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Isaias Raw transformou o Butantan em polo mundial de pesquisa e desenvolvimento de soros e vacinas

Ex-diretor do Instituto e cientista renomado internacionalmente, falecido em 2022, deixa um legado inconteste à ciência e a educação brasileiras


Publicado em: 29/06/2023

“O professor Isaias tinha um dos melhores corações que eu já vi. Se preocupava com a vida dos funcionários, se os filhos deles estavam na escola. A grande preocupação dele era a educação e a saúde pública.” É assim que a pesquisadora Elizabeth Leme Martins descreve o amigo Isaías Raw (1927-2022), falecido em 13 de dezembro de 2022, aos 95 anos. Trabalharam juntos no Instituto Butantan e conviveram por cerca de 30 anos, até o último momento: “estive com ele no dia de sua morte em casa”. 

A diretora técnica do Laboratório de Biológicos Recombinantes fez parte dos primeiros times de pesquisadores do Centro de Biotecnologia do Instituto Butantan, liderado por Isaias, a partir da década de 1980. O projeto do Centro proposto ao governo de São Paulo para ampliar a produção de vacinas, soros e fármacos feitos no estado, foi implementado em 1983, e se tornou um marco na história do Butantan, de São Paulo e do país.

 

Isaias Raw: um dos maiores cientistas brasileiros do século 20

 

Sob a liderança do professor os pesquisadores desenvolveram a vacina contra a hepatite B recombinante, a primeira com esta tecnologia feita no Brasil, além das vacinas contra coqueluche, pneumococo e a vacina da dengue – atualmente em fase final de ensaios clínicos

“A proposta do Centro de Biotecnologia foi um ousado brado de maturidade técnico-científica, recusando a tutela permanente das empresas internacionais. Com seu vasto programa de pesquisa e desenvolvimento, passamos a ser um exemplo para outros países emergentes”, escreveu Isaias em revista de 2013, editada pelo Butantan em comemoração aos 30 anos do Centro.

Isaias trabalhou por mais de 35 anos no Instituto Butantan, desde seu ingresso à instituição em 1982. Ele se tornou diretor do Instituto entre 1991 e 1997 e diretor da Fundação Butantan, que ajudou a idealizar, entre 2005 e 2009.

 

Autossuficiência contra pandemias

Na década de 80, Isaias já enxergava a necessidade de o Brasil se tornar autossuficiente na produção de vacinas para prevenir pandemias. Sempre atento aos alertas internacionais de saúde pública, tinha o sonho de tornar o país referência na produção de imunobiológicos e sabia que precisava investir em um polo de vacinas. 

“Ele tinha em mente que o risco de pandemias por influenza era muito alto porque a gente convive com animais, como aves e suínos, temas discutidos em encontros da Organização Mundial de Saúde que ele frequentava, o que vivemos hoje”, lembra Elizabeth.

Isaias foi um dos articuladores da Rede de Fabricantes de Vacinas de Países em Desenvolvimento (Developing Countries Vaccine Manufacturers Network, na sigla em inglês), que aumentou a interface do Butantan com outros produtores de imunobiológicos.

 

Pandemia: cientista recebe dose de vacina durante campanha de imunização no Instituto Butantan

 

“Nas reuniões da Organização Mundial da Saúde ele questionava os interesses de farmacêuticas focados nos países mais ricos, falava que os países em desenvolvimento tinham outra realidade. Ele era muito respeitado por não ter medo de falar o que julgava ser necessário”, conta a liderança científica do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do Butantan (LDV), Luciana Leite, que também fez parte da primeira equipe de pesquisadores do Centro de Biotecnologia.

Durante a comemoração dos 122 anos do Butantan, em fevereiro de 2023, o diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, relembrou a aspiração de Isaias e o seu trabalho para a construção de novas fábricas dentro do Instituto.  “A autossuficiência em imunobiológicos no Brasil é uma necessidade de décadas. E isso foi traçado há muito tempo atrás, por várias pessoas que construíram essa história, especificamente o professor Isaias Raw, quando trouxe essa noção para discussão ainda na década de 80. Considerando a pandemia de Covid-19, isso nunca foi tão verdadeiro”.

