Mortalidade de crianças por Covid é muito maior em países pobres, onde vacinação dos mais novos não está prevista

91,5% das mortes globais de crianças e adolescentes pela doença foram relatadas em países de baixa e média renda


Publicado em: 10/01/2022

A mortalidade de crianças por Covid-19 é muito maior em países pobres do que nos países ricos, ou seja, justamente nas nações que ainda não incluíram esse público em seus programas de vacinação. A desigualdade na distribuição de vacinas e no atendimento médico explicam o problema e abrem a discussão de quando e como incluir essa população na vacinação contra Covid-19, escreveram as pesquisadoras Beate Kampmann e Uduak Okomo, da London School of Hygiene &Tropical Medicine, em um artigo na revista científica The Lancet*.

As pesquisadoras levantam a tese com base nos resultados de uma meta-análise (método estatístico que analisa dados de dois ou mais estudos) que concluiu que 91,5% das mortes globais de crianças e adolescentes por Covid-19 foram notificadas em países de baixa e média renda, enquanto 83,5% da população pediátrica infectada era proveniente destes países.

O robusto estudo, que revisou mais de 16 mil artigos científicos e 225 relatórios nacionais de 216 países, apontou que a taxa de mortalidade foi significativamente mais alta em países de baixa e média renda do que nos países ricos: 2,77 versus 1,32 a cada 1 milhão de crianças. Os dados compilados por pesquisadores da Universidade de Toronto foram publicados na revista científica PLOS One

“Esta grande desigualdade impede que os países de baixa e média renda não apenas previnam a morte e doenças graves, mas também implantem vacinas como ferramentas para interromper a transmissão do SARS-CoV-2. A inclusão das crianças e adolescentes não será uma prioridade nestes países mais pobres por um longo tempo por causa das graves deficiências na distribuição das vacinas”, descrevem no artigo.

Diante dos dados, as pesquisadoras apontam que a proteção das crianças contra Covid-19 dependerá mais de fatores nacionais e de políticas públicas, que podem incluir ou não o acesso desse público às vacinas.

“Os impactos da vacinação contra Covid-19 em crianças e adolescentes na dinâmica de transmissão irão variar nacionalmente, levando em conta circunstâncias epidemiológicas, o surgimento de novas variantes do SARS-CoV-2 e estratégias de mitigação de contato com papéis diferentes em lugares diferentes”, completam.

Tanta desigualdade desfoca os resultados de estudos com vacinas de vírus inativado, como a CoronaVac, e vacinas de RNA mensageiro, que demonstraram ser seguras e imunogênicas para crianças e adolescentes, na opinião das pesquisadoras.

“Não há razão para acreditar que as vacinas não devam ser igualmente protetoras contra Covid-19 em crianças e adolescentes, como nos adultos. Mais de 30 ensaios internacionais recrutam crianças e adolescentes a partir de seis meses para avaliar a segurança, imunogenicidade, dosagem e distribuição”, explicam.

*Artigo publicado em 30 de julho na revista científica The Lancet