A CoronaVac, vacina do Butantan e da Sinovac, foi posta à prova com o estudo clínico de fase 3 mais desafiador: feito com profissionais de saúde que tratavam pacientes de Covid-19 – isto é, altamente expostos ao vírus – e em meio à segunda onda de casos no Brasil. Nenhuma outra vacina contra o SARS-CoV-2 passou por testes tão rigorosos. Mesmo com todos esses obstáculos, na fase 3 o imunizante teve eficácia global de 62,3% e eficácia contra casos moderados e graves de 83,7% a 100%. Pesquisas posteriores, nacionais e internacionais, chegaram a mostrar uma proteção global de mais de 80% e uma efetividade de mundo real acima de 90%.
No estudo da CoronaVac, aconteceu o que havia sido previsto: que a vacina teria uma menor eficácia nos casos mais leves e alta eficácia nos casos moderados e graves – aqueles que prejudicam severamente os centros de saúde e a assistência aos pacientes com outras doenças. As condições rígidas em que a CoronaVac foi testada permitiram mostrar que a vacina é capaz de controlar a pandemia – ou seja, o imunizante é eficaz ao diminuir a gravidade da doença clínica, reduzindo o seu impacto no sistema de saúde. “Nós estamos controlando a pandemia por causa das vacinas, entre elas a CoronaVac. Ela foi a primeira vacina a ser aplicada em massa nos grupos de maior risco e devemos continuar aplicando porque é necessário”, afirma o imunologista Gustavo Cabral, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), que estuda novos imunizantes contra o SARS-CoV-2.
Quanto maiores as dificuldades impostas em um estudo, maior a sua força de evidência. A hipótese levantada pelos pesquisadores foi que, se a CoronaVac resistisse ao teste mais rigoroso, ela certamente teria um efeito ainda melhor no público geral, que não é tão exposto quanto os trabalhadores da linha de frente. E isso também se provou verdade: diversos estudos clínicos conduzidos em outros países com uma população mais ampla mostraram que a CoronaVac é eficaz e induz resposta imune elevada. Na Turquia, por exemplo, uma pesquisa de fase 3 com 10 mil pessoas demonstrou uma eficácia de 83,5%, com resposta imune em 89,7% dos participantes. Outro estudo de fase 3 feito na Indonésia apontou 65,3% de eficácia global, com produção de anticorpos em 87% dos vacinados.
Além disso, a definição de caso considerada no estudo da CoronaVac foi a mais abrangente possível, diferente dos estudos realizados para outros imunizantes. A pesquisa incluiu como caso de Covid-19 aqueles que tiveram um ou mais sintomas durante pelo menos dois dias, como: febre ou calafrios, tosse, falta de ar, dor muscular, dor de cabeça, perda de olfato ou paladar, dor de garganta, congestão nasal, náusea e diarreia. Isso possibilitou detectar até os casos mais leves, que normalmente passariam despercebidos.
Segundo Gustavo, todo esse contexto deve ser levado em consideração, e não apenas a porcentagem de eficácia global. “Muitas pessoas distorcem os dados e acham que a CoronaVac vai deixar 50% da população desprotegida. Isso é um grande erro. Esse resultado significa, na verdade, que a vacina protege completamente 50% [contra casos leves, moderados e graves] e protege as outras 50% contra estado moderado e grave”. Vale lembrar que a eficácia global de 50,7% da CoronaVac é para o intervalo de 14 dias entre as duas doses; no Brasil, o intervalo praticado majoritariamente foi de 21 a 28 dias – o que eleva a eficácia a 62,3%, de acordo com o ensaio clínico. Gustavo também lembra que a CoronaVac é feita com uma tecnologia amplamente conhecida, a de vírus inativado. “Além disso, essa vacina está vinculada a um instituto de pesquisa brasileiro. Nós temos a vacina e temos a capacidade de produção. Precisamos respeitar a ciência e valorizar o que é nosso”, reforça.
CoronaVac é eficaz no mundo real, não só nos ensaios clínicos controlados
A efetividade da CoronaVac, ou seja, a eficácia observada no mundo real para prevenir casos, hospitalizações e mortes, também foi comprovada por estudos de diferentes países. No Brasil, o Projeto S, estudo de efetividade realizado pelo Butantan no município paulista de Serrana, concluiu que o imunizante protegeu 80% contra casos sintomáticos de Covid-19, 86% contra internações e 95% contra óbitos.
No Chile, uma ampla pesquisa com 10 milhões de pessoas mostrou que a proteção da CoronaVac foi de 65,9% contra infecções por Covid-19, 87,5% contra hospitalizações, 90,3% contra internações em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e 86,3% contra mortes.
Outro estudo conduzido na Indonésia demonstrou uma efetividade de 66,7% contra infecções, 71% contra hospitalizações e 87,4% contra mortes. No caso de pessoas acima de 50 anos, a prevenção contra óbitos foi ainda maior, chegando a 90,6%.