Por que as crianças precisam ser vacinadas contra a gripe; entenda em 5 motivos

Imunização previne manifestação grave da doença, evita que crianças se tornem vetores e deve ser sempre renovada


Publicado em: 02/05/2022

A gripe pode ser perigosa nas crianças, mas o simples fato de vaciná-las contra a influenza tende a impedir quadros graves, como a síndrome respiratória aguda grave (SRAG), e que elas se tornem vetores do vírus para adultos e idosos.  Por isso é necessário vacinar todas as crianças contra a gripe, mesmo aquelas que se vacinaram durante o surto no final de 2021, orientam a infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, Rosana Richtmann, e o pediatra e infectologista presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Renato Kfouri.

Os médicos abordaram a necessidade de vacinação infantil contra a influenza durante o lançamento da campanha #ProtegidoContraGripe do Instituto Butantan em conjunto com a farmacêutica Sanofi e a Mauricio de Sousa Produções na semana passada. Eles apontaram cinco motivos para vacinar as crianças contra a influenza.

A campanha de vacinação contra gripe de 2022, que está em vigor e ocorre até 3 de junho, é voltada para crianças de seis meses a menores de 5 anos (4 anos, 11 meses e 29 dias).

1- Para ajudar a evitar síndrome respiratória

“Quem acha que as crianças têm a doença mais leve se engana: 32% das que tiveram influenza em 2019 precisaram de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e quase 38% precisaram de algum suporte ventilatório”, disse Rosana Richtmann. Os dados são do Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Datasus, plataforma do Ministério da Saúde.

Outros indicadores apontam que 24,5% das crianças de zero a cinco anos que tiveram influenza naquele ano desenvolveram a SRAG, ao mesmo tempo em que 6,4% dos menores de seis a nove anos e 5,6% dos que tinham 10 a 19 anos também sofreram com a síndrome no período.

A SRAG é uma infecção por algum vírus respiratório, como o da influenza, que causa febre, dispneia e pode levar à insuficiência respiratória, entre outros sintomas graves, que podem exigir internação em UTI para suporte de oxigênio. Se não tratada, pode levar à morte.

2- Para garantir proteção contra o vírus

Para o pediatra Renato Kfouri, é importante vacinar as crianças durante a campanha de vacinação vigente para que elas estejam de fato protegidas antes do surto esperado de gripe, entre os meses de junho e julho, quando o clima esfria em boa parte do país.

“O ideal é que a gente esteja com a vacinação realizada até o fim de maio, antes do período de maior circulação do vírus. Não podemos perder de vista esse aspecto, a cobertura elevada e com a vacinação em seu tempo oportuno”, ressaltou.

Segundo o médico, quem não se vacinou no prazo deve tomar a dose mesmo assim, mas a janela de oportunidade deve ser levada em conta para garantir a proteção, sobretudo das crianças, durante a epidemia de gripe no inverno.

3- Para evitar contrair uma doença prevenível

O atraso ou a desistência da vacinação de crianças pode explicar o aumento de casos graves e a queda da cobertura vacinal contra gripe na população pediátrica. A cobertura vacinal contra gripe vem diminuindo a cada ano e em 2021 não atingiu a meta de imunizar 90% do público-alvo no país – atingindo 74%. Segundo Renato Kfouri, esta queda é decorrente da ausência da percepção de que a doença pode ser grave. 

“Quando se convivia com a pólio, coqueluche, era muito mais fácil chamar as pessoas para se vacinar. Paradoxalmente, o sucesso das vacinas acaba por controlar as doenças e a percepção de risco diminui. Por isso é importante continuar comunicando que é importante se vacinar. Esse é o futuro do sucesso da comunicação e adesão às vacinas”, disse.

Para Rosana Richtmann, a queda na cobertura desta e de outras vacinas infantis piorou com a pandemia de Covid-19, o que tende a ser bastante prejudicial para a saúde das crianças, tornando-as possíveis vítimas de surtos de gripe.

“Passamos dois anos onde a percepção de risco foi embora porque outros vírus que atingem crianças tiveram uma queda expressiva, e isso tem um preço muito alto porque temos uma geração que tem dois anos sem criar anticorpos com a exposição a vários microrganismos. A tendência é que quadros respiratórios aconteçam agora de forma mais concentrada e até mais exuberante”, afirmou a infectologista.

4- Porque a proteção é temporária

A queda na cobertura da vacina da gripe, entre outras vacinas, vem alterando o ciclo de surtos e pode ser uma das causas do alto número de casos já este ano. Segundo a plataforma Sivep-Gripe, que notifica os casos de influenza e de SRAG no país, somente em 2022 foram notificados 5.686 casos de gripe no país, mais da metade do total de 2021, quando foram notificados 10.005 casos. 

Por isso, ambos os médicos ressaltam a necessidade de vacinar-se novamente contra a influenza nesta campanha, mesmo entre os que tomaram o imunizante no final do ano passado, quando um surto de gripe fora de época atingiu parte do país – e que os especialistas atribuíram como uma das consequências da queda vacinal.

“A despeito das vacinas mudarem, é necessária a vacinação anual porque a proteção do imunizante não se prolonga por mais de oito meses”, disse o pediatra. 

A composição da vacina da influenza deste ano, especificamente, tem o subtipo H3N2 do vírus da gripe, conhecido como Darwin, o mesmo causador do surto de 2021, e que não estava presente na vacina anterior. Este fato é mais um motivo para tomar a vacina este ano. “A vacina do ano passado não vale pra este ano, mesmo quem tomou tardiamente tem que tomar esse ano também”, ressalta Kfouri.

5- Porque crianças com gripe são vetores para idosos

Outro fator que salienta a necessidade das crianças tomaram a vacina da gripe é que crianças com a doença são naturalmente vetores de alta transmissão do vírus influenza. E são elas que podem transmitir para toda a família, inclusive para os avós, que naturalmente são mais vulneráveis à doença, explica a infectologista.

“A criança não vacinada pode ser um vetor para a população idosa e 70% das mortes por influenza estão relacionadas a fatores de risco como doença cardiovascular, asmáticos, tabagistas e pessoas com diabetes e obesidade, entre outras comorbidades”, disse Rosana Richtmann.