 

Foco na saúde pública: objetivo sempre foi tornar o Butantan um robusto produtor de vacinas e biofármacos

 

Internacionalização

Um dos grandes objetivos de Isaias era tornar o Butantan um robusto produtor de vacinas e biofármacos para a saúde pública brasileira e uma referência mundial em imunobiológicos. Por isso, além de reforçar a pesquisa básica, ele apostou em parcerias com órgãos de fomento e na transferência tecnológica de produtos. 

Um exemplo disso foi a montagem, nos anos 90, do Sistema de Armazenamento e Distribuição de Insumos (SARDI), um depósito de materiais e insumos vindos do exterior. O prédio localizado no Centro de Biotecnologia do Instituto Butantan foi construído em parceria com o National Institutes of Health (NIH), a agência reguladora dos Estados Unidos, e com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) com o intuito de acelerar as pesquisas do Butantan. 

Isaias também vislumbrou a produção própria de albumina usada em pesquisas de hemoderivados. Até então o insumo era importado da farmacêutica francesa Aventis Pasteur (atual Sanofi). A iniciativa resultou no desenvolvimento de uma escala piloto para produção de derivados de plasma nunca antes vista no instituto, conta Luciana.

Na mesma época, Isaias também apostou na produção interna de surfactante pulmonar, produto indicado para bebês prematuros com dificuldades de respirar. Uma fábrica foi montada, e testes pré-clínicos chegaram a ser realizados. 

“Ele era insistente, um tanto controlador, e um grande semeador de ideias e projetos. Nos dava liberdade total para atuar e agir, mas depois cobrava. Se era um projeto que ele tinha muito interesse, ele cobrava quase todos os dias”, diz Luciana.

 

A pesqusiadora Luciana Leite foi integrante da primeira equipe de pesquisadores do Centro de Biotecnologia

 

Um outro grande projeto que veio dessa época foi a transferência tecnológica da vacina Influenza em parceria com Aventis Pasteur. “O professor retomou a parceria com a França, o que mostrou que ele sabia manter laços em prol da produção de vacinas”, ressalta a pesquisadora.

Isaias também enxergou o potencial dos anticorpos monoclonais e do sequenciamento genômico ainda nos anos 90, incluindo o Butantan no recém-formado Projeto Genoma. Com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), um grupo de pesquisadores do Centro de Biotecnologia do Butantan participou do estudo de sequenciamento genômico da bactéria Xylella fastidiosa, causadora de uma doença que afeta plantas cítricas como laranjeiras, responsável por inaugurar a era da pesquisa em genômica molecular no Brasil em 1997.

O mesmo grupo contribuiu ainda para o sequenciamento do genoma da Leptospira interrogans, bactéria causadora da leptospirose, e do transcriptoma do Schistosoma mansoni, agente da esquistossomose – pesquisa publicada na revista Nature. “Estes projetos levaram à genômica funcional para o desenvolvimento de vacinas”, declara Luciana. 

O grupo do Centro de Biotecnologia também participou do importante projeto do genoma do câncer, que comparava transcriptomas de tecidos normais e tumorais – outro marco na gestão de Isaias. 

“A gente aprendeu com o Isaias uma forma de encarar a ciência, que leva em consideração uma lógica, uma forma de lidar com dados, que inclui um rigor científico muito grande e uma visão de possível aplicabilidade. Sempre pensando nos outros, nas pessoas que não têm condições e que podem ser ajudadas pelo que a gente faz”, resume Lucina. 

 

A sala que foi ocupada pelo pesquisador é mantida até hoje no atual Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas

 

Busca por soluções

Para conseguir tornar suas ideias em soluções, Isaias constantemente usava seu poder de convencimento, lembra a diretora do Centro de Desenvolvimento e Inovação do Butantan (CDI), Ana Marisa Chudzinski-Tavassi.

“Por estar sempre antenado ao que acontecia no mundo, ele mostrava grande assertividade ao falar sobre oportunidades de desenvolvimento e, misturando fatos às expectativas e projeções, era capaz de convencer as pessoas ou a imprensa sobre a importância de seus projetos”, conta.  

