nos dois núcleos de pesquisa, buscava estofo para aplicar algumas das práticas ruralistas com as quais já havia tido contato no passado, no Grupo Escolar de Pedreira, e sobretudo inspirada no modelo norte-americano dos 4-H Clubs, núcleos de jovens agricultores e criadores inventados na virada do século 20 e popularizados na década de 1930 na América do Norte. Inspirados em algumas ideias de John Dewey (1859-1952), nesses clubes imperava a ideia de aprender fazendo [learning by doing, em inglês] e o ensino pelo trabalho, que seriam tomados princípios pedagógicos do projeto da escola no Butantan.
No Brasil da época ganhava vulto o movimento ruralista, ou ruralismo pedagógico, que procurava valorizar a agricultura por meio de um currículo diferenciado, incluindo princípios de agronomia e educação sanitária. Sud Mennucci foi um de seus principais representantes e divulgadores, defendendo que as escolas tinham o poder de capacitar os alunos para o futuro no campo.
Para Mennucci, a grande causa dos problemas da educação no Brasil era sua inadequação ao que o pensador considerava como a missão do país, ainda fundamentalmente agrícola. A solução da educação seria a construção de uma proposta educacional para a formação do “homem do campo” como motor do desenvolvimento nacional.
Em 19 de novembro de 1933, Noêmia Saraiva de Matos Cruz fundou o Clube Agrícola Escolar nas dependências da escola, que em 1925 fora elevada de Escola Isolada para Grupo Escolar. Seguindo as técnicas do pedagogo francês Claude Perret, a educadora rompeu com o ensino meramente teórico e conduziu as crianças para o lado de fora, onde elas passaram a aprender matemática calculando áreas de canteiros e quantidades de sementes, e desenvolveram técnicas narrativas relatando suas observações diárias dos animais e das plantas. No seu dia a dia no clube, os alunos plantavam árvores, colhiam mel, faziam ninhos para galinhas, tiravam ervas daninhas, criavam coelhos.

Estudantes também tinham criação de coelhos. Foto: Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória
O Clube Agrícola de Noêmia oferecia carteirinhas de identificação, feitas em cartolina amarela, e os vencedores dos concursos e gincanas promovidos eram registrados em fotos feitas pela professora e batizadas de “Instante do Campeão”. A organização do grêmio cabia aos próprios alunos, que elegiam, com voto secreto, um presidente, um tesoureiro, alguns secretários e vários zeladores. De vez em quando, promoviam feirinhas ou exposições onde vendiam o excedente da produção – a verba arrecadada era destinada à compra de novas ferramentas ou livros.
Em 19 de agosto de 1933, o Decreto nº 6.047 ruralizou oficialmente o Grupo Escolar Butantã (com a grafia ainda sem o “n” final), declarando Noêmia sua diretora oficial. Em setembro do mesmo ano, a educadora assumiu oficialmente a direção da unidade, então batizada como Grupo Escolar Rural do Butantan (GERB).
“Foi uma profissional muito à frente do seu tempo, e tê-la na Escola Rural do Butantan foi uma sorte”, avalia Suzana C. Gouveia Fernandes, doutora em História e diretora do Centro de Desenvolvimento Cultural do Butantan. “Noêmia virou referência a partir dessa experiência no Butantan, e se dedicou a divulgar esse modelo de escola rural como o modelo a ser seguido no país”, afirma o pesquisador científico e diretor do Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv), Paulo Nico Monteiro, que investigou a atuação de Noêmia no projeto de pesquisa financiado pela FAPESP “O Grupo Escolar Rural de Butantan: história da educação e do ensino no Instituto” entre 2022 e 2023, ao lado de Suzana e Ariadne Ecar, doutora em Educação.
“Noêmia entendeu como tinha que trabalhar frente ao governo do estado de São Paulo para conseguir de fato ascender na carreira, e por fim passou de professora para diretora, e seguiu escalando. Ao mesmo tempo, ela era visionária ao traçar, por exemplo, uma visão de ecologia, claro que circunscrita naquela época, mas que já era levada para dentro da escola, para a formação dos seus alunos e dos familiares deles. É preciso valorizar esse protagonismo”, diz Suzana.

Estudantes da Escola Rural aprendiam sobre horticultura. Foto: Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória
Em sua tese de doutorado “Debates sobre o ensino rural no Brasil e a prática pedagógica de Noêmia Saraiva de Matos Cruz no Grupo Escolar Rural de Butantan (1932-1943)”, apresentada à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo em maio de 2017, Ariadne Lopes Ecar, sob orientação de Diana Gonçalves Vidal, afirma que no GERB “o mobiliário e os objetos pedagógicos ficavam dispostos de forma a estimular o ensino multidisciplinar”.
Ariadne evidencia a preferência de Noêmia por “carteiras duplas, dois álbuns seriados – um com iniciação geográfica e outro com fotos de animais domésticos; duas lousas com conteúdo diferente: uma com quadro frontal com o sistema métrico decimal e na outra, palavras escritas e a demonstração do verbo ‘ser’ no singular e no plural”.
Uma das bases teóricas e práticas para o trabalho de Noêmia era a obra “Como ensinar agricultura na escola primária – Organização de ensaios e experiências agrícolas para se fazer na escola primária”, do francês Claude Perret. A professora traduziu à mão, com caligrafia caprichada, as 65 páginas da obra, e a transformou no "Livro do Mestre", uma espécie de guia para orientar os professores do Grupo Escolar Rural do Butantan.
Em fevereiro de 1934, Noêmia publicou o artigo “Ensino Rural” na Revista da Sociedade Rural Brasileira. Nele, dizia que “a educação rural converte a criança em um investigador da sua própria experiência, mediante um processo lógico que vai da observação à abstração e à generalização. Na escola rural a criança deve ser encaminhada para a natureza com verdadeiro carinho. No seu convívio a criança aprende a ser paciente, tenaz, perseverante e justa”.

