Vacinação está impedindo avanço das variantes da Covid-19 no Brasil, explicam cientistas do Butantan

Para o presidente do Instituto, Dimas Covas, o fato de 80% da população estar vacinada reduziu o impacto das cepas


Publicado em: 31/03/2022

Os altos índices de imunização da população brasileira explicam por que as novas variantes do vírus SARS-CoV-2, inclusive as cepas BA.1 e BA.2, duas sublinhagens da ômicron mais transmissíveis, não estão causando um impacto tão profundo na saúde dos brasileiros. De acordo com especialistas do Instituto Butantan, o descolamento do aumento de casos em 2022 não se refletiu em um aumento de mortes. Dessa forma, a diminuição de óbitos é um indicador da importância da imunização.

“O número de casos não foi acompanhado pelo número de mortes. A única explicação para isso é a vacina”, resume o pesquisador Flavio Lichtenstein, do Laboratório de Biologia Molecular e do Centro de Excelência para Descoberta de Alvos Moleculares (CENTD) do Instituto Butantan. “As pessoas não ficam mais ‘fortes ou fracas’ do dia para a noite. O único novo fato que aconteceu são as vacinas, aplicadas em mais de 70% da população brasileira. A vacina defende a população, permitindo que nosso sistema imunológico responda mais rapidamente à agressão viral.”

Segundo informações do Ministério da Saúde, 87% da população brasileira com mais de 12 anos já está vacinada com as duas doses ou a dose única da vacina contra a Covid-19. Em relação à dose de reforço, são 50,6 milhões de brasileiros imunizados.

Isso não significa que a ômicron deva ser tratada com displicência. Aproximadamente 48 mil pessoas já morreram em decorrência desta variante, de acordo com os cálculos de Flavio, que trabalha com bioinformática e modelos matemáticos.

Além disso, nas últimas semanas, devido às sublinhagens da ômicron BA.1 e BA.2, países onde a pandemia já parecia controlada, como China, Coreia do Sul, Reino Unido e Alemanha, passaram a registrar um aumento de novos casos. Medidas de segurança foram retomadas e, na China, foi decretado lockdown em diversas cidades, inclusive Xangai.

A BA.1 e BA.2 também já circulam no Brasil, mas não têm influenciado os indicadores de Covid-19. Nas últimas duas semanas, a média móvel de mortes diminuiu 37%, mantendo a tendência de queda, e chegou a 217 mortes diárias – o menor índice desde meados de janeiro, conforme levantamento do consórcio de veículos de imprensa junto às secretarias estaduais de saúde.

Para o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, tudo indica que a situação da pandemia no Brasil deve continuar com indicadores em declínio. O principal motivo para isso é justamente a vacinação, que agora segue com a quarta dose para idosos. “Outros países tiveram essa variante BA.2. Aqui no Brasil ainda não temos essa onda. A variante BA.2 está presente, mas ainda não representa números importantes”, lembra o presidente do Butantan.

A expectativa é que a vacinação impeça o agravamento dos casos de Covid-19 mesmo se as sublinhagens da ômicron se disseminarem pelo Brasil. “Esperamos que, se isso vier de fato a acontecer, a BA.2 possa ser controlada exatamente pela alta percentagem de pessoas vacinadas”, afirma Dimas. “É isso que segura a questão das novas cepas. Somente a vacinação pode controlar as variantes”, resume Dimas, que é médico e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. 

Ainda não é possível afirmar se as diversas mutações que vem acontecendo no vírus SARS-CoV-2 permitirão um escape da proteção vacinal ou não. Até agora, porém, todas as variantes e sublinhagens já descritas mantêm a estrutura da proteína Spike, a principal proteína estrutural que se liga ao receptor ACE2 humano para invadir as células. A maioria das vacinas atualmente em uso foram desenvolvidas tendo como base essa proteína. A CoronaVac, do Butantan e da Sinovac, porém, utiliza o vírus inativado, ou seja, ela possui o SARS-CoV-2 inteiro em sua composição – o que possivelmente a torna mais resiliente no combate às diversas alterações mutacionais que as novas variantes vierem a apresentar.