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Imagens que curam: coleção histórica de cartazes narra evolução da saúde pública brasileira

Lançamento do novo inventário do MUSPER traz luz a campanhas de combate a endemias e epidemias ao longo do século XX; acervo de 6599 peças foi digitalizado e já pode ser acessado pelo público geral


Publicado em: 17/04/2026

Reportagem: Andressa Lelli
Fotos: Acervos Instituto Butantan/ Museu de Saúde Pública Emílio Ribas
 

Traçar uma linha do tempo da saúde pública brasileira e preservar essa memória também é um dos compromissos do Instituto Butantan. Nesse contexto, entender como a prevenção a doenças e as campanhas de conscientização da população mudaram ao longo dos anos fica ainda mais fácil quando essa evolução pode ser vista em imagens – ou cartazes. É exatamente isso que o Museu de Saúde Pública Emílio Ribas (MUSPER) do Instituto Butantan disponibiliza ao público geral a partir desta sexta (17/4) por meio do Inventário das Coleções de Cartazes de Campanha e Material Educativo da Área da Saúde e do Catálogo dos Cartazes de Dengue e Febre Amarela da Coleção de Cartazes de Campanhas de Saúde.

Após três anos de um minucioso trabalho de higienização e identificação de aproximadamente 7000 itens - sendo 1725 exemplares únicos de cartazes, 262 materiais educativos e cópias das respectivas coleções -, o MUSPER transpõe para o ambiente digital um acervo antes restrito à consulta presencial. As Coleções de Cartazes de Campanha e Material Educativo da Área da Saúde oferecem um mergulho na comunicação visual brasileira desde a década de 1940, cobrindo temas que vão do combate ao alcoolismo e tabagismo à prevenção de doenças como pneumonia, cólera, tuberculose e HIV. O material educativo, além de sensibilizar a população com relação à prevenção de doenças, era utilizado como recurso pedagógico no treinamento de profissionais da saúde em educação sanitária. O inventário como um todo permite que pesquisadores e educadores analisem as profundas mudanças estéticas e de tom que moldaram o combate a epidemias no Brasil ao longo de um século.


O esforço de sistematização do acervo, iniciado em 2014, ganhou fôlego em 2023 com uma força-tarefa de higienização, reparos físicos e catalogação técnica. O projeto vai além da conservação física das peças: a digitalização permite decifrar as mudanças históricas nas estratégias de saúde pública. Ao tornar acessíveis desde ilustrações feitas à mão até campanhas modernas, o inventário oferece um mapa visual de como o Brasil enfrentou suas epidemias e moldou o discurso de educação sanitária ao longo do tempo.

“Essa coleção, com diversidade de temas e períodos, nos possibilita interpretar como a visão sobre doenças e educação sanitária se modificam ao longo dos anos e observar os períodos de epidemias. Além da questão visual, porque temos desde cartazes que eram desenhados à mão, poder digitalizar e tornar eles acessíveis é um ganho muito grande para pesquisa e o interesse geral”, aponta Maria Talib Assad, analista de Documentação do MUSPER.
 

 

Dengue em destaque

Em um recorte ainda mais específico, o Catálogo dos Cartazes de Dengue e Febre Amarela chega alguns meses depois da disponibilização à população brasileira da Butantan-DV, vacina contra a dengue desenvolvida e produzida pelo Instituto. “O Butantan lançou um olhar atento sobre essa doença, ocupando um espaço de conscientização que, em certos períodos, perdeu o devido destaque nas esferas governamentais”, afirma a coordenadora cultural do MUSPER, Elisandra Gasparini Silva. 

O inventário permite inclusive identificar que a preocupação com doenças transmitidas por mosquitos vem desde muito antes da dengue se tornar uma preocupação nacional, a partir dos anos 1980. “Há um documento no inventário da década de 1920 dizendo que o código sanitário da época previa multa para reincidência de focos. A responsabilização já começava desde aquela época”, conta Maria.

Esse documento é o folheto O Mosquito (pernilongo), elaborado pelo Serviço Sanitário de São Paulo, que já estipulava multas para quem falhasse nos esforços de eliminar focos do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue e, então, da febre amarela urbana. Era a "Guerra aos Mosquitos", onde o cidadão era um alvo da lei. “O Codigo Sanitário do Estado de São Paulo determina que sejam multados os responsáveis pelas casas e terrenos, onde fôrem encontrados na reincidencia, fócos de mosquitos. (sic)” (trecho do Folheto “O mosquito (pernilongo)”. Fundo Serviço Sanitário do Estado de São Paulo. [1925-1937]. Acervo MUSPER)

Ao longo do tempo, houve uma mudança da representação do Aedes aegypti – tanto na figura quanto na intensidade do discurso à população. “Antes predominava um discurso de medo, com cartazes que personificavam o mosquito como um vilão. Hoje, a abordagem é mais educativa e próxima do cotidiano”, aponta Elisandra. “O público mudou, e a nossa forma de dialogar com a sociedade também se transformou”, completa ela.

 


Evolução do discurso

Em um dos textos incluídos no inventário, a professora Associada da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e doutora em História Social Maria Cristina da Costa Marques aponta que, desde o século XVIII, o Estado deixou de ser apenas uma "polícia médica" para se tornar um gestor, buscando melhorar, prolongar e tornar a vida das pessoas mais produtiva. Se antes a higiene flertava com a eugenia para moldar comportamentos, o desafio atual é “atuar na perspectiva da Educação e Comunicação em Saúde voltada ao encontro cultural, participativo e de direito ao conhecimento em saúde”. A consequência dessa mudança é que, ao longo dos séculos XX e XXI, “a Educação Sanitária ganhou status de política pública com estratégias de intervenção na saúde individual e coletiva”.

Outro nome a assinar um dos textos do inventário é a gerente de Projetos do Laboratório Piloto de Vacinas Virais do Instituto Butantan, Neuza Maria Frazatti Gallina, uma das pesquisadoras responsáveis pelo desenvolvimento da Butantan-DV. “Quando uma pessoa se depara com cartazes dizendo ‘Não dê chance à dengue’, ‘Dengue. Um país inteiro não pode ser derrotado por um mosquito’ ou ‘Eu não deixo a dengue entrar aqui’ está sendo estimulada não somente ao combate à dengue, mas também a sua cidadania e a união de um país”, resume.

Segundo Neuza, enquanto a ciência busca vacinas seguras, a comunicação combate a desinformação. O cartaz é um instrumento de cidadania que conecta o passado de "polícia médica" ao presente de proteção social. “Nos tempos em que a desinformação tomou conta da mídia, os cartazes continuam com seu papel de informar bem, para transformar. Cartazes nas campanhas de saúde continuam sendo peça primordial para o combate, não só da dengue, mas também de outras doenças que trazem tanto sofrimento à população e oneram tanto o nosso Sistema Nacional de Saúde.”