Boa reputação e interesse comum em combater a pandemia rapidamente uniram Butantan e Sinovac, explica diretor clínico da farmacêutica chinesa


Publicado em: 27/10/2021

Os principais motivos que levaram a farmacêutica chinesa Sinovac a se tornar parceira do Butantan foram a reputação do instituto e a partilha de um mesmo valor: combater a pandemia o mais rápido possível. É assim que o diretor clínico da Sinovac, Zeng Gang, em visita ao Brasil, explica por que a empresa chinesa priorizou o Butantan dentre diversos parceiros comerciais interessados na produção conjunta de uma vacina contra a Covid-19 ainda em 2020.

Zeng lembra que, quando a pandemia surgiu, a Sinovac refletiu bastante se direcionaria esforços para o desenvolvimento de um imunizante contra o SARS-CoV-2. Isso porque em 2003, durante o surto de SARS (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave) na Ásia, a empresa havia investido em uma vacina que acabou não sendo usada, pois a doença logo foi controlada. Apesar do histórico negativo, os executivos optaram por arriscar novamente em 2020. “Existia a preocupação de que a pandemia continuasse e não tivesse uma vacina. Para salvar vidas, decidimos pesquisar e produzir um imunizante para combater o SARS-CoV-2”, completa o diretor clínico.

Partindo da vacina estudada para o surto de coronavírus de 2003, os cientistas chineses se dedicaram à adaptação para o novo patógeno. A fase um e dois dos ensaios clínicos aconteceram rapidamente na China e o uso emergencial do produto no país foi aprovado em julho de 2020. A técnica de vírus inativado da CoronaVac, que é usada em vacinas como a da pólio, hepatite A e influenza, ajudou a agilizar o processo. “Era uma tecnologia bastante amadurecida e que havia funcionado no último século. Afinal, nós temos vacinas inativadas há muitos e muitos anos”, declara Zeng. “Para ser sincero, essa deve ser a vacina mais segura de todo o mundo em termos de eventos adversos sérios e comuns.”

Com a segurança e capacidade de induzir resposta imune aprovadas, era hora de analisar a eficácia da vacina com a fase três dos ensaios clínicos – quando um imunizante é testado em um grande número de pessoas. Essa etapa não pode ser feita na China, pois a pandemia estava controlada por lá em meados de 2020. Além disso, até fevereiro deste ano a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) exigia, para a concessão da autorização de uso emergencial de um novo imunizante, que os estudos de fase três fossem conduzidos no Brasil.

“Em duas ou três semanas nós criamos um acordo com o Butantan. Fechado esse acordo, o Butantan se responsabilizou pela realização dos ensaios clínicos de fase três e foi muito rápido. Depois de três semanas tivemos a aprovação da Anvisa e, após mais duas semanas, começamos a imunizar os voluntários”, conta Zeng, assinalando que a relação entre Sinovac e Butantan é boa e envolve confiança de ambas as partes.

Os ensaios clínicos de fase 3 no Brasil – realizados junto a profissionais da saúde, o público mais exposto à Covid-19 – mostraram uma eficácia geral de 50,7% da CoronaVac no intervalo de 14 dias entre as duas doses, e de 62,3% quando o intervalo é de 21 a 28 dias. Mas o mais importante, segundo Zeng, é o desempenho da vacina na proteção contra hospitalizações e mortes. “Isso é que tem que ser lembrado: os casos graves caíram bastante, graças também à CoronaVac.”

 

Vacina em crianças e continuação da parceria

A CoronaVac é a vacina mais usada no planeta contra a Covid-19, com mais de dois bilhões de doses fabricadas, o que significa 24% da produção total mundial. Esse número, associado ao alto perfil de segurança característico da tecnologia de vírus inativado, é um dos motivos que leva Zeng a defender o uso da CoronaVac também em crianças.

“Nós observamos que a imunidade na população pediátrica é de três a cinco vezes maior do que na adulta. Na China, já temos 100 mil doses dadas a esse público. No Chile, foi iniciada a vacinação em massa em crianças. Também temos outros países como Indonésia, Camboja e Malásia que aprovaram o uso pediátrico”, aponta o diretor clínico. Segundo ele, após seis meses, a soroconversão das crianças segue em torno de 80%, e é possível que elas nem precisem de dose de reforço.

A vacina do Butantan e da Sinovac também tem mostrado bons resultados na dose de reforço. “Seis meses após a dose de reforço em idosos e profissionais da linha de frente, os anticorpos se mostraram mais altos do que um mês após a segunda dose”, diz Zeng.

Butantan e Sinovac planejam seguir com a parceria e produzir vacinas de segunda geração. Para isso, os pesquisadores vão acompanhar os desdobramentos da dose de reforço e qual será sua efetividade. “Sempre vão existir novas perguntas científicas para serem respondidas em um futuro próximo, o que nos dará novas oportunidades de colaboração.”