Jararaca isolada na Ilha das Cobras há mais de 11 mil anos é tema de livro de pesquisadores do Butantan

O livro aborda uma série de pesquisas sobre curiosidades, estilo de vida, alimentação e assuntos ligados à jararaca-ilhoa


Publicado em: 21/03/2022

Descrita há mais de 100 anos pelo herpetólogo e ex-diretor do Instituto Butantan Afrânio do Amaral, um dos animais mais brasileiros das nossas matas está ameaçado de extinção: a jararaca-ilhoa. E foi justamente para relembrar a importância da serpente nativa do Brasil e, ao mesmo tempo, comemorar o aniversário de sua descrição que o pesquisador Otavio Augusto Vuolo Marques decidiu organizar e lançar o livro “A Ilha das Cobras: biologia, evolução e conservação da jararaca-ilhoa na Queimada Grande”, da editora Ponto A. A obra homenageia não só a espécie, mas a ilha em que ela vive, da Queimada Grande, conhecida como “Ilha das Cobras”.

“Em função da ilha e o animal serem emblemáticos, existir uma série de fake news sobre a serpente e ela estar completando 100 anos, achei um momento propício para fazer a publicação”, conta Otavio, que trabalha no Laboratório de Ecologia e Evolução do Butantan. O livro faz um compilado de pesquisas sobre diversos aspectos relacionados ao animal, como veneno, estilo de vida, evolução, alimentação etc.

 

Entre as diversas curiosidades abordadas está a familiaridade com a jararaca do continente, já que as duas espécies são “irmãs”. Há 18 mil anos, na era glacial, boa parte da água da Terra estava concentrada nos polos em forma de gelo. Com isso, o nível do mar era bem mais baixo, e a ilha não existia – em outras palavras, o que hoje é a ilha era parte do continente. Quando a temperatura começou a se elevar, sete mil anos depois, os gelos dos polos derreteram, isolando o território. Com isso, um certo número de jararacas foi separado das demais.

As jararacas que ficaram na ilha evoluíram de forma diferente das que ficaram no continente, tendo que se adaptar a um ambiente mais restrito. Isso desencadeou o processo de especiação, que é a formação de novas espécies – a da jararaca-ilhoa. Enquanto a jararaca do continente, que vive na mata atlântica, se alimenta basicamente de roedores e caça seus alimentos no solo, a ilhoa tem hábitos arborícolas, comendo aves que sobrevoam a ilha.

 

 

Animal ameaçado de extinção

Com uma história evolutiva tão interessante, a jararaca-ilhoa é uma grande vítima de biopirataria. Para Otavio, esse é o motivo pelo qual a espécie está criticamente ameaçada de extinção, conforme a International Union for Conservation of Nature (IUCN) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Ele acredita que o sequestro das serpentes da ilha – onde só é permitido o desembarque de pesquisadores e pessoal da Marinha – é um dos principais fatores que ameaçam a sobrevivência da espécie. Uma das alunas de Otávio chegou a ser abordada por um homem interessado em comprar uma serpente da ilha. “É um animal endêmico, só tem na ilha. Se acabar lá, o planeta perderá mais uma espécie”, resume o pesquisador.

Uma das iniciativas para salvar a espécie é a criação da serpente em cativeiro no Butantan. Com autorização do ICMBio, Otavio coletou cerca de 20 espécies da ilha e trouxe para o Instituto. Atualmente, o número de jararacas-ilhoas já é de 50. Por terem se acostumado ao cativeiro, a reintrodução das serpentes na natureza, caso a espécie seja extinta do habitat natural, não é um procedimento simples. Para ajudar nesse processo, o Butantan está desenvolvendo um espaço que vai simular a vegetação, ambiente e topografia da ilha – a temperatura da ilha, por exemplo, não baixa de 15 ºC. O objetivo é que as serpentes vão se acostumando ao ambiente que encontrarão no futuro. “A gente tem que criar condições similares à do ambiente natural para que ela enfrente as adversidades naturais e esteja apta a colonizar a ilha”, explica.

 

Preservação e relação com a sociedade

Outro aspecto abordado no livro é o projeto “Mão na Cobra”, que envolve a formação de professores de Itanhaém sobre a jararaca-ilhoa e, futuramente, palestras dos próprios pesquisadores nas escolas do município sobre a importância da preservação da espécie. “A criança tem uma curiosidade intrínseca, isso é o que move a ciência. Esperamos que eles criem um vínculo com a jararaca-ilhoa”, explica Otávio.

A Ilha da Queimada Grande está localizada a 35 quilômetros da costa de Itanhaém e tem cerca de 1.500x500m².

 

Créditos das fotos: Otavio Augusto Vuolo/Instituto Butantan e Comunicação Butantan