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Cheirinho de sucesso: maria-fedida garante êxito no mundo animal com substância fedorenta

Com ciclo de vida curto e alimentação à base de seiva de plantas, esse percevejo possui diversas formas de se proteger de predadores e pode se tornar praga para plantações


Publicado em: 20/03/2026

Reportagem: Beatriz Milanez
Fotografia: Renato Rodrigues

Imagine que você está assistindo TV na sala da sua casa. Um pequeno inseto verde entra voando pela janela. Ao tentar tirá-lo dali, um cheiro estranho, forte, toma conta do ambiente. Então, você se dá conta: era uma maria-fedida – também conhecida como fede-fede, percevejo-verde ou percevejo-fedorento. A alcunha, merecida, se dá pelo odor que ela manifesta quando se sente ameaçada. 

O nome científico da bichinha em questão é Nezara viridula. Em termos mais formais, ela é um percevejo da família dos pentatomídeos, e o cheirinho tem a função primordial de afastar possíveis predadores. Isso porque a substância, além de malcheirosa, tem um gosto impalatável. Caso um passarinho, uma rã ou um lagarto tente abocanhar a maria-fedida, vai ser difícil de engoli-la. A substância que ela solta é composta por aldeídos insaturados, também presentes no coentro, é expelida por meio de glândulas localizadas na região do abdômen e do tórax. 

Essa essência fedida, por mais contraditório que possa parecer, também é um feromônio: serve para atrair parceiros em época de reprodução. É durante a primavera e o verão, com as altas temperaturas, que as marias-fedidas aproveitam para procriar e depositar os ovos em lugares que consideram mais “seguros”. Com o desmatamento e o crescimento das cidades, elas têm se adaptado aos locais que não tenham grandes variações de temperatura e umidade – por isso, não estranhe se encontrar um aglomerado de pequenos ovos grudados em lugares inusitados da sua casa, como toalhas de banho no varal. 

 

Seja no térreo ou em andares altos, nos centros urbanos ou plantações, a chance de encontrar alguma maria-fedida por aí é grande: a danada consegue voar boas distâncias, mesmo apresentando asas parcialmente completas, típico da subordem dos heterópteros. Essa capacidade de locomoção e o aparelho bucal do tipo picador ou sugador, característico da ordem dos hemípteros, contribuem para que ela consiga se alimentar daquilo que mais gosta: seiva de plantas. Não à toa, as marias-fedidas podem se tornar pragas para plantações. 

 

 

Inteligente e cheia de particularidades

Depois de se divertir no calor, se esbaldando no suco das plantas e garantindo a sobrevivência da estirpe enquanto pode, a maria-fedida se resguarda durante as estações mais frias do ano. Esse fenômeno, parecido com a hibernação, é chamado de dormência de diapausa. É nesse momento que o metabolismo da bichinha desacelera e suas atividades ficam restritas, como se todo o sistema reprodutor desligasse e ela aproveitasse para descansar. 

Ao voltar à ativa para se reproduzir, a maria-fedida se comporta de maneira diferente dos demais insetos. Ao botar os ovos, ela veste integralmente a skin de mãe e se dedica ao cuidado parental, tomando conta dos ovos até que eles eclodam. Essa atenção é um fator fundamental para o sucesso da espécie, já que a presença da matriarca por perto diminui as chances de algum parasita, como uma vespa, parasitar os ovinhos.

 

 

As ninfas levam cerca de 20 dias para nascerem e passam por vários estágios de ecdise (troca da camada externa do corpo). Já adultas, sobrevivem por aproximadamente 100 dias. Uma vida curta, mas muito bem vivida e aproveitada. 

E não se assuste caso escutar aquele barulho característico do voo dos besouros e não encontrar o bichano por aí: também pode ser uma maria-fedida. Mesmo tendo metade da asa incompleta, ela emite o som de asas pesadas como outra forma de defesa - algo involuntário, que se dá pelo formato do corpo e composição das asas. Inteligente, a danada.

O que também funciona como forma de defesa é a coloração: o percevejo-verde consegue se camuflar com mais facilidade em meio às vegetações; já o marrom se adapta aos troncos de árvore. E o mais curioso é que cada uma libera um cheiro diferente – mas nenhum muito agradável. 

 

 

Para evitar assustar a bichinha e impedir que o cheiro se espalhe pela casa, o recomendado é usar um copo plástico e uma folha para capturá-la e soltá-la na natureza. 

Maria-fedida (Nezara viridula)

Família: percevejos da família Pentatomidae – contam com antenas formadas por cinco segmentos

Onde habita: encontradas no mundo todo, mas muito comuns nas Américas e em regiões tropicais. Costumam viver em meio a plantações e, com a expansão urbana, também nas cidades

Características físicas: corpo geralmente em forma de escudo, com aproximadamente 1 a 2 cm de comprimento. Possuem cores que variam entre verde, marrom, manchado ou metálico, dependendo da espécie, para confundir predadores ou sinalizar perigo.

Ciclo de vida: ovo, ninfa e adulto

Tipo de alimentação: fitófaga – alimentam-se da seiva de plantas 

Curiosidades: produz uma substância que exala mau cheiro e é impalatável para os predadores, além de exercer o cuidado parental e cuidar dos ovinhos até eclodirem. É inofensiva à saúde humana.

Este texto teve a colaboração do biólogo e técnico do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan Eli Campos.