Distribuição de frutas pelos alunos. Foto: Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória
Em agosto do mesmo ano, viajou ao 1º Congresso de Ensino Regional, realizado na Bahia, onde apresentou suas propostas pedagógicas. Lá também divulgou um documento escrito por seus alunos, com detalhes da rotina no GERB: “Entre fevereiro e março fizemos uma pequena criação de bichos de seda. Como não havia um lugar vazio na escola, resolvemos criar as lagartas na própria sala de aulas. Alguns meninos levaram para casa lagartinhas, para criarem particularmente. A nossa horta já está dando lucro, mas o nosso colega, encarregado de venda, é careiro e não vende fiado”. Dois anos depois, em 1936, Noêmia publicou "Educação Rural: uma aplicação do ensino rural na escola primária".
O trabalho de Noêmia no Butantan se encerrou em 1939, quando foi transferida para Minas Gerais a fim de reorganizar o ensino primário na zona rural do município de Juiz de Fora. Em 1943, a educadora foi nomeada Inspetora do Ensino Rural do Governo Federal, e uma década depois, teve sua aposentadoria publicada no Diário Oficial – a data era 21 de setembro de 1953, seu aniversário de 59 anos. Seu marido, Aristides de Matos Cruz, morreu em 1959, aos 73 anos. O casal não teve filhos.
Os diários de Noêmia Saraiva de Matos Cruz no GERB e centenas de fotografias deste período foram doados por sua família e estão arquivados no Centro de Memória do Instituto Butantan, e disponíveis para consulta pública. Ícone pedagógico do ensino rural brasileiro, a professora foi objeto de mais um estudo – este individual – da pesquisadora Ariadne Lopes Ecar, na Faculdade de Educação (FE) da USP. “A experiência pedagógica de Noêmia Cruz tornou-se conhecida não somente no estado de São Paulo, como em todo o Brasil. Seu trabalho continua sendo atualmente objeto de reflexão sobre o ensino rural realizado até a década de 1930”, avaliou a autora.
Em seu trabalho, Ariadne investiga a anacronia da criação de uma escola rural em um período de urbanização acelerada e grande industrialização como a década de 1930. Quando Noêmia Saraiva de Matos Cruz fundou o Clube Agrícola Escolar, em 1933, o Brasil estava sob o comando centralizado de Getúlio Vargas, ao mesmo tempo em que fervilhava com o processo de redemocratização.

O diretor do Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv), Paulo Nico Monteiro, também questionou em sua pesquisa as razões para a implantação de um projeto educacional voltado explicitamente à formação do “homem do campo” em uma escola primária de uma área em pleno processo de urbanização. Para ele, a explicação envolve “uma série de fatores políticos e relações pessoais”, mas uma das respostas seria a distinção entre a proposta para o GERB, vista como experimental, e aquela adotada pelos demais grupos escolares no estado de São Paulo. Isso é explicitado no decreto nº 6.225, que sustou “a execução do decreto nº 6.047, de 19 agosto de 1933”, mas especificou em seu texto que o programa do grupo escolar de Butantan continuava ruralizado, “a título de experiência”.
A historiadora e diretora do Centro de Desenvolvimento Cultural do Butantan, Suzana C. Gouveia Fernandes, lembra a época em que Noêmia chegou ao Butantan. “Era a década de 1930, e a vizinhança não era mais composta de sítios isolados. Já havia uma via de acesso principal pavimentada e muito utilizada, que hoje é a avenida Vital Brasil, e já havia loteamentos surgindo a partir do Jockey Club. Havia bastante comércio, e as cercanias do Butantan estavam em amplo processo de urbanização”, afirma.
À parte o ceticismo enfrentado ao longo da história, o trabalho de Noêmia é reconhecido pelos seus pares como uma experiência de êxito, resultando em um legado inquestionável para a educação brasileira. Noêmia Saraiva de Matos Cruz morreu em 23 de janeiro de 1987, aos 94 anos, em São Paulo. O Grupo Escolar Rural do Butantan, por sua vez, se dissolveu gradualmente: em 1950 parte de seu terreno foi doada pelo Instituto Butantan para a construção de um novo edifício, que a partir de 1952 abrigaria o Grupo Educacional Rural Alberto Torres, que até 1967 manteve o caráter ruralista na sua proposta. Atualmente a Escola Estadual Alberto Torres funciona em período integral no mesmo local.



