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Cientista de milhares: há 35 anos Vital Brazil era homenageado com estampa em cédula de Cruzeiro

Nota apresentava imagens relacionadas ao universo do ofidismo, como padrões que lembram pele de serpente; exposição sobre a trajetória do cientista do Instituto Butantan também ocupou museu do Banco Central


Publicado em: 29/04/2026

Reportagem: Natasha Pinelli
Fotos: Arquivo pessoal Rosa Esteves e Marília Ruberti/Comunicação Butantan
Montagem das artes: Flávia Kitasako/Comunicação Butantan

Em maio de 1991, quando a moeda corrente no Brasil era o Cruzeiro e a cesta básica custava pouco mais de Cr$ 20.000, o pix e as carteiras digitais ainda eram realidades distantes. Naquela época, para comprar o kit de produtos essenciais – que hoje custa cerca de R$ 1.200 – os brasileiros precisavam sacar da carteira duas cédulas de Cr$ 10.000 que estampavam a face do médico sanitarista mineiro e patrono do Instituto Butantan, Vital Brazil (1865-1950).

Conhecida popularmente como “nota da cobra”, ela entrou em circulação em 26 de abril daquele ano – dois dias antes da data que marca o aniversário de Vital –, em reconhecimento aos estudos do cientista sobre animais peçonhentos e à descoberta da especificidade do soro antiofídico, além de celebrar a trajetória do Instituto Butantan, que tinha acabado de completar 90 anos de existência.

 

Composição da nota de Cruzeiro com a imagem de Vital Brazil ao lado de frasco do soro antibotrópico

Vital Brazil estampou a cédula de Cr$ 10 mil, lançada em abril de 1991 (Foto: Marília Ruberti/Comunicação Butantan)

 

“Recebemos uma carta do Banco Central solicitando que enviássemos uma foto do meu bisavô para o desenvolvimento da cédula. Depois de consultar o acervo da família, escolhemos uma que foi tirada em 26 de maio de 1919, em que ele aparece com uma postura madura e profissional”, conta a artista visual e museóloga, Rosa Esteves. Bisneta de Vital Brazil, ela encabeçou o processo junto ao órgão federal. “A imagem também trazia uma dedicatória ao meu avô, Augusto Esteves, que foi um dos primeiros desenhistas científicos do Instituto Butantan”, completa.

 

Retrato de Vital Brazil, primeiro diretor do Instituto Butantan

A imagem escolhida para estampar a cédula de Cruzeiro trazia uma dedicatória para o amigo e genro de Vital Brazil, Augusto Esteves (Foto: Arquivo pessoal Rosa Esteves)


Os detalhes da nota

Chamada de anverso, a face principal da cédula estampava o retrato de Vital Brazil levemente deslocado à direita. À esquerda, uma gravura representava o processo de extração de veneno de uma serpente, essencial para a fabricação dos soros antiofídicos, que desde 1901 são produzidos pelo Instituto Butantan para o tratamento de quadros de envenenamento por picada de animais peçonhentos.

 

Montagem com detalhes do anverso da cédula de Cr$ 10 mil com a imagem de Vital Brazil

Detalhes do anverso da cédula de Cr$ 10 mil com a imagem de Vital Brazil (Fotos: Marília Ruberti)

 

No canto direito da nota, era possível observar o desenho da cabeça de uma serpente urutu-cruzeiro. Uma imagem idêntica aparecia exatamente do lado oposto da nota, marcando a coincidência perfeita entre as duas faces e funcionando como um elemento de segurança. Fundos inspirados nas escamas das jararacas e das cascavéis completavam o anverso e garantiam a autenticidade da cédula. 

A face posterior, conhecida como reverso, trazia um serpentário em seu canto superior esquerdo. Ao centro, a imagem de uma muçurana devorando uma jararaca representava a alegoria da luta do bem contra o mal e a dualidade do animal que, ao mesmo tempo que pode ser visto como um causador de acidentes, traz em si a própria cura – a cena, inclusive, influenciou o primeiro logo do Instituto Butantan, quando ainda se chamava Instituto Serumtherapico. Já o fundo do reverso foi inspirado nos movimentos das serpentes e seus diferentes tipos de epiderme.

 

Detalhe da cabeça de urutu-cruzeiro e do fundo com escamas de jararaca

Detalhe da cabeça de urutu-cruzeiro e do fundo com escamas de jararaca e cascavel (Fotos: Marília Ruberti)

 

Medindo cerca de seis centímetros de altura e 14 de comprimento, a cédula de Cr$ 10.000 tinha o cinza e o laranja como cores predominantes, e permaneceu em circulação no país até setembro de 1994. Segundo reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo em 18 de abril de 1991, 187 milhões de unidades da nota foram impressas para o seu lançamento, somando um montante de Cr$ 1,874 trilhão.

 

Montagem com detalhes da face posterior da "nota da cobra"

Montagem com detalhes da face posterior da "nota da cobra" (Fotos: Marília Ruberti)

 

Em um gesto de agradecimento do Banco Central, a família de Vital Brazil recebeu uma nota modelo com a numeração 0000000000, sem valor de circulação, além de uma carta assinada pelo então chefe de Subdepartamento do órgão, Antônio Carlos Mêda. 

Também foi elaborado um folder explicativo a fim de apresentar os detalhes da nova nota. As informações reunidas na publicação destacavam Vital Brazil como “um dos maiores cientistas da América Latina e benfeitor da humanidade”, além de citar o Instituto Butantan como um marco da ciência experimental “cujas pesquisas revestiam-se de espírito de vanguarda”. 

 

Cartaz da exposição "Vital Brazil Cientista Nota 10" e carta de agradecimento do Banco Central

Imagem do cartaz da exposição que acompanhou o lançamento da cédula comemorativa e carta de enviada pelo Banco Central (Imagens: Arquivo pessoal Rosa Esteves)

 

Cientista nota 10

O lançamento da cédula comemorativa contou com uma exposição temporária que aconteceu entre 6 de maio e 30 de julho de 1991 no Museu de Valores, localizado na sede do Banco Central, em Brasília (DF).

Batizada de Vital Brazil Cientista Nota 10, a mostra teve como destaque a fotobiografia do médico sanitarista, organizada por Rosa Esteves e pertencente ao acervo da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), além de uma reconstituição socioeconômica da época na qual o cientista viveu. Palestras, vídeos e outros elementos gráficos também exploraram a questão do ofidismo, inclusive com exemplares de espécimes de serpentes vivas e preservadas.