Variante ômicron e baixa procura pela dose de reforço causaram surto na China; maioria dos positivos é assintomática, garante VP da Sinovac

Vice-presidente da Sinovac Weining Meng diz que surto não está ligado ao tipo de vacina; vacinação impediu casos graves


Publicado em: 14/04/2022

O recente surto de Covid-19 em Xangai, na China, que levou o governo a decretar um lockdown rígido e manter 25 milhões de pessoas em casa, está relacionado à baixa adesão à dose de reforço, especialmente na população idosa que é uma das mais vulneráveis, e à circulação da variante ômicron do SARS-CoV-2. Essa cepa é mais transmissível e exige a administração de uma terceira dose para manter a proteção, independente de qual vacina foi aplicada anteriormente. O aumento de casos, portanto, não se deve ao uso de vacinas de vírus inativado.

Segundo o vice-presidente da farmacêutica Sinovac, Weining Meng, a medida adotada em Xangai segue a política chinesa de “Covid zero”, que procura manter os indivíduos com PCR positivo isolados, mesmo aqueles sem sintomas. “De 25 mil pessoas que testam positivo, apenas 400 apresentam sintomas. A maioria é assintomática justamente porque já recebeu a vacina e está protegida contra casos graves”, afirma. Ele acrescenta que a China conduz testagens em massa na população, o que possibilita identificar com mais facilidade casos assintomáticos, algo que não costuma ser feito em outros países.

 

Independente da tecnologia utilizada, todas as vacinas contra Covid-19 são menos efetivas contra a infecção pela ômicron, mas mantêm a proteção contra casos graves, como já foi observado em estudos de mundo real. Em Hong Kong, por exemplo, após três doses de CoronaVac ou Pfizer (vacinas mais aplicadas na região), a proteção contra a ômicron grave subiu para 97%. “No Chile, um estudo com 500 mil crianças de três a cinco anos vacinadas apenas com duas doses de CoronaVac mostrou uma efetividade alta contra a doença grave causada pela ômicron”, completa Weining.

Segundo informações da Comissão Nacional de Saúde da China fornecidas à imprensa internacional, 48% dos idosos acima de 70 anos tomaram as três doses da vacina – para quem tem mais de 80 anos, esse percentual cai para 20%. “A principal razão para o novo surto na China é que muitas pessoas não estão buscando a dose de reforço – e com a ômicron circulando, a terceira dose é necessária independente da vacina”, diz o imunologista Gustavo Cabral, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

 

Vírus inativado é uma das tecnologias mais consolidadas no mundo

Gustavo reforça que o recente aumento de casos na China não ocorreu devido ao uso de vacinas inativadas – tecnologia que é utilizada há mais de 80 anos, desde a criação da vacina da gripe em 1930. No país asiático, 93% das vacinas aplicadas contra a Covid-19 usam essa tecnologia, presente na CoronaVac e no imunizante da Sinopharm – no mundo, mais de 3 bilhões de doses dessas vacinas já foram distribuídas em mais de 50 países. “A ciência não surgiu agora. Antes da Covid-19, as outras pandemias foram controladas com vacinas de vírus inativado ou de vírus atenuado, como a H1N1 em 2009. O Brasil também pode enfrentar novos surtos se nós entrarmos em discussão sobre qual vacina é melhor e prejudicarmos a confiança nos imunizantes. A melhor vacina para aplicar na terceira dose é aquela que estiver disponível”, destaca.

A efetividade da CoronaVac em crianças, adultos e idosos já foi amplamente comprovada em estudos científicos de mundo real, inclusive na terceira dose. No público pediátrico, a vacina protegeu mais de 90% contra hospitalizações e internações, de acordo com uma pesquisa do Chile. Já os idosos ficaram com proteção de 96,9% contra hospitalizações e mortes, segundo dados do Projeto S, estudo de efetividade feito pelo Butantan em Serrana. O trabalho também mostrou que a dose de reforço da CoronaVac mantém os anticorpos neutralizantes por pelo menos seis meses.