A clareza e a simplicidade também eram marcas do comportamento do professor, assim como o desembaraço no dia a dia. Era comum ele se alimentar com “uma marmitinha” entre uma reunião e outra na mesma sala onde havia uma placa informando que as conversas estavam sendo gravadas ali – “tudo em nome da transparência”.

“Uma pessoa como ele, respeitada por muita gente, incluindo autoridades de diferentes áreas do Brasil e do exterior, que tinha muito conhecimento, não se prendia a muitos protocolos, mas buscava soluções. Tivemos uma relação de muito respeito e eu, com relação a ele, de admiração por sua capacidade construtiva e espírito empreendedor”, relembra Ana Marisa.

Para a diretora do CDI, uma das maiores contribuições deixadas por Isaias ao Butantan foi o núcleo de pesquisadores que ele formou e que ainda hoje contribui com ciência de qualidade em projetos destinados a solucionar problemas de saúde pública. “Ninguém ganha o respeito só porque fala, mas por deixar um legado. Para mim, ele era um cientista que queria mudar o mundo com ações efetivas”, reflete.

 

Trajetória acadêmica brilhante

Para entender porque Isaias Raw é considerado um dos maiores cientistas brasileiros do século 20, é necessário conhecer sua história e suas invenções. 

Os feitos científicos do paulistano nascido em 26 de março de 1927 começaram ainda na infância, no laboratório criado no quintal de sua casa no Bom Retiro, no centro de São Paulo (SP). Foi lá que ele fez seus primeiros experimentos, fruto das compras de reagentes em loja de ferragens. 

Aos 13 anos, Isaias já havia criado o próprio insetário na praça da Luz, que se transformou em um museu de história natural doado para a escola que frequentava: o Colégio Anglo Latino, onde ele criou na adolescência a revista de ciências Cultus. 

Com 16 anos, Isaias já frequentava aulas livres da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, no antigo palácio da alameda Glete, no centro da capital.  Lá ele conheceu ninguém menos que o célebre médico e um dos fundadores da genética moderna no Brasil André Dreyfus, que lhe emprestava livros. “O Isaias era realmente um cientista mirim, um gênio com que raramente nos deparamos na vida”, afirma Elizabeth. 

A pesquisadora Elizabeth Martins com uma das publicações de sua autoria e de Isaias Raw

 

Como soube desde cedo que queria ser cientista, Isaias formou-se médico, mestre, doutor e livre-docente em Bioquímica pela Universidade de São Paulo (USP), entre 1950 e 1957. Na pesquisa acadêmica, foi reconhecido internacionalmente por seus estudos da mitocôndria e de enzimas do metabolismo do parasita Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas.

“Nas pesquisas científicas, Isaias Raw fez grandes contribuições, principalmente mostrando a função da mitocôndria quando ainda nem se sabia da existência desta organela”, descreve o pesquisador do Butantan Paulo Lee Ho, em carta de homenagem a Isaias.

Nos anos 60, já um cientista reconhecido internacionalmente, Isaias teve seu nome alçado a outro patamar ao publicar um trabalho junto com o pesquisador Severo Ochoa, prêmio Nobel de Fisiologia. O brasileiro havia recebido uma bolsa para estudar na Escola de Medicina da Universidade de Nova York (NYU), onde o espanhol Ochoa lecionava. Juntos, eles isolaram uma das enzimas do ciclo de oxidação de ácidos graxos, estudo publicado na revista Nature.

Para o professor emérito da USP Walter Colli, que fez carreira como bioquímico ao lado do professor “em tudo que tocou, Isaias foi revolucionário. Plantou e plantou muito. Plantou e deixou para que alguém continuasse”.

De volta ao Brasil, Isaias foi preso em 1964 pela ditadura militar, sob acusação de ser comunista – o que sempre refutou. Ele permaneceu 13 dias encarcerado, sendo solto após forte pressão internacional. Um grupo de cientistas laureados com o prêmio Nobel enviou um telegrama ao governo brasileiro pedindo sua soltura e um membro das Nações Unidas veio ao país procurá-lo pessoalmente. 

