O caminho da tecnologia usada na produção da ButanVac, nova vacina do Butantan, até chegar ao Brasil


Publicado em: 08/11/2021

Quando a pandemia de Covid-19 se alastrou pelo Brasil, o presidente do Butantan, Dimas Covas, pediu para os cientistas do instituto se dedicarem à pesquisa de uma vacina para ajudar a salvar vidas. O método usado seria a inoculação do vírus SARS-CoV-2 em ovos embrionários de galinha, técnica já utilizada para a produção da vacina da gripe (Influenza) e grande especialidade do Butantan. Alguns vírus se desenvolvem muito bem dentro dos ovos, como é o caso do da influenza, mas o SARS-CoV-2 combatia o embrião. Depois de meses de tentativa e erro, a resposta veio da América do Norte, provando um dos grandes princípios da produção de conhecimento científico: a colaboração entre pesquisadores.

A Icahn School of Medicine, do Hospital Mount Sinai, de Nova York estudava o vírus de Newcastle, doença que atinge aves, e a Universidade do Texas, em Austin, sabia como estabilizar a proteína S (spike) do SARS-CoV-2. Com a tecnologia do vírus modificado de Newcastle, inofensivo para humanos, e a proteína S estabilizada, foi possível inocular o vírus SARS-CoV-2 em ovos embrionados de galinha e começar a produção de uma nova candidata a vacina contra a Covid-19. Nascia assim a ButanVac, imunizante do Butantan contra o SARS-CoV-2 que será inteiramente produzido no Brasil.

 

Nesse processo, a articulação entre as universidades norte-americanas e o Butantan foi intermediada pela PATH Center for Vaccine Innovation and Access [organização sem fins lucrativos que luta contra a pobreza, doenças e desigualdade no mundo][TR1] . De acordo com o gerente de Parcerias Estratégicas e Novos Negócios do Butantan, Tiago Rocca, a negociação entre as partes foi rápida. “Os ovos são uma base de produção de vacinas já bem consolidada no Butantan, então todos se uniram, a PATH, com apoio da Fundação Bill & Melinda Gates e outros produtores públicos, como o Instituto de Vacinas e Biologia Médica do Vietnã [IVAC] e a Organização Farmacêutica Governamental da Tailândia [GPO]. Todos já fabricam a vacina contra o SARS-CoV-2 e estão fazendo os testes clínicos “, conta.

Por aqui, o ensaio clínico de fase 1 da ButanVac já está em andamento nas cidades de Guaxupé, Itamogi e São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais; e Ribeirão Preto e Piracicaba, em São Paulo. Os voluntários selecionados estão sendo vacinados com a CoronaVac, vacina do Butantan e da farmacêutica chinesa Sinovac contra a Covid-19, ou com a ButanVac. Tradicionalmente, a fase 1 de um ensaio clínico avalia a segurança do imunizante e sua seleção de dose. Os primeiros resultados internacionais da vacina da GPO, mesma tecnologia e consórcio da ButanVac, sobre a fase 1 dos ensaios clínicos da vacina na Tailândia, mostraram que ela é segura e altamente imunogênica.

 

Como o Butantan já tinha uma infraestrutura pronta para a produção da ButanVac, que é a fábrica da vacina Influenza, o processo de adaptação foi rápido e não necessitou grandes investimentos financeiros. “As cepas virais utilizadas na ButanVac, assim como de outras vacinas,  ficam armazenadas em no mínimo dois locais diferentes por uma questão de segurança. Imagina se acontece, por exemplo, um incêndio em um prédio. Temos que ter a cepa vacinal em outro lugar. Ela é o mais importante patrimônio genético de um fabricante”, esclarece o gerente de Parcerias Estratégicas e Novos Negócios. 

 

A ideia do Butantan e dos outros parceiros públicos do consórcio de produção da ButanVac é oferecer uma alternativa de imunizantede menor custo frente aos atuais, fácil de fabricar e transportar e com alto perfil de segurança para ajudar a controlar a pandemia nos países em desenvolvimento, que têm pouco acesso a vacinas em geral. “O PATH conseguiu uma licença humanitária para que o produto alcance países de baixa e média renda. Os países ricos já estão comprando vacina e dando primeira dose, segunda dose, terceira dose, e eles têm estoque. Os países pobres não. Na África, a vacinação não chega a 10% da população com primeira dose”, completa Tiago.

Além disso, a ButanVac amplia o leque de opções para o combate ao SARS-CoV-2. Os cientistas conhecem a Covid-19 há quase dois anos e estão cada dia mais aprendendo com ela. Eles estão adquirindo conhecimento sobre o tempo de imunidade nas pessoas, possíveis doses de reforço, combate a variantes. “O tempo vai responder a todas essas perguntas, mas no momento não estamos na posição de abrir mão de nenhuma vacina. Isso faz da ButanVac ainda mais importante”, finaliza o gerente de Parcerias Estratégicas e Novos Negócios.