Jararaca-ilhoa: entenda como o isolamento criou uma nova espécie 100% brasileira

A serpente desenvolveu hábitos alimentares adaptados ao local onde foi isolada, caçando aves principalmente


Publicado em: 23/06/2022

A jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) é uma moradora muito especial da Ilha da Queimada Grande, conhecida como “Ilha das Cobras", no litoral sul de São Paulo. Por ser encontrada exclusivamente na ilha, possui características diferentes das suas irmãs  jararacas continentais.

A primeira transformação é ligada ao ambiente, isolada em um pequeno espaço coberto pela mata atlântica, a espécie desenvolveu hábitos alimentares adaptados ao local e caça principalmente nas árvores, abocanhando as aves que migram para a ilha. Apesar de arborícolas, elas também são encontradas no chão da mata, em diferentes períodos do ano.

Por frequentar mais a vegetação, seu corpo parece ter se modificado ao longo de gerações. Ela é menor e mais leve que a jararaca continental, com uma cauda longa, adaptada para agarrar e escura na ponta, possivelmente usada para imitar larvas de inseto e atrair presas. Sua cabeça é maior e as presas menores comparadas as suas parentes.

As jararacas ficaram isoladas na Ilha da Queimada Grande há 11 mil anos, após a era glacial. Com o aumento das temperaturas, o nível das águas subiu e separou o território do continente, junto com um certo número de jararacas. Ao longo desse período, essas jararacas isoladas foram se adaptando e se diferenciando de suas irmãs que ficaram do outro lado do mar.

Por ser uma cobra com história evolutiva tão interessante, a jararaca-ilhoa é um grande alvo de biopirataria – ou seja, traficantes de animais costumam retirar exemplares da ilha e vender ilegalmente, o que põe em risco sua existência. Esse é o motivo pelo qual a espécie está criticamente ameaçada de extinção, conforme a International Union for Conservation of Nature (IUCN) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

 

JARARACA-ILHOA

Espécie: serpente Bothrops insularis, da ordem Squamata, da família Viperidae e do gênero Bothrops.

Onde habita: Ilha da Queimada Grande, a 35 quilômetros da costa de Itanhaém, no litoral sul de São Paulo.

Características físicas: espécie de porte médio, menor e mais leve que a jararaca comum, em tonalidade amarela esverdeada, com poucas manchas mais verdes espaçadas pelo corpo.

Alimentação: na sua fase filhote se alimenta de anfíbios e centopeias. Na fase adulta se alimenta principalmente de aves.

 

*Este texto foi produzido com o apoio do pesquisador científico Otavio Augusto Vuolo do Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan