Vacinas de vírus inativado controlaram outras pandemias, como a H1N1, relembram pesquisador da USP e vice-presidente da Sinovac

Uma das tecnologias mais difundidas, vacinas de vírus inativado são aplicadas há 90 anos e salvaram bilhões de vidas


Publicado em: 18/04/2022

A pandemia de Covid-19 não é a primeira e, infelizmente, é provável que não seja a última que o mundo terá que enfrentar. O surto de H1N1 que ocorreu em 2009, popularmente chamado de gripe suína, é o exemplo mais recente. Mesmo sendo menos letal e menos transmissível do que o SARS-CoV-2, o subtipo do vírus influenza se disseminou para mais de 120 países na época e a pandemia só chegou ao fim após 14 meses. O que possibilitou o seu controle foi a adaptação da vacina da influenza, produzida com tecnologia de vírus inativado, que existe desde 1930 e é atualizada anualmente no Brasil pelo Instituto Butantan com as cepas mais circulantes.

Nos últimos dois anos, a eficácia das vacinas de vírus inativado foi alvo de questionamentos sem base científica e fake news. Essa tecnologia, porém, é uma das mais aplicadas no mundo todo e já foi usada para combater outras pandemias, junto à de vírus atenuado. Segundo o imunologista Gustavo Cabral, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), as novas tecnologias, como RNA mensageiro e vetor viral, vieram não para substituir as técnicas existentes, mas sim para somar. “Imagina se nós tivéssemos esperado até 2021 para ter uma vacina de RNA mensageiro ou de vetor viral para controlar as pandemias anteriores? Não teríamos tempo. A melhor arma contra qualquer doença infectocontagiosa é a vacina, independente de qual for”, afirma.

A gripe, causada pelo vírus influenza, é uma das doenças infecciosas mais comuns do mundo. Devido à sua alta capacidade de mutação, o vírus do tipo A já provocou outras pandemias no passado. A maior delas foi a gripe espanhola entre 1918 e 1919, também causada pela H1N1, que matou mais de 50 milhões de pessoas em um cenário em que ainda não existia vacina. Depois disso, houve a gripe asiática de 1957 a 1958 (subtipo H2N2) e a gripe de Hong Kong em 1968 e 1969 (H3N2), que resultaram em mais de dois milhões de óbitos. As duas últimas foram controladas graças à vacinação, que se iniciou na década de 1930.

Além da vacina da gripe, a tecnologia de organismo inativado (vírus ou bactéria) também é usada em imunizantes contra hepatite A, raiva, poliomielite, HPV, tríplice bacteriana (difteria, tétano e coqueluche) e meningite. Para o vice-presidente da Sinovac, Weining Meng, a desconfiança relacionada a esse tipo de vacina não tem fundamento. “Centenas de dados ao longo de décadas trazem evidências sólidas de que essa técnica é segura e eficaz para a população”, reforça.

 

Vacina inativada contra a poliomielite salvou milhares de crianças

Entre os anos 1930 e 1950, diversos surtos de poliomielite (paralisia infantil) atingiram crianças ao redor do mundo. A epidemia que ficou mais conhecida foi a de 1952 nos Estados Unidos, com 57.628 crianças infectadas, 21.269 paralisadas e 3.175 óbitos. Na época, o virologista Jonas Salk da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh começou a desenvolver um imunizante de vírus inativado contra a poliomielite, que foi essencial para a erradicação da doença no país anos depois. Hoje, a doença ainda permanece endêmica no Afeganistão, na Nigéria e no Paquistão, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, ela foi erradicada em 1989, mas corre o risco de voltar com a queda da imunização observada nos últimos anos.