Quando o nome engana: conheça as cobras que não são cobras

O corpo longo de alguns animais pode confundir quem observa e levar à criação de nomes confusos e engraçados


Publicado em: 01/04/2022

Elas têm o corpo comprido, não possuem pernas ou braços, rastejam no chão e são até chamadas de cobras, mas não são! Apesar dessas qualidades serem marcantes nas serpentes, há outros animais que também as possuem. Essa semelhança pode gerar confusão nos seres humanos – que são, afinal de contas, quem dá nome aos bichos. 

Imagine a seguinte situação: uma pessoa andava por uma região remota e encontrou um animal nunca antes visto, mas com características das serpentes. Por isso, batizou o bicho de cobra. Outras pessoas também passaram a se referir ao animal daquele jeito, dando origem a seu “nome popular”. Mas quando os cientistas estudaram a nova espécie, descobriram que ela não fazia parte da classificação das serpentes – que ela tinha pequeninas patas, por exemplo. Mas, nessa altura, o nome popular já havia se disseminado.

O resultado é que tem muita espécie por aí que chamamos de “cobras”, mas não são! Isso não é errado, mas é importante ter em mente que os nomes populares podem enganar e confundir sobre a verdadeira espécie do animal. Separamos três exemplos de bichos que foram vítimas dessa “confusão”! 

 

Cobra-cega (Gymnophiona)

As primeiras dessa lista são as cobras-cegas, ou cecílias, que parecem com as serpentes por possuírem um corpo alongado e sem patas, mas estão bem longe de serem uma. Tão distantes, que nem ao menos são da mesma classe evolutiva das cobras. 

As serpentes são classificadas como répteis, grupo que também engloba os lagartos, tartarugas e crocodilos. As cecílias são anfíbios, uma classe evolutiva muito diferente, que reúne animais como sapos, rãs, pererecas e salamandras. No entanto, a falta de patas causa a confusão com as serpentes. 

A diferença entre répteis e anfíbios são muitas, e as principais estão na pele e nos ovos. Apesar de ambos colocarem ovos para se reproduzirem, os de anfíbios possuem cascas muito finas e úmidas, enquanto que os ovos de répteis têm cascas mais duras, resistentes à falta de umidade. A pele dos anfíbios também é úmida e desprotegida, mas eles apresentam glândulas secretoras de muco e toxinas para proteção. Já os répteis possuem o corpo sem glândulas, mas com escamas duras e resistentes, que os protegem e impedem a perda de água para o meio ambiente. 

As cecílias possuem essas glândulas, mas de um jeito diferente. Suas mucosas ficam mais concentradas na cabeça, o que facilita o deslizamento pela terra. Em direção à cauda, as glândulas vão diminuindo e passam a secretar veneno, como forma de se proteger dos predadores – afinal, nos túneis sob o solo, a cauda é o local mais visado e mais susceptível de ser mordido.

Outra diferença entre as serpentes e as cecílias são os hábitats. As cobras podem ser encontradas em ambientes terrestres ou aquáticos, e algumas gostam bastante de subir em árvores. Já as cecílias são animais que vivem embaixo da terra, em solos úmidos. Esse anfíbio quase não vê a luz do sol e, por isso, seus olhos são pouco desenvolvidos. Em compensação, algumas delas apresentam pequenas antenas na cabeça, que são usadas para tatear o terreno à frente e perceber moléculas químicas de odor. 

 

Cobra-de-duas-cabeças (Amphisbaenia)

Com o nome comum de cobra-de-duas-cabeças, este animalzinho não é uma serpente, é uma anfisbena. Diferente das cecílias, as anfisbenas estão um pouco mais próximas das cobras, pois pertencem ao grupo dos répteis. Apesar de terem o corpo alongado e arredondado, sem pés ou mãos, elas são bem diferentes. E não se engane, as anfisbenas tem uma cabeça só! 

Elas possuem a cauda com o mesmo tamanho e grossura da cabeça, enquanto as serpentes têm caudas mais afuniladas. Quando se sentem ameaçadas, as anfisbenas levantam a cauda e enganam o predador, que confunde a parte de trás do animal com sua cabeça. É por causa desse truque e de sua aparência que ela é chamada de cobra-de-duas-cabeças. Se um predador atacar a cauda achando que é a cabeça, ela fica com a cabeça livre para poder revidar. Sim, porque as anfisbenas mordem! Mesmo não sendo venenosas, suas mordidas são doloridas. 

Uma característica que é comum entre a anfisbena e a cecília é que ambas espécies vivem a maior parte do tempo embaixo da terra, por isso têm olhos pequenos e pouco desenvolvidos. O olfato é a principal arma da anfisbena para identificar as coisas ao seu redor.  

 

Cobra-de-vidro (Anguis fragilis)

Outro réptil que não é uma cobra, mas é confundido com uma, é a cobra-de-vidro, que, aliás, é um lagarto. 

O engano ocorre porque este animalzinho não possui membros anteriores e parece não ter pernas. Na verdade, elas existem nas laterais traseiras, mas são pequenas pernas pouco desenvolvidas. Além disso, ele também apresenta caudas longas e afuniladas. 

O motivo de ser comparado ao vidro é que este lagartinho também tem um truque para enganar predadores: a autotomia da cauda. Ela se separa do corpo, se algum predador agarrá-la, sem que o animal tenha algum problema depois. Assim, a parte presa fica com o predador e o lagarto pode fugir. Não muito tempo depois, uma nova cauda começa a se formar. 

 

Este texto foi produzido com o apoio do diretor do Museu Biológico do Butantan, Giuseppe Puorto, e da pesquisadora científica Marta Maria Antoniazzi

Créditos da foto: Giuseppe Puorto/Instituto Butantan e Comunicação Butantan