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História da dengue no Brasil: após 40 anos e 20 milhões de casos, vacina pode ser ponto de virada para controle da doença

Presente no país desde a década de 1980, doença teve aumento expressivo nos últimos anos; vacina do Butantan recém-aprovada poderá ser nova ferramenta de combate


Publicado em: 26/01/2026

Reportagem: Aline Tavares
Fotos: Comunicação Butantan, Centro Cultural do Ministério da Saúde e Shutterstock

 

A primeira epidemia documentada de dengue no Brasil ocorreu entre 1981 e 1982 em Boa Vista (RR), com 11 mil casos, segundo o Ministério da Saúde. Na época, somente 12 municípios registravam a presença do mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus. Nos anos seguintes, porém, o vetor foi se espalhando por todo o país devido ao crescimento dos centros urbanos e ao clima quente e úmido, favorável para sua proliferação. A doença logo se tornou um grave problema de saúde pública: entre 2000 e 2024, foram notificados um total de 24 milhões de casos prováveis e 16 mil mortes no Brasil.

A recente aprovação da vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan, a Butantan-DV, fruto de mais de uma década de estudo, traz uma nova ferramenta para o controle da doença. De dose única, o imunizante é recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a faixa etária de 12 a 59 anos.
 


A dengue é uma das doenças transmitidas por mosquitos mais comuns no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que metade da população mundial viva em risco de contrair o vírus, e que cerca de 100 milhões a 400 milhões de casos ocorram a cada ano. A infecção é muitas vezes assintomática, mas alguns pacientes evoluem para a forma grave, que pode resultar em hemorragia e morte se não for tratada.

Antes endêmica do Sudeste Asiático e da Oceania, a dengue vem se disseminando nas Américas há pelo menos 40 anos. Em 1986, o vírus já circulava em grandes centros urbanos no Brasil, dando origem a três ondas epidêmicas: 1986-1987, no Rio de Janeiro, Ceará e Alagoas (incidência de 35,2 a 65,1 casos por 100 mil habitantes); 1990-1991, no Ceará (249,1/100 mil habitantes) e no Rio de Janeiro (613,8/100 mil habitantes); e 1997-1998, com uma incidência de 352,4/100 mil habitantes, em estados como Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Sergipe, Paraíba e Piauí.

 

 

No ano de 1998, o país registrou um recorde de 700 mil casos de dengue, com maior incidência nas regiões Nordeste, Sudeste e Norte. A doença seguiu com centenas de milhares de infecções anuais no século XXI e, recentemente, atingiu patamares históricos: entre 2023 e 2024, o número de casos notificados subiu de 1,6 milhão para 6,6 milhões. As mortes também aumentaram de 1.179 para 6.183, de acordo com o Painel de Monitoramento de Arboviroses.

No mundo, surtos suspeitos de dengue são registrados desde o século XVII, mas a menção mais antiga à doença vem de uma enciclopédia chinesa de 610 d.C., que descrevia a enfermidade como “veneno da água”, pois acreditava-se que ela tinha conexão com insetos relacionados à água. Mais tarde, no início do século XX, o cientista australiano Thomas Lane Bancroft sugeriria que a transmissão da dengue era causada pelo mosquito Aedes aegypti, que deposita seus ovos em água parada – hipótese confirmada em 1908 pelo médico cubano Aristides Agramonte y Simoni. O nome da doença, possivelmente derivado do suaíli “Ka-dinga pepo” (“cãibra de início súbito”), faz referência às dores no corpo que os pacientes sentem.


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Um século de combate

A principal forma de prevenção da dengue é a eliminação de criadouros do mosquito Aedes aegypti. A primeira campanha para controle do inseto no Brasil ocorreu no início de 1900, por iniciativa do sanitarista Oswaldo Cruz, mas com foco no combate à febre amarela urbana – outra doença transmitida pelo mosquito, que assolava o país na época. Como o vetor das duas doenças é o mesmo, os esforços contra a febre amarela urbana também acabaram ajudando no controle da dengue durante a primeira metade do século XX.

Em 1947, a OMS e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) coordenaram ações de combate ao Aedes aegypti nas Américas. O resultado foi que em 1955 o Brasil conseguiu erradicar o mosquito. Nos anos seguintes, devido ao relaxamento das medidas, a espécie foi reintroduzida. Novamente erradicada em 1973, ela retornou em 1976 – desta vez, para ficar.

Como resposta às epidemias das décadas de 1980 e 90, o Ministério da Saúde elaborou o Plano de Erradicação do Aedes aegypti (PEAa) em 1996. O programa previa operações de campo para combate ao vetor; vigilância de portos, aeroportos e fronteiras; saneamento básico; educação e comunicação social; vigilância epidemiológica e desenvolvimento de pesquisas. As medidas, no entanto, não foram suficientes para erradicar o mosquito uma terceira vez – a alta variabilidade genética desses insetos e as mudanças climáticas ajudam a explicar sua resistência e capacidade de adaptação.

 

 

Em 1999, a dengue foi oficialmente reconhecida pela OMS como um grave problema de saúde pública, ao ser incluída na lista de doenças do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais. A organização indicou como prioridade pesquisas sobre a biologia e comportamento do vetor, impactos socioeconômicos, fatores de risco, métodos de diagnóstico rápido, fisiopatologia da dengue e desenvolvimento de vacinas. 

