Por que acontecem mutações do SARS-CoV-2 e quais as diferenças entre cada uma das variantes
Publicado em: 09/09/2021

Todos os vírus, incluindo o SARS-CoV-2, mudam com o tempo. Quanto mais oportunidades um vírus tiver de se espalhar, mais chances ele terá de se replicar e mudar. A mutação é um processo natural e evolutivo, ainda mais se o organismo em questão tiver em sua constituição ácido ribonucleico (RNA, o material genético do vírus), como é o caso do SARS-CoV-2.

As mutações acontecem quando o vírus se adapta ao ambiente para sobreviver. Ao invadir uma célula, o vírus entrega seu material genético aos ribossomos, estruturas nas quais são produzidas as proteínas das células. Os ribossomos montam as cópias do vírus. Sempre que isso acontece, existe a chance de acontecer um erro na réplica. Uma ou outra mutação pode dar vantagem ao vírus e, ao ser passado adiante, ele vai produzir cópias já com essa vantagem, se tornando uma variante.

Quanto menos o vírus for transmitido, menos as chances de ele sofrer mutações. Por isso, medidas de proteção como usar máscaras e higienizar as mãos com sabão e álcool em gel, evitar aglomerações e manter o distanciamento social, além de completar o esquema vacinal contra a Covid-19, são iniciativas que funcionam contra todas variantes da Covid-19.

Existem milhares de variações genéticas do vírus original causador da Covid-19, mas nem todas são letais ou contagiosas. No início da pandemia, as variantes do SARS-CoV-2 recebiam o nome da região onde tinham sido descritas. Para evitar discriminação e facilitar o entendimento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) mudou essa nomenclatura. Ao invés de serem chamadas pelo nome do país onde surgiram (variante amazônica, indiana, do Reino Unido) ou pelas letras e números de seu nome oficial (B.1.1.7, P.1, C.37), as novas cepas passaram a ser batizadas pelos nomes de letras do alfabeto grego: alfa, beta, gama, delta, épsilon, zeta, eta e assim por diante. As variantes também foram divididas em três categorias. 

 

Variantes de alta consequência – VOHC (variants of high consequence)

Essas variantes respondem menos aos imunizantes e resultam em hospitalizações e infecções mais graves. Até o momento, não foi identificada nenhuma VOHC do SARS-CoV-2.

Variantes de preocupação – VOC (variants of concern)

Variantes que são mais transmissíveis e provocam infecções mais graves de Covid-19. 

Alfa (B.1.1.7)

Surgiu no Reino Unido em setembro de 2020, e é considerada 43% a 90% mais perigosa que a forma original do SARS-CoV-2, de acordo com estudo publicado na revista Science. No Brasil, foi identificada pela primeira vez em dezembro de 2020 e chegou a mais de 10 estados. Em São Paulo, de acordo com a Rede de Alerta das Variantes do SARS-CoV-2, coordenada pelo Butantan, a incidência da alfa corresponde hoje a 2,07% do total de amostras sequenciadas.

Beta (B.1.351)

Surgiu na África do Sul em maio de 2020. É bastante transmissível, mas não tanto quanto a alfa. O primeiro caso da beta no Brasil foi detectado em abril de 2021. No estado de São Paulo, essa cepa apareceu com relevância apenas em maio, respondendo por 3% dos casos. Hoje, responde a menos de 0,1%. 

Gama (P.1)

Apareceu em novembro de 2020, em Manaus, no Amazonas, e tornou-se a variante principal no território brasileiro dois meses depois, ao chegar no estado de São Paulo. É parecida com a beta, só que mais transmissível. A Rede de Alerta das Variantes do SARS-CoV-2 mostrou que a gama é predominante no estado de São Paulo desde o início de maio, com incidência entre 91% e 85% do total de amostras sequenciadas. 

Delta (B.1.617.2)

Surgiu na Índia, em outubro de 2020, e é considerada uma preocupação global. Um artigo da revista Nature, publicado em julho, indica que a carga viral da delta é mil vezes maior que a da cepa original do SARS-CoV-2. A variante, que já está em 163 países, chegou ao Brasil em junho e tem pelo menos 1.209 infectados ativos, conforme indica o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde. 

No estado de São Paulo, a delta foi identificada pela primeira vez em meados de agosto, com incidência de 0,54%. Nas últimas semanas a presença da variante cresceu, tornando-a predominante em todo o estado no final de agosto.

Variantes de interesse – VOI (variants of interest)

As variantes de interesse entram na lista da OMS após serem causadoras de transmissão comunitária da Covid-19 ou terem sido detectadas em muitos países. Eta, iota, kappa, mu e lambda são consideradas VOI. Duas delas apareceram na América do Sul.

Mu (B.1.621)

Identificada pela primeira vez em janeiro de 2021, na Colômbia, foi a última a entrar na lista VOI, no final de agosto. Ela ligou um alerta na Colômbia e Equador, onde tem prevalência de 39% e 13%, respectivamente, mas ainda não representa perigo para o resto do mundo.

Lambda (C.37)

Identificada pela primeira vez no Peru, em dezembro de 2020, a lambda já está presente em mais de 30 países, mas ainda não representa muitos casos. Um artigo publicado no repositório de preprints da BioRxiv mostrou que três mutações encontradas na proteína spike da variante lambda, que chegou ao Brasil em julho, podem ter resistência às vacinas.