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Um tempo na natureza: pesquisa com a participação do Butantan estrutura protocolo para estimular o bem-estar e promover a conservação da biodiversidade

Atividades ao ar livre devem incluir aprendizado e engajamento, além da simples contemplação do meio ambiente para promover benefícios em “via de mão dupla”; confira dicas práticas


Publicado em: 13/04/2026

Reportagem: Natasha Pinelli
Fotos: José Felipe Batista

No ano de 2007, mais da metade da população mundial passou a morar em cidades. O fenômeno, aliado ao uso cada vez mais excessivo de aparelhos eletrônicos – as tão faladas “telas” –, ajudou a confinar as pessoas em ambientes fechados e a distanciá-las do mundo biológico. Esse cenário tem ajudado a consolidar um fenômeno que passou a ser conhecido como “transtorno de déficit de natureza”. Criado pelo jornalista e fundador do movimento Children & Nature (Criança e Natureza), Richard Louv, o termo se refere aos impactos negativos relacionados ao distanciamento dos humanos do meio ambiente – principalmente das crianças.

Atualmente, muito tem se discutido – e feito – sobre como mitigar essa desconexão. Porém, especialistas questionam a efetividade de parte dessas ações, uma vez que muitas são unilaterais e trazem benefícios apenas ao ser humano. “Estar na natureza não significa, necessariamente, estabelecer uma conexão mais profunda com o ambiente. O simples contato nem sempre implica em engajamento ou preocupação com a conservação. E isso deveria ser indissociável”, afirma a pesquisadora e coordenadora do grupo interdisciplinar eNatureza, Eliseth Ribeiro Leão. Conduzido no Centro de Ensino e Pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein, o projeto conta com a participação do Museu Biológico do Instituto Butantan.

Diante do desafio de transformar esse contato com a natureza em uma “via de mão dupla”, capaz de gerar benefícios tanto para os humanos, como para a conservação da biodiversidade, o grupo estruturou o protocolo “Um Tempo na Natureza”. Envolvendo experiências estéticas e emocionais, integração multissensorial, conhecimento e engajamento, o modelo foi tornado público em um artigo de 2023 no periódico Frontiers in Psychology. Depois, os pesquisadores o colocaram à prova em um ensaio clínico com 486 participantes. O resultado dessa última etapa foi divulgado na revista Environment International em 2025.

“Confirmamos que o protocolo proposto foi mais eficaz em sustentar bem-estar, conexão com a natureza e engajamento pró-ambiental após 30 dias da ação quando comparado ao chamado ‘banho de floresta’, abordagem clássica que contempla apenas as questões estética e emocional e multissensorial”, explica a pesquisadora científica e diretora do Museu Biológico do Instituto Butantan, Erika Hingst-Zaher, que contribuiu com o estudo. 
 

Mulher fotografando a natureza em trilha no Butantan

 

O melhor jeito de passar um tempo na natureza, de acordo com a ciência

Com 1h30 de duração, o modelo propõe atividades específicas, guiadas pelos pilares estético e emocional, integração multissensorial, conhecimento e engajamento, e pode ser resumido da seguinte forma:

1. Preparação e avaliação emocional: o trajeto começa com uma caminhada silenciosa em meio à natureza para que o participante possa observar o ambiente e, também, avaliar como está se sentindo naquele momento.

2. Aterramento: são conduzidos exercícios de respiração e atenção plena. Os participantes são estimulados a tocar o solo com os pés descalços, ouvir os sons, sentir as texturas e os cheiros do ambiente onde estão.

3. Experiência de conhecimento: vista como o grande diferencial do modelo, a etapa envolve a participação de especialistas, a fim de garantir o compartilhamento correto de informações. As práticas propostas incluem a observação e escuta de aves, para que os participantes identifiquem espécies pelo canto; reconhecimento de espécies de árvores nativas com estimativa de idade; observação de liquens e explicações sobre as relações de simbiose e cooperação existentes na natureza; além da observação da vida em decomposição no ambiente natural e a identificação de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC).

