Imunização, uma descoberta da ciência que vem salvando vidas desde o século XVIII
Publicado em: 03/06/2021

Em 9 de junho é comemorado o Dia Nacional da Imunização, data criada para conscientizar a sociedade da importância de manter a vacinação sempre em dia para controlar e erradicar doenças infecciosas. Idealizada pelo médico Edward Jenner, a primeira vacina foi criada no século XVIII, quando a varíola era a maior ameaça da humanidade. Hoje, há imunizantes contra muitas outras doenças, como poliomielite, sarampo, caxumba, gripe, hepatite A e B, entre muitas outras. Considerada um dos maiores avanços da ciência, a vacina é responsável por evitar, a cada ano, entre dois e três milhões de mortes por doenças preveníveis, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.  

 

A história da primeira vacina

O primeiro indício de vacina surgiu na China, no século X, contra a varíola, doença febril que produzia pústulas, deixando cicatrizes, e não tinha cura. Mas o método usado era bem diferente do que estamos acostumados: os cientistas da época transformavam cascas de feridas de varíola em um pó contendo o vírus já inativo, e espalhavam nos ferimentos das pessoas já contaminadas. Esse método ficou conhecido como variolação. Alguns séculos depois, em 1796, com as pesquisas de Edward Jenner, as vacinas passaram a ser semelhantes às atuais. Ao perceber que moradores de áreas rurais que haviam contraído cowpox, uma doença semelhante à varíola, não ficavam doentes com a varíola humana, Jenner fez um experimento e aplicou em um menino chamado James Phipps de oito anos, uma pequena dose de varíola bovina. O garoto ficou doente, mas manifestou uma forma branda da doença. Após sua recuperação, Jenner introduziu na criança o vírus da doença humana em sua forma mais fatal, retirado de uma ordenhadeira. O menino, já imune, não desenvolveu a varíola. A palavra “vacina” vem de “vacca”, justamente pelo contexto histórico. 

 

Quem trouxe a vacina ao Brasil

Em 1859, Joaquim Manuel de Macedo e Joaquim Norberto de Souza Silva, membros da Comissão Subsidiária de Trabalhos Históricos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, organizaram um “Parecer sobre a introdução da vacina no Brasil”. A incumbência havia partido do Ministério dos Negócios do Império, por ordem do imperador dom Pedro II. O documento tinha como objetivo aclarar uma disputa sobre quem havia introduzido a vacina do Brasil - objeto de discórdia entre o filho do Marquês de Barbacena e o  filho do cirurgião Francisco Mendes Ribeiro de Vasconcelos. Segundo o manuscrito de 19 páginas, o mérito pertencia de fato ao Marquês de Barbacena. O documento explica que Francisco Mendes praticava a inoculação, ou seja, introduzia na pele material contaminado com o vírus, um método altamente perigoso, enquanto o marquês havia de fato utilizado a técnica criada por Edward Jenner. Trazida de Portugal, a vacina foi colocada em prática na Bahia. 

A importância da vacinação

A vacinação é a melhor forma de erradicar doenças e conter a propagação de micro-organismos nocivos à saúde. Quem se vacina diminui as chances de contrair a enfermidade e ainda protege seus amigos e familiares, pois diversas doenças infecciosas são transmitidas por contato ou pelo ar. A vacinação é o motivo pelo qual diversas doenças graves e sem cura estão hoje sob controle ou foram extintas. O caso mais emblemático é o da varíola, primeira doença a receber uma vacina como a entendemos hoje. Após matar quase 300 milhões de pessoas no século XX, ela foi extinta em 1984. Calcula-se que, com a vacina, são salvas 5 milhões de vidas a cada ano. 

 

A vacinação no Brasil

As políticas públicas de imunização do Brasil são consideradas referência mundial há décadas e, em muitos casos, a vacinação é obrigatória. Assim como a história da imunização em geral, a história da imunização no Brasil está atrelada à criação da vacina contra a varíola. Ela era obrigatória para crianças desde 1837 e para adultos desde 1846, mas a lei só começou a ser cumprida de verdade em 1904, por influência do médico sanitarista e pioneiro da infectologia Oswaldo Cruz. A obrigatoriedade da vacina não foi bem recebida pela população, dando origem à Revolta da Vacina no Rio de Janeiro (então capital do país). Em menos de duas semanas, houve 30 mortos e 110 feridos, além de 945 pessoas presas e 461 deportadas. A situação mudou em 1908, quando o Rio foi atingido por um violento surto de varíola, e o medo da doença foi maior do que o receio contra a vacina.

Hoje, a vacinação do Brasil é realizada por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973 e instituído oficialmente pela lei 6.259/75. Referência internacional no controle e erradicação de doenças infecciosas, o PNI é responsável pela distribuição de vacinas para toda a população por meio do Sistema Único de Saúde. Graças a suas ações, o perfil epidemiológico das doenças imunopreveníveis no Brasil mudou. Exemplo disso é a extinção da poliomielite e da varíola, e o controle do sarampo, hepatite, rubéola, tétano, entre outras doenças. Um dos maiores programas de vacinação do mundo, o PNI disponibiliza gratuitamente 45 imunobiológicos para diferentes faixas etárias.

 

O Butantan e a imunização

O Instituto Butantan é um grande aliado da imunização em massa no Brasil. Produtor de oito tipos diferentes de vacinas (contra raiva, HPV, Hepatite A, Hepatite B, Influenza Trivalente, H1N1, DTPa e Covid-19), é hoje o maior produtor de soros e vacinas da América Latina. Toda a produção do Butatan é direcionada ao PNI - como, por exemplo, as 80 milhões de doses de imunizantes fabricados anualmente contra a influenza (gripe).

 

Imagens: Acervo Centro de Memória/Instituto Butantan