Pesquisadores do Butantan mostram que chave para vacina contra esquistossomose pode estar nos macacos rhesus

O único medicamento contra a doença, recomendado pela OMS, é o Praziquantel, que é ineficaz em alguns casos


Publicado em: 26/10/2021

O macaco rhesus (Macaca mulata), espécie de primata que habita a Índia, China e Afeganistão, e também é encontrada no macacário do Instituto Butantan, pode ajudar no desenvolvimento de uma vacina contra a esquistossomose, doença parasitária que afeta anualmente mais de 200 milhões de pessoas no mundo. Essas são as conclusões de um estudo feito por cientistas do Butantan junto a colegas do Brasil, Inglaterra, Holanda e França; e mostrou que, ao se curarem espontaneamente da esquistossomose, os macacos rhesus são capazes de gerar anticorpos poderosos contra os parasitas, ficando protegidos ao sofrerem uma segunda infecção. Os resultados da pesquisa estão no artigo “Rhesus macaques self-curing from a schistosome infection can display complete immunity to challenge” , publicado na revista Nature Communications nesta terça (26).

Trabalhos científicos da década de 2000 já apontavam a capacidade do macaco rhesus de combater naturalmente uma primeira infecção com o Schistosoma mansoni, agente causador da esquistossomose, que também é chamada de doença do caramujo ou barriga d'água. Agora, os pesquisadores Sergio Verjovski-Almeida e Murilo Sena Amaral, do Laboratório de Parasitologia do Butantan, ao lado de outros colaboradores, foram além e acompanharam macacos infectados e reinfectados com Schistosoma mansoni. A ideia era entender se, após a exposição a uma segunda tentativa de infecção, a memória imune dos macacos funcionava e, assim, utilizar esse conhecimento como base para o desenvolvimento de uma possível vacina.

Na primeira parte da pesquisa, doze macacos rhesus foram infectados, cada um, com 700 parasitas de Schistosoma mansoni e a infecção foi monitorada pela medida de um antígeno específico do parasita liberado na circulação sanguínea do macaco. Todos os macacos se curaram entre a 12º e 17º semana. Depois de 42 semanas, com os macacos já livres dos parasitas, os cientistas monitoraram o mesmo indicador após uma segunda infecção. A conclusão foi que os macacos se recuperavam ainda mais rápido da reinfecção.

 

De fato, após a segunda infecção, os macacos não apresentaram sintomas clínicos da doença (alguns macacos tiveram sintomas leves como diarreia e desidratação após a primeira infecção) e já entre a primeira e a quarta semanas após a reinfecção os esquistossomos nem chegaram a amadurecer até vermes adultos e não liberaram ovos.

No final do experimento, menos de três vermes (todos atrofiados) foram recuperados de cada macaco, o que levantou a hipótese de que os anticorpos dos rhesus bloquearam de alguma forma a maturação e a alimentação dos parasitas, que não conseguiram se desenvolver. Para testar essa hipótese, os anticorpos gerados pelos macacos foram incubados com parasitas em laboratório. Essa incubação levou à morte dos parasitas, e nove genes da via de autofagia do parasita foram identificados como inibidos pela defesa imune do macaco.

O estudo ganha importância diante do impacto ambiental que vem remodelando a distribuição da esquistossomose, inclusive aumentando sua incidência no estado de São Paulo. Os parasitas infectam pessoas que têm contato com água contaminada e se instalam no interior dos vasos sanguíneos do intestino e fígado, onde se acumulam os ovos depositados que causam a doença. Como o ser humano não consegue eliminar o parasita naturalmente, a doença se torna perigosa porque provoca complicações graves nos órgãos atingidos.

O único medicamento de combate à esquistossomose, recomendado pela Organização Mundial da Saúde, é o Praziquantel, que é ineficaz contra formas jovens do parasita e que não previne a reinfecção. Sem nenhuma vacina disponível atualmente para combate à doença, as próximas fases do estudo serão a identificação das proteínas do parasita que são alvejadas pelos anticorpos dos macacos e os testes destas proteínas como candidatos vacinais em camundongos.