Reportagem: Camila Neumam
Fotos: Bruna Custódio e Marília Ruberti
Na última sexta-feira (19), o Instituto Butantan abriu as portas do histórico Edifício Vital Brazil, que abriga a Biblioteca Científica e o Espaço de Leitura Infantojuvenil, e do Museu Biológico para um grupo especial de visitantes: cerca de 13 indígenas das etnias Guajajara, Terena, Xavante, Nafukuá, Baré, Paliku e Tuxá atendidos pela Casa de Apoio à Saúde Indígena de São Paulo (CASAI/SP).
A iniciativa, liderada pela pesquisadora científica e coordenadora de projetos de Divulgação Científica da Biblioteca, Maísa Splendore Della Casa, buscou promover uma troca entre o conhecimento científico e os saberes ancestrais dos povos originários.
A CASAI/SP é um estabelecimento vinculado ao Subsistema de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas do Sistema Único de Saúde (SASI-SUS), que recebe pacientes indígenas de todo o Brasil para tratamentos de saúde de média e alta complexidade indisponíveis em seus locais de origem.

Instituto Butantan recebe visitantes da Casa de Apoio à Saúde Indígena de São Paulo (CASAI/SP)
Para Maísa, o encontro foi uma forma de democratizar o espaço institucional: "A ideia é justamente democratizar a cultura indígena para todos os visitantes do Instituto, fazendo com que os indígenas se sintam em um território ao qual pertencem", disse.
A programação teve início na Biblioteca do Instituto Butantan, um lugar que Maísa descreve como "uma biblioteca científica no meio de uma floresta urbana". A escolha do local foi estratégica e simbólica. "Em um mundo de muitas telas, queremos promover o encontro com livros, um encontro sensorial de folhear páginas", explicou a pesquisadora científica. Ela traçou um paralelo entre a preservação das características originais do prédio histórico e a preservação das culturas dos povos originários.

Um dos momentos de maior fascínio durante a vivência ocorreu quando os visitantes tiveram contato com livros cujas capas são confeccionadas em pele natural de serpente. Ao manusear o acervo, a psicóloga do CASAI/SP Jaqueline Gonçalves Pessoa, do povo Baré (Amazonas), identificou imediatamente o padrão de uma das cobras.
"Essa aqui é uma urutu-cruzeiro, uma das mais poderosas", exclamou, referindo-se ao respeito que seus parentes no território amazônico têm pelo animal por considerá-lo extremamente venenoso.
A visita à Biblioteca Científica despertou memórias profundas em Jaqueline, que relembrou o início de sua trajetória profissional como técnica de enfermagem no Amazonas, onde trabalhou com médicos pesquisadores que solicitavam a coleta de espécimes para estudo. "Para mim, estar aqui no Butantan hoje é uma honra. Eu ouvia falar dessas pesquisas quando estava longe, dentro do território indígena, e hoje estou presente neste local", celebrou.
A experiência ilustra o que Jaqueline define como a junção do conhecimento empírico e popular com o conhecimento científico.

Jaqueline Gonçalves Pessoa diz ser uma honra poder visitar Instituto Butantan
“Atividades fora da rotina da CASAI somam significativamente ao processo de cuidado e tratamento dos pacientes, humanizando o período de internação”, afirmou.
Após a imersão histórica, o grupo seguiu para o Espaço de Leitura Infantojuvenil, no mesmo edifício, onde visitou uma exposição sobre literatura indígena, com destaque para a obra do escritor paraense Daniel Munduruku, e participou de atividades lúdicas criadas por Maísa e sua equipe. Utilizando cadernetas e adesivos que simulavam as texturas das peles de jararacas, corais e cascavéis, os visitantes puderam registrar suas próprias observações sobre a fauna brasileira.
Os participantes também folhearam os livros "Serpentes – Arte & Ciência" (2012), escrito pelo pesquisador científico do Instituto Butantan Henrique Moisés Canter (1938-2021), e “Jararaca sim, com muito orgulho!” (2015), do pesquisador científico do Instituto Butantan Otávio Marques.

