Mutações da ômicron já descritas em outras cepas explicam a eficácia das vacinas, apontam cientistas

Cientistas dizem que sem a vacinação, um alto número de infecções graves de cepas do vírus era esperado


Publicado em: 02/02/2022

Em carta ao editor publicada no Journal of Medical Virology, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) relataram que quase todas as mutações encontradas na variante ômicron do SARS-CoV-2, exceto uma, já haviam sido identificadas anteriormente em outras cepas. Segundo os cientistas, isso explica por que as vacinas têm sido eficazes contra a nova variante – que, apesar de ser mais transmissível, causou menos casos graves e mortes.

De acordo com o estudo, coordenado por Ricardo Durães-Carvalho, pesquisador da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, o SARS-CoV-2 “tem apresentado substituições biologicamente relevantes de aminoácidos na proteína Spike, como resultado de uma evolução convergente e direcional, o que significa que vários locais específicos compartilham as mesmas mutações”.

Com exceção da substituição do gene S371L, todas as mutações da ômicron observadas no motivo receptor-obrigatório (RBM) e no domínio receptor-obrigatório (RBD) da proteína Spike já haviam sido descritas na literatura.

Uma pesquisa anterior liderada pelo cientista e publicada na plataforma de preprints medRxiv em outubro de 2021, antes da ômicron ser descoberta, também identificou mutações idênticas em diferentes cepas do SARS-CoV-2. Foram analisados mais de 200 mil genomas do vírus e de outros coronavírus humanos.

 

Impacto da vacinação

Considerando as múltiplas mutações das variantes do SARS-CoV-2, e supondo que variantes ainda não identificadas possam estar circulando no mundo, os cientistas apontam que seria esperado um alto número de infecções graves de diferentes cepas do vírus. No entanto, a imunização previne esse cenário.

“Regiões com alta cobertura vacinal e com aplicação de doses de reforço apresentam menos infecções graves, hospitalizações e mortes relacionadas a diferentes cepas. É altamente provável que os imunizantes disponíveis sejam eficazes contra a ômicron, que apresenta as mesmas mutações, assim como contra outras que possam surgir, o que aumenta a urgência dos programas de vacinação”, afirmam os pesquisadores na carta.

Estudos recentes mostraram que a CoronaVac apresenta alta capacidade de neutralização contra a variante ômicron. (Saiba mais)

 

Recombinação

Para compreender a evolução da variante ômicron, os cientistas analisaram 146 sequências completas do genoma do vírus obtidas de Hong Kong, Botsuana, África do Sul, Canadá, Austrália, Itália, Bélgica, Israel, Áustria, Inglaterra e Alemanha, disponibilizadas no banco de dados do Global Initiative on Sharing Avian Influenza Data-EpiCoV. Também foram analisadas sequências das variantes alpha (1.719), beta (5.870), gama (5) e delta (10.133).

Os resultados mostraram que, além da evolução convergente e mutações compartilhadas observadas anteriormente, houve recombinação quando as variantes beta, delta e ômicron foram alinhadas, indicando que a cocirculação de variantes pode aumentar a ocorrência desses eventos (troca de material genético entre as cepas). Isso acontece quando dois vírus infectam a mesma célula e pode levar ao surgimento de novas variantes.