Reportagem: Natasha Pinelli
Fotos: Bruna Custódio
Narrada no livro do Gênesis, a passagem bíblica da Arca de Noé conta a história do personagem que, escolhido por Deus, sobreviveu ao grande dilúvio que assolou a Terra e ajudou a preservar a vida das espécies existentes. Inspirados por esse relato de resiliência, pesquisadores do Instituto Butantan criaram sua própria versão da operação: um programa de conservação ex situ voltado à manutenção de cinco jararacas endêmicas de ilhas brasileiras e fortemente ameaçadas. São elas a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis); a jararaca-de-alcatrazes (Bothrops alcatraz); a jararaca-de-vitória (Bothrops otavioi); a jararaca-dos-franceses (Bothrops sazimai); e a jararaca-da-moela (Bothrops germanoi).
Encabeçada pelo Laboratório de Ecologia e Evolução do Butantan (LEEv), a Operação Arca de Noé tem como objetivo estabelecer populações de segurança de cada uma dessas serpentes em ambiente controlado, a fim de preservar o patrimônio genético das espécies e até permitir futuras reintroduções, caso ocorram desastres em seus habitats originais. “Ilhas são territórios naturalmente mais restritos e isolados. Isso significa que qualquer desequilíbrio pode levar à extinção de populações que não existem em nenhum outro lugar do planeta”, pontua a pesquisadora científica do LEEv e líder do projeto, Selma Almeida Santos.

A pesquisadora Selma Santos é responsável pela coordenação do projeto
Desde 2023, diferentes expedições têm sido realizadas às ilhas da Moela, Alcatrazes, Queimada Grande e da Vitória, todas localizadas no litoral paulista, além da Ilha dos Franceses, no Espírito Santo. As missões focam na coleta de dados metabólicos e reprodutivos das espécies endêmicas de cada ilha, assim como na avaliação das condições do habitat e na seleção de indivíduos para integrar o plantel do laboratório. Desde então, 17 novos espécimes foram incorporados à população de serpentes insulares do LEEv.
“O Instituto Butantan possui todas as autorizações legais necessárias para a coleta e o manejo desses animais, trabalhando em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade [ICMBio]. Também integramos o Plano Nacional de Espécies Ameaçadas [PAN], que prevê a criação de plantéis fora da natureza como estratégia de segurança”, esclarece a bióloga e tecnologista do LEEv responsável pelas expedições às ilhas, Karina Nunes Kasperoviczus.

Expedição do Butantan na Ilha da Queimada Grande
Com uma nova sede inaugurada em 2025, o complexo do LEEv conta com estrutura de ponta para receber esses animais, incluindo salas e terrários climatizados que reproduzem, com precisão, o microclima de cada ilha – como temperatura, umidade e incidência de radiação solar. Uma vez no laboratório, cada indivíduo passa a ser acompanhado de forma sistemática, permitindo aos pesquisadores observar padrões de comportamento, ciclos reprodutivos e padrões fisiológicos frente a diferentes condições ambientais.
Esse acompanhamento contínuo é fundamental, já que boa parte das espécies insulares – com exceção da jararaca-ilhoa – é rara de ser encontrada na natureza, o que dificulta a observação em seu habitat original. “Os estudos conduzidos em laboratório também envolvem bioanálises que permitem investigar parâmetros de saúde, bem-estar e genética. Com isso, conseguimos construir uma base de referência para monitorar como essas espécies se adaptam sob cuidados humanos e avaliar se permanecem aptas para uma possível reintrodução na natureza”, afirma o pesquisador científico do LEEv Daniel Pimenta.

Daniel Pimenta é pesquisador científico do LEEv e integra o projeto
A “Operação Arca de Noé” apresentou seus primeiros resultados positivos em abril de 2026 ao alcançar um feito inédito: o nascimento de filhotes de Bothrops sazimai em ambiente de laboratório, após cópulas entre um macho e duas fêmeas terem sido registradas. Além da ampliação do plantel, a realização permitiu que os pesquisadores do Butantan conseguissem documentar todo o ciclo reprodutivo da jararaca-dos-franceses em laboratório: da formação do casal ao pós-parto.
“Escolhemos indivíduos que estavam devidamente saudáveis, alimentando-se corretamente, bem hidratados e com órgãos importantes, como fígado e rim, preservados, conforme apresentado em exames prévios”, explica Karina. As fêmeas também tinham os folículos vitelogênicos em início de desenvolvimento – sinal de que estavam se preparando para uma possível reprodução.