A importância do trabalho do Instituto Butantan na produção de soros antiofídicos ganhou um rosto e uma história com o depoimento de Kleber Tagukui Aigi Nafukua, da etnia Nafukua. Agente de saneamento na aldeia Paranatum, em Querência (MT), Kleber sobreviveu a uma picada de jararaca há cinco anos.
Ele descreveu à reportagem do Portal do Butantan uma jornada dramática do envenenamento à cura: picado em uma manhã enquanto coletava material para construção, ele aguardou socorro até a tarde, quando foi encontrado pelo sogro.
Devido à logística complexa, Kleber só recebeu o soro antiofídico à noite, após viajar horas de barco até a cidade. "O médico falou que eu tive muita sorte, porque eu poderia ter perdido a perna", contou.
Kleber destacou que sua recuperação foi um esforço conjunto entre a medicina hospitalar, onde recebeu o soro antibotrópico e ficou internado por duas semanas, e a medicina tradicional indígena. Ele conta que seu sogro aplicou medicamentos da floresta e realizou o procedimento de "arranhar" (fazer finos cortes no local da picada), o que, segundo ele, foi fundamental para que voltasse a andar sem sequelas.
No entanto, especialistas em acidentes ofídicos do Hospital Vital Brazil, localizado no Instituto Butantan, informam que usar torniquetes, fazer perfurações ou tentar sugar o veneno após a picada são totalmente contraindicados após o acidente ofídico. Isso porque podem inflamar ainda mais a lesão e aumentar o risco de amputações. Em caso de acidente com animal peçonhento, deve-se procurar a unidade de saúde mais próxima para receber o antiveneno adequado.
Hoje, Kleber atua na orientação da comunidade sobre a limpeza dos quintais e o cuidado com a água para evitar doenças e sobre prevenção de acidentes com animais peçonhentos.
A visita também lançou luz sobre a importância de manter projetos educacionais para indígenas. O pedagogo da CASAI/SP Laerte Rupré, do povo Xavante, explicou como a educação se torna uma aliada no processo de cura, pois muitos pacientes pediátricos ficam em São Paulo por períodos longos, para tratamentos complexos.

O pedagogo da CASAI/SP Laerte Rupré, do povo Xavante, atua como uma ponte entre o tratamento em São Paulo e as escolas nas aldeias de origem
"Meu papel é garantir que essas crianças não percam a aprendizagem e continuem seus estudos", destacou Laerte. Ele trabalha a caligrafia e a alfabetização em português, “já que muitas crianças chegam falando apenas suas línguas maternas”, contou.
Além disso, Laerte atua como uma ponte entre o tratamento em São Paulo e as escolas nas aldeias de origem, solicitando atividades para que o vínculo escolar não seja rompido.
A vivência culminou no Museu Biológico, onde o grupo pôde ver de perto as espécies que conhecem em seus biomas e algumas de outras regiões. Acompanhados pelo líder educacional Lua Bissoli Silva, os visitantes interagiram com a jiboia Afonso e aprenderam sobre o uso do veneno na produção de soros.

Reverton Marques Borges, de 17 anos, diz conviver com sucuris e não ter medo delas
Espécimes como a víbora dos lábios brancos, a Rita Lee, e a sucuri de 6 metros e 97 kg chamou a atenção dos visitantes. “Já vi uma sucuri dessa quando eu estava pescando no rio e não tive medo”, contou o destemido estudante de origem terena Reverton Marques Borges, de 17 anos, que fotografava o animal com seu celular.
Atento aos detalhes do museu, o jovem fez questão de apresentar à reportagem o perfil do Instagram da Aldeia Tereguá, em Avaí (SP), onde mora. Seu pai Revelino Correia Borges, de 47 anos, trabalhador rural na aldeia, contou que o aparecimento das sucuris impediu os moradores de tomarem banho naquele rio, como forma de segurança.

O estudante de origem guajajara Marcos Silva Soares, de 9 anos, observa a jiboia Afonso no Museu Biológico
Para a fisioterapeuta da CASAI/SP, Mariane Araújo de Souza, a experiência no Instituto Butantan foi "enriquecedora". "Momentos como esse promovem educação em saúde, integração, lazer e fortalecem o vínculo entre pacientes e equipe, tornando o cuidado mais humanizado", avaliou.
Maísa Splendore espera que esta iniciativa seja uma inspiração para outras instituições. "Nossa ideia é que a gente divulgue essa atividade para que outros equipamentos de cultura ou ciência possam reproduzi-la e dar cada vez mais luz aos povos originários", concluiu.

Maísa Splendore Della Casa durante atividade da vivência com visitantes da CASAI/SP



