Em homenagem aos 120 anos do Butantan, artigo relembra estudo de terapias inovadoras contra doenças degenerativas e inflamatórias


Publicado em: 30/11/2021

Uma revisão publicada na terça (23) em edição especial da revista científica Toxins celebra os 120 anos do Butantan destacando os mais de 20 anos de pesquisa do instituto sobre a toxinologia da Lonomia obliqua, popularmente chamada de taturana oblíqua, que resultou no desenvolvimento de um tratamento para acidentes com essa lagarta em 1996: o soro antilonômico. Até hoje, o Butantan é o único produtor no mundo desse tipo de soro, que pode ser obtido gratuitamente no Brasil por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

Além de desenvolver o soro, os pesquisadores do Butantan têm estudado os efeitos das moléculas derivadas do veneno da lagarta para identificar novos alvos terapêuticos para diferentes doenças – pesquisas que resultaram em uma série de patentes.

Segundo a diretora do Centro de Desenvolvimento e Inovação do Butantan e coordenadora da revisão, Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, o grupo caracterizou as proteínas (peptídeos) que compõem o veneno e identificou as duas que são responsáveis por causar a síndrome de coagulação sanguínea, hemorragia e insuficiência renal. “Nos testes seguintes, observamos que essas proteínas também funcionam para manter a sobrevivência das células em situações de estresse, além de possuírem propriedades anti-inflamatórias”, afirma.

A partir disso, os cientistas selecionaram apenas os fragmentos das proteínas responsáveis pelos efeitos terapêuticos, para evitar as demais reações tóxicas, e realizaram testes em células e em animais. “Alguns peptídeos foram capazes de auxiliar na regeneração; outros reduziram a inflamação em modelos in vitro de doenças inflamatórias, como artrite, e diminuíram marcadores de dor em modelos neuronais”, aponta Ana Marisa.

Os autores ressaltam que, devido ao constante surgimento de vírus e bactérias resistentes, a busca de novas abordagens terapêuticas para doenças inflamatórias é cada vez mais necessária para o desenvolvimento de medicamentos mais eficazes. “Os peptídeos do veneno da Lonomia obliqua trouxeram muitos subsídios. A partir desse conhecimento, é possível trabalhar em novas terapias para doenças neurodegenerativas e inflamatórias”, destaca a pesquisadora.

 

A importância do soro antilonômico

Apesar do avanço, os acidentes com lagartas ainda configuram um problema de saúde pública no Brasil, atingindo 42 mil indivíduos por ano. Em relação à Lonomia obliqua, especificamente, foram 42.264 acidentes entre 2007 e 2017, sendo 248 casos graves e cinco mortes.

No momento do contato com as cerdas da taturana oblíqua, o veneno causa uma lesão na pele semelhante à queimadura, com dor, inchaço e bolhas na região. O indivíduo pode apresentar dor de cabeça, ansiedade, náusea, vômito e, menos frequentemente, dor abdominal, hipotermia e pressão baixa. Dependendo da extensão da lesão e da quantidade de veneno inoculada, algumas pessoas podem manifestar sintomas mais graves, como alteração na coagulação e hemorragia nas gengivas, urina ou outras partes do corpo.

A principal complicação é a insuficiência renal aguda (falha nos rins), que pode ocorrer em até 12% dos casos e é mais frequente em indivíduos com mais de 45 anos. Segundo o artigo, inicialmente os pacientes graves eram tratados com antifibrinolíticos – classe de fármacos utilizada para impedir a perda excessiva de sangue – associados com plasma fresco congelado. No entanto, em vez de reverter os sintomas, essa abordagem piorava o quadro.

Atualmente, o tratamento é baseado na administração do soro antilonômico, que é obtido a partir do plasma de cavalos imunizados com o extrato de cerdas de Lonomia obliqua. Os anticorpos produzidos são capazes de neutralizar o veneno em circulação no sangue, normalizando os parâmetros de coagulação e evitando complicações graves. Para obter um resultado mais eficiente, é necessário que o material seja administrado até 12 horas após o contato com as cerdas da lagarta.