“Mais complicações para eles surgiram quando a Unesco enviou seu Diretor de Ensino de Ciências para me visitar. Fui imediatamente transferido da jaula para o dormitório dos oficiais, onde recebi o professor [Albert] Baez. Em poucos dias mais, fui libertado”, disse Isaias em depoimento à professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP Janice Theodoro da Silva. 

Após a libertação, o cientista se tornou catedrático na Faculdade de Medicina da USP.

 

Isaias trabalhou por mais de três décadas no Instituto Butantan

 

Medicina experimental 

Como professor, Isaias defendia uma reforma universitária na USP, que previa a concentração das faculdades uspianas na Cidade Universitária. Na época havia cursos alocados em outros bairros de São Paulo, como a própria Medicina, que até hoje tem sede na avenida Doutor Arnaldo, 455, na região central. 

Com diferentes endereços, Isaias, colegas e estudantes perambulavam por diferentes laboratórios de Bioquímica para lecionar e estudar. Esse processo atrapalhava o saber científico e a celeridade das pesquisas na visão de Isaias.

Certo dia, ele e Walter Colli reuniram todos os equipamentos dos diferentes laboratórios de Bioquímica da USP a bordo de um caminhão, levando-os ao ainda inacabado prédio que seria o futuro Instituto de Química da USP, na Cidade Universitária. Lá criaram o Departamento de Bioquímica da USP – ao mesmo tempo em que deixaram muitos uspianos de cabelo em pé com a ousadia. 

“Disseram que o Isaias estava maluco, mas, para ele, os alunos e os professores deveriam conviver em um campus para poderem conversar, trocar conhecimento, viver a universidade. Infelizmente, ele passou a ser perseguido depois disso”, afirma a coordenadora do Museu de Microbiologia do Butantan, Glaucia Colli Inglez, irmã de Walter Colli e amiga de Isaias. 

Em 1967, junto a outros acadêmicos, Isaias, que notoriamente não fugia de uma boa briga, trabalhou para a unificação dos exames vestibulares de São Paulo. O projeto resultou na criação da Fundação Carlos Chagas e no Centro de Seleção de Candidatos às Escolas Médicas (CESCEM), precursor da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest).

Já alocado na Cidade Universitária, e cada vez mais distante do padrão da Doutor Arnaldo, Isaias resolveu ousar mais uma vez. Ele criou o curso de Medicina Experimental da USP, com foco nos estudos de ciência básica, associados à ciência clínica e aspectos sociais e com o objetivo de formar pesquisadores. 

A ideia foi inspirada no que viu na NYU, onde graduandos de medicina eram incentivados a fazer pesquisa. Ele trouxe para a USP a ideia de “mais laboratórios e menos quadros negros”, mas a prática destoava do padrão da medicina uspiana, onde catedráticos usavam toga e perucas em vez de operarem máquinas e pipetas. O curso atraiu nomes como o próprio Walter Colli e Ricardo Brentani, pioneiro da medicina por DNA no Brasil. 

“Eu pensava: o que eu posso fazer pela sociedade e não o que eu posso tirar da sociedade. Na minha ideia, o curso experimental era um outro modelo para as faculdades de medicina que estavam decadentes ou que começaram mal e continuavam mal”, disse em um registro em vídeo publicado no site da USP. 

 

Elizabeth Leme Martins: amiga de longa data e parceira de trabalho de Isaias Raw

 

Kits mudaram a educação em ciências

Da fase experimental na USP, nasceu um de seus projetos mais inovadores: a produção de kits de química, eletricidade e biologia, indicados para alunos do ensino fundamental e médio fazerem experimentos científicos em casa. Apesar de estar na universidade, Isaias também focava suas ações na formação científica de secundaristas, que chegavam à faculdade sem conhecimento de conceitos científicos importantes.

Inicialmente, os kits eram produzidos artesanalmente e distribuídos para professores e alunos que frequentavam o curso. Mas, pela grande procura, passaram a ser fabricados na editora Abril e vendidos em bancas de jornal.

