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O que fazer ao encontrar uma taturana ou lagarta? Instituto Butantan orienta

Soro produzido a partir do veneno desses animais contém anticorpos que neutralizam as toxinas e impedem o avanço do envenenamento, que pode ser fatal


Publicado em: 01/04/2026

Reportagem: Caio Santana
Fotos: Renato Rodrigues

Imagine andar numa mata e de repente encontrar uma árvore repleta de taturanas? A preocupação é justificada: mesmo que sejam pequenos, esses seres vivos do gênero Lonomia são capazes de inocular um perigoso veneno quando suas cerdas entram em contato com a pele humana. Se a substância não for neutralizada em tempo hábil, o acidente pode levar à morte. 

Entre os sintomas do contato com as lonomias estão dor com sensação de queimadura e vermelhidão, às vezes um leve inchaço e mais raramente bolhas. Horas depois, o envenenamento pode provocar dor de cabeça, náuseas e mal-estar, que antecedem a alteração na coagulação sanguínea e hemorragias pelo corpo, como nas gengivas e na urina. 

O único tratamento específico disponível é o uso do soro antilonômico, que foi criado e é produzido até hoje pelo Instituto Butantan a partir de lagartas recebidas de diferentes locais.

Lonomia

 

Se você mora em um lugar onde há lonomias, pode ajudar nesse processo. Em primeiro lugar, ao encontrar a lagarta, tome cuidado para não se colocar em risco nem prejudicar o inseto. Depois, acione o Centro de Zoonoses do município. A coleta deve ser realizada por equipes capacitadas e que contem com os equipamentos adequados.

“A população tem um papel crucial na identificação das lonomias que, dependendo da região, podem ser encontradas em diferentes épocas do ano. Em muitos casos, moradores de áreas de mata nativa, habitat natural desses insetos, monitoram o surgimento das lagartas e avisam o serviço de saúde para retirada do local e envio para o Butantan”, explica a diretora técnica de produção de soros hiperimunes do Instituto, Fan Hui Wen.

As lonomias têm um ciclo de vida composto por quatro fases: ovo, larva (lagarta), casulo ou pupa e adulto (mariposa), fechando o ciclo de metamorfose completa. “Assim, a criação em cativeiro torna-se muito mais complexa, não se mostrando até o momento exequível. Desta forma, contamos com a parceria de prefeituras e estados, nos quais Centros de Controle de Zoonoses e Vigilância Sanitária fazem a coleta nos locais onde as lonomias são encontradas pela população e nos enviam os exemplares necessários para a produção”, pontua Fan Hui Wen.

A recomendação é nunca tentar coletar o animal sem a supervisão de profissionais especializados. Mas se não for possível aguardar esse apoio, é imprescindível o uso de luvas de borracha e de uma pinça longa para manipulação segura da lagarta. As lonomias coletadas podem ser trazidas para o setor de Recepção de Animais do Instituto Butantan, na cidade de São Paulo.

 

 

Produção do soro

O Brasil é um dos dois únicos países produtores do soro antilonômico, junto com a Colômbia. Com desenvolvimento e produção iniciados pelo Butantan na década de 1990, o Instituto fabrica cerca de 5 mil doses anuais – o número já chegou a 17 mil.

O veneno da lonomia, matéria-prima básica do soro, é obtido por meio de um “extrato” de cerdas da lagarta, que precisam ser cortadas, maceradas e, depois, separadas para obtenção da substância na forma líquida. 

“O processo de desenvolvimento desse soro seguiu passos semelhantes ao da produção dos outros antivenenos, como o soro antiofídico. Precisávamos do veneno da lagarta para produzir um antígeno para imunizar cavalos, para que estes produzissem anticorpos específicos no plasma. Após o plasma ser processado na fábrica de soros, chegamos ao produto capaz de neutralizar o envenenamento sistêmico causado pela lonomia. Este foi o grande desafio na produção. Muitos pesquisadores participaram dessa grande empreitada”, afirma Fan Hui Wen.

As doses produzidas no Butantan são enviadas ao Ministério da Saúde, que distribui o medicamento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Do Butantan, o soro também já foi enviado para diversos países da América do Sul, salvando vidas de pacientes no Peru, Argentina, Uruguai, Guiana Francesa e Guiana.

 

 

O Instituto chegou a receber uma carta de agradecimento do Parlamento Britânico por ter salvado a vida de um inglês de 29 anos que pisou em uma taturana em viagem pela Guiana, em 2023. Com a dificuldade dos médicos em identificar a causa dos sintomas, amigos próximos do jovem, entre eles uma brasileira, procuraram o Hospital Vital Brazil, unidade de saúde que fica dentro do Butantan e é especializada no atendimento de acidentes por animais peçonhentos. A partir desse contato, se iniciou uma força tarefa  para enviar o soro antilonômico ao paciente. O homem teve alta duas semanas depois de receber o antiveneno.

Vale ressaltar que o Butantan não comercializa antivenenos para empresas nem para pessoas físicas. Além disso, a administração do antiveneno deve ocorrer sob vigilância de um profissional da saúde responsável, em ambiente hospitalar.

Entrega de lonomias no Butantan

Quem recebe: Recepção de Animais do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan
Endereço: Av. Vital Brasil, 1.500 - Bairro Butantã - São Paulo/SP
Quando: de 2ª a 6ª, das 8h às 17h (exceto feriados)
Mais informações: (11) 2627-9885/9526

Hospital Vital Brazil

Atendimento 24h especializado no atendimento a acidentes causados por animais peçonhentos, inclusive lagartas.
Endereço: Av. Vital Brasil, 1.500 - Bairro Butantã - São Paulo/SP
Quando: aberto 24h por dia
Esclarecimento de dúvidas: telefones (11) 2627-9528 / 9529 / 9530, (11) 3723-6969 ou (11) 91472-2902 (disponível somente para ligações)