Karina Nunes Kasperoviczus, bióloga e tecnologista do LEEv responsável pelas expedições às ilhas
Em períodos diferentes, cada uma das três fêmeas escolhidas foi colocada em um terrário na companhia de um mesmo macho. Ali, os casais passaram a ser monitorados 24 horas por dia por câmeras com sensores infravermelho, uma vez que as cópulas ocorrem durante a noite. Vale ressaltar que a corte entre as jararacas costuma ser um processo lento, capaz de se estender por dias, sendo desencadeada por possíveis feromônios que os cientistas ainda não compreendem completamente.
De acordo com as imagens registradas, houve cópula com duas fêmeas nos dias 16/5 e 3/6 de 2025. A confirmação foi realizada por meio de um exame de swab, no qual um tipo de cotonete é passado na cloaca da fêmea e permite visualizar a presença de espermatozoides em análises laboratoriais. A partir daí, elas passaram a ser acompanhadas por meio de ultrassonografias periódicas mensais, em um processo comparável a um “pré-natal” que permite observar desde a formação dos folículos até o desenvolvimento dos embriões.
Coincidência do destino, a primeira “mamãe” sazimai deu à luz a duas fêmeas, justamente no feriado de Páscoa. A segunda serpente prenhe deve parir mais três indivíduos da espécie até o final de maio. Já a terceira fêmea do plantel que também passou pelo processo, mas que recusou às investidas do macho, deverá estar apta para uma nova tentativa de reprodução em alguns meses.

A Páscoa também marcou outro nascimento bastante celebrado: o de um macho de Bothrops germanoi – outros dois filhotes da espécie, provavelmente fêmeas, nasceram poucas semanas depois.
Endêmica da Ilha da Moela, localizada próxima à cidade de Guarujá (SP), a jararaca-da-moela é considerada rara e vive em um ambiente marcado por desequilíbrios. A hipótese levantada pelos cientistas é que a superpopulação de teiús – lagartos oportunistas que predam as serpentes –, somada à presença humana permanente na ilha, agrava a pressão predatória sobre a espécie, que também parece apresentar baixa fecundidade.
Diferentemente do que ocorreu com a jararaca-dos-franceses, as fêmeas de B. germanoi chegaram ao Butantan prenhe, após serem coletadas em uma expedição autorizada pelos órgãos ambientais. A prática integra as estratégias de conservação e permite acompanhar o desenvolvimento dos embriões desde o início, gerando informações inéditas sobre a biologia da espécie, fundamentais para orientar ações futuras de manejo e proteção.

A chegada dos filhotes ao LEEv também proporcionaram um segundo momento simbólico: o encontro entre os novos exemplares de B. germanoi e o profissional que dá nome à espécie, Valdir José Germano. Referência na herpetologia brasileira, o técnico de apoio à pesquisa científica e tecnológica do Laboratório de Coleções Zoológicas do Butantan é reconhecido nacionalmente por sua precisão e segurança no manejo de serpentes.
Não por acaso, foi o responsável por realizar a pesagem, medição e extração de veneno das jararacas recém-nascidas, que tinham pouco mais do que 25 centímetros de comprimento e sete gramas. “Essa primeira coleta pode gerar informações valiosas para a comunidade científica, como a compreensão de quais propriedades compõem esse primeiríssimo veneno. De fato é um desafio manusear indivíduos tão pequenos, mas que já são bastante agressivos”, relata Valdir.

Valdir José Germano, técnico do Laboratório de Coleções Zoológicas do Butantan
Com o sucesso dos nascimentos em laboratório, a Operação Arca de Noé avança para uma nova etapa. Agora, o objetivo é o desenvolvimento de técnicas de reprodução assistida, como inseminação artificial, e a criação de bancos de germoplasma, que preservam a diversidade genética das espécies ao longo do tempo. “A meta é tornar o processo mais previsível e reduzir a dependência de eventos naturais”, afirma Selma.
Para garantir a viabilidade dessa população de segurança, o laboratório também utiliza um sistema de gerenciamento de dados que permite mapear a genealogia dos indivíduos e evitar cruzamentos entre parentes, mantendo a diversidade genética necessária para a sobrevivência das espécies no longo prazo.

“Mais do que um backup genético, a Operação Arca de Noé representa um fôlego renovado para a biodiversidade de serpentes endêmicas insulares brasileira, transformando o laboratório do Butantan em um berçário estratégico, onde cada nascimento é a promessa de que nenhuma dessas espécies será deixada para trás”, conclui Karina.
A Operação Arca de Noé conta com apoio da Fundação Butantan e atuação integrada com o projeto “Preservação e viabilidade seminal para fins de reprodução assistida em serpentes endêmicas de ilhas” – esse último com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).