No Brasil, o Programa Nacional de Controle da Dengue, implementado em 2002, tinha como objetivos reduzir a infestação pelo Aedes aegypti, a incidência da dengue e a letalidade por febre hemorrágica de dengue (atualmente denominada dengue grave). O foco das ações passou a ser a elaboração de ações permanentes, já que não havia evidência de que a erradicação do mosquito seria possível a curto prazo, e o desenvolvimento de campanhas de informação e de mobilização da população. 

 


Os diferentes sorotipos

Desde a primeira vez que o vírus da dengue foi isolado em laboratório, em 1943, quatro sorotipos foram identificados (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4). Cada sorotipo é um vírus geneticamente distinto, com antígenos diferentes – o que significa que um paciente infectado por DENV-1 desenvolve imunidade específica contra ele, mas não contra os tipos 2, 3 e 4. Por isso, uma pessoa pode ter dengue mais de uma vez ao longo da vida.

O DENV-1 foi identificado pela primeira vez no Japão em 1943 e foi se disseminando pela Ásia e, mais tarde, pela África. Nas Américas, ele foi encontrado a partir de 1977 – e foi um dos responsáveis pelo primeiro surto da doença no Brasil, em 1982. Já a cepa DENV-2 foi identificada em 1944 na Papua Nova-Guiné e na Indonésia; e nas Américas, em 1953. Tanto DENV-3 como DENV-4 foram registrados em 1953 nas Filipinas e na Tailândia, e continuam sendo mais comuns na região asiática. Nas Américas, eles chegaram em 1963 e 1981, respectivamente.

 

 

Nos últimos anos, tem se observado a prevalência dos sorotipos 1 e 2 no Brasil. Mas, em 2024, voltaram a circular os sorotipos 3 e 4 – que não eram registrados desde 2003 e 2013, respectivamente. A ocorrência das quatro cepas, em conjunto com os efeitos das mudanças climáticas, pode favorecer novas infecções em pessoas que nunca tiveram contato com esses sorotipos.

 


Vacina: nova ferramenta contra a dengue

Embora a dengue esteja em circulação há muitos anos, o desenvolvimento de uma vacina sempre esbarrou na complexidade de precisar proteger igualmente contra os quatro sorotipos do vírus. Essa característica é necessária para evitar reações cruzadas entre os anticorpos induzidos pela vacina e os anticorpos produzidos frente a uma infecção. O que se teme, neste caso, é uma reação semelhante ao que ocorre quando somos infectados por um tipo do vírus da dengue, e depois por outro tipo: isso pode levar a uma resposta exacerbada do sistema imune e aumentar o risco de se desenvolver uma doença grave.

Das sete vacinas candidatas que passaram por ensaios clínicos no mundo, três se mostraram promissoras. Uma delas é a vacina que vem sendo desenvolvida pelo Instituto Butantan desde 2009 e acaba de ser aprovada pela Anvisa. A Butantan-DV, primeira do mundo que requer uma única dose para conferir proteção, obteve resultados de 74,7% de eficácia geral e 91,6% de eficácia contra dengue grave e com sinais de alarme – dados referentes a cinco anos de acompanhamento.

 

A fim de ampliar o público-alvo, o Instituto Butantan recebeu autorização da Anvisa para testar a vacina da dengue na população de 60 a 79 anos. Esse público é mais suscetível aos quadros graves da doença e ainda não conta com uma vacina disponível. Caso os resultados sejam satisfatórios, será possível solicitar a inclusão dessa faixa etária nas recomendações da Butantan-DV.

Mais dados deverão ser coletados para avaliar a possibilidade de incluir o público pediátrico de 2 a 11 anos nas recomendações da vacina.

 

Referências:
1.    Omar Saeed, Ahmer Asif. Chapter 2 - Dengue virus disease; the origins. Academic Press, 2020, Pages 9-16, ISBN 9780128182703.
2.    Salles, T.S., da Encarnação Sá-Guimarães, T., de Alvarenga, E.S.L. et al. History, epidemiology and diagnostics of dengue in the American and Brazilian contexts: a review. Parasites Vectors 11, 264 (2018).
3.    Gubler DJ. 1998. Dengue and Dengue Hemorrhagic Fever. Clin Microbiol Rev 11.
4.    REZENDE, J. M. de. NOTAS HISTÓRICAS E FILOLÓGICAS SOBRE A PALAVRA DENGUE. Revista de Patologia Tropical / Journal of Tropical Pathology, Goiânia, v. 26, n. 2, 2007. DOI: 10.5216/rpt.v26i2.17233
5.    BRAGA, Ima Aparecida e VALLE, Denise. Aedes aegypti: histórico do controle no Brasil. Epidemiol. Serv. Saúde [online]. 2007, vol.16, n.2, pp. 113-118
6.    Câmara FP, Theophilo RLG, Santos GT dos, Pereira SRFG, Câmara DCP, Matos RRC de. Estudo retrospectivo (histórico) da dengue no Brasil: características regionais e dinâmicas. Rev Soc Bras Med Trop [Internet]. 2007Mar;40(2):192–6.
7.    Boletim Epidemiológico Especial. Evolução temporal das doenças de notificação compulsória no Brasil de 1980 a 1998. Ministério da Saúde, 1999.
8.    LARA, Jorge Tibilletti de. A emergência da dengue como desafio virológico: de doença-fantasma à endemia “de estimação”, 1986-1987. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.29, n.2, abr.-jun. 2022, p.317-336.