“É nessa fase, em que vamos nomeando as plantas e os animais presentes no ambiente natural, que começamos a observar conexões mais profundas sendo criadas. Quando não sabemos o nome de algo, acabamos não ligando tanto para aquilo”, observa Eliseth Leão. 

4. Fechamento: ao término da atividade, os participantes são convidados a fazer uma nova avaliação emocional e a compartilhar uma única palavra que resumisse a experiência vivida. “‘Paz’ e ‘tranquilidade’ foram termos mencionados tanto por quem seguiu o protocolo proposto, como por quem fez o banho de floresta [grupo controle]. Mas apenas nas ações do ‘Um Tempo na Natureza’ surgiram palavras como ‘aprendizado’ e ‘contemplação’”, pontua a coordenadora do estudo.

5. Engajamento pós-atividade: para sustentar os benefícios, os participantes receberam um guia com cerca de 20 atividades simples – como observar o céu ou ouvir o canto dos pássaros – para colocarem em prática durante os 30 dias seguintes à intervenção.
 


Principais resultados

O protocolo de intervenção proposto pelo grupo de pesquisa foi testado em cinco locais do Brasil, selecionados para representar três categorias de áreas naturais: urbanas, periurbanas e rurais. Localizado nas dependências do Instituto Butantan, o Horto Oswaldo Cruz foi o ponto urbano escolhido para a coleta de dados.

De acordo com os resultados, o principal diferencial foi a durabilidade dos efeitos. Enquanto os participantes do protocolo “Um Tempo na Natureza” demonstraram maior engajamento e cuidado com a conservação do meio ambiente a longo prazo, o grupo que realizou o banho de floresta retornou aos seus níveis básicos de conexão após 30 dias – por mais que também tenham apresentado efeito positivo imediato à ação.

Quem passou pela experiência do protocolo demonstrou aumento significativo na compra de produtos ecologicamente corretos e de marcas sustentáveis após 30 dias. Também houve maior engajamento em atividades de voluntariado, doações e assinaturas de petições de organizações voltadas à proteção da natureza.

 

 

Faça você mesmo – ou venha ao Butantan!

Tanto Eliseth quanto Erika concordam que parte do protocolo – que foi publicado detalhadamente no artigo da Environment International – pode ser feito de maneira autônoma. “Qualquer pessoa pode praticar as atividades de dimensão sensorial: caminhar devagar, prestar atenção aos sons, observar o que está ao redor. Isso já traz benefícios imediatos, reduzindo o estresse e garantindo o aumento da vitalidade”, pontua Erika.

Mas, ambas especialistas ponderam: a dimensão do conhecimento e do engajamento fica comprometida sem o papel de um mediador. “É aqui onde entram atividades como as que oferecemos no Instituto Butantan. O #VemPassarinhar, por exemplo, que realizamos desde 2014, é uma oportunidade única de observar a natureza sob a orientação de especialistas, aprendendo a identificar espécies e treinar o olhar”, completa a diretora do Museu Biológico.

Além da observação de pássaros, o Parque da Ciência do Instituto Butantan oferece uma ampla variedade de experiências guiadas para quem quer aprender mais sobre a natureza e manter essa conexão a longo prazo.

 

 

O uso de aplicativos como o iNaturalist e o Wiki Aves também permite que o indivíduo identifique espécies e aprenda mais sobre a biodiversidade local por conta própria. Ambas as plataformas são referências no quesito “ciência cidadã” e contam com a colaboração de cientistas, fotógrafos profissionais e entusiastas.

“Minha sugestão para quem quer começar nessa jornada é simples: amanhã, ao acordar, antes de pegar o celular, abra a janela e olhe o céu. Depois, vá ampliando seu olhar e procure identificar o resto de natureza que está ao seu redor. Todos os dias somos presenteados com um cenário único”, conclui Eliseth.

O projeto “Um Tempo na Natureza” contou com financiamento da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. A linha de pesquisa eNatureza também tem financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).