“Esses kits de ciências, tão populares hoje em dia, foram criação da cabeça brilhante do Isaias”, conta Glaucia.

A produção de dois milhões de kits “Os Cientistas” levou à criação em 1967 da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (Funbec), um braço do então Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (IBECC), então responsável por atualizações de livros didáticos no país.  A Funbec construiu uma fábrica para a produção dos kits e outros aparelhos de interesse médico na Cidade Universitária e foi dirigida por Isaias até 1969. 

A iniciativa foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco) e pela União Pan-Americana, atual Organização dos Estados Americanos (OEA).

“Os kits não tinham respostas porque cada experimento era único e, portanto, poderia dar resultados diferentes dependendo de quem o fizesse. Ele queria que o jovem pesquisasse para entender o processo que havia realizado e o resultado obtido e que aprendesse a pensar cientificamente”, lembra Glaucia. 

Quis o destino que anos mais tarde, em meados dos anos 2000, Glaucia e Isaias retomassem a produção dos kits para serem doados a professores visitantes do recém-inaugurado Museu de Microbiologia do Instituto Butantan.

 

Alguns dos exemplares escritos pelo cientista ao longo de sua carreira

 

Punição e exílio

Seus rompantes de ousadia definitivamente não agradavam a todos e ele voltou a ser mira dos militares. Em 1969, com o Ato Institucional nº5 em voga, Isaias e outros professores da USP passaram a ser considerados subversivos e tiveram seus direitos políticos cassados. Sem poder trabalhar, Isaias deixou o país.

“Fui punido pelo AI-5, [tive] vedado meu acesso às atividades e recursos públicos nas áreas de ensino de ciência e da medicina, de pesquisas biomédicas e o Curso Experimental de Medicina foi fechado. Imediatamente decidi sair do país, com a ajuda de um passaporte de serviço para viagens relacionadas com pesquisa e ensino de ciências, sem direito a remuneração”, disse em um depoimento publicado no Jornal da USP.

Como exilado político, Isaias trabalhou em renomadas universidades internacionais. Primeiramente, se tornou professor na Universidade Hebraica, em Israel; e, já nos Estados Unidos, foi professor na Universidade de Harvard, no Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), e no City College of New York. Nesta ocasião, também atuou como consultor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e do Banco Mundial. À época, escreveu livros como o Anemia: From Molecule to Medicine (The Foundations of medical sciences series) (editora Little, Brown) e What People Eat: Introduction to Chemistry and Food Science (editora W. Kaufmann), entre outros.

“Ele foi perseguido e denunciado como ‘um cara de esquerda’, embora nunca tivesse sido ligado a partido político. Por isso, foi aposentado compulsoriamente pela ditadura militar e precisou se exilar”, afirma Elizabeth. 

De volta ao Brasil em 1979, o professor ingressou no Butantan em 1984 e permaneceu diretor do instituto entre 1991 e 1997. Segundo Elizabeth, Isaias fez questão de melhorar a remuneração para atrair bons pesquisadores ao instituto, embora fosse rígido com o erário. “Quando eu disse a ele que iria fazer o pós-doc no exterior, ele falou que eu poderia ir somente com a bolsa, sem o vencimento. Eu fiquei brava no início, mas depois entendi que ele era muito sério com o dinheiro público”, lembra.

Nas décadas seguintes, seu trabalho como cientista continuou sendo reconhecido nacional e internacionalmente. Ele se tornou membro titular da Academia Brasileira de Ciências em 1987, recebeu duas condecorações da Presidência da República, sendo nomeado Comendador e Grande Oficial da Ordem Nacional do Mérito Científico em 1995 e conquistando a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2001.

Em 2015, Isaias foi homenageado com uma cadeira em seu nome no Centro Internacional de Física Teórica (ICTP-SAIFR). “Eu gosto de me meter em tudo que não me diz respeito”, brincou Isaias na época, ao agradecer pelo reconhecimento, mesmo sem ter formação acadêmica em Física.

 

Reportagem: Camila Neumam

Fotos: Marília Ruberti e Renato Rodrigues/Comunicação Butantan

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