Depois da Covid-19, será que estamos preparados para novas pandemias?


Publicado em: 01/10/2021

Nos últimos cem anos, o mundo enfrentou diversas pandemias de contágio respiratório – como a gripe espanhola, em 1918, a gripe asiática, em 1957, e a SARS, em 2003. Ainda assim, o SARS-CoV-2, que surgiu em 2019 na China, mostrou como somos vulneráveis a uma doença global. E de acordo com a diretora técnica do Laboratório de Virologia do Butantan, Viviane Botosso, dificilmente estaríamos preparados para novas pandemias.

“Se você comparar os relatos que tínhamos e os relatos que temos hoje, muita coisa continua igual. A gente tinha aqueles que prometiam curas milagrosas, remédios infalíveis, as autoridades que não sabiam mais o que fazer, a revolta com o uso de máscaras”, explica a diretora técnica. 

O grande receio de outras pandemias é justamente o aparecimento de um vírus novo, que o sistema imunológico das pessoas não reconheça, como foi o caso do SARS-CoV-2. “No começo, achávamos que era uma pneumonia respiratória simplesmente. Com o passar do tempo, fomos aprendendo mais sobre ele”, conta Viviane. A Covid-19, além dos problemas respiratórios, pode deixar sequelas neurológicas e físicas, entre outras consequências. 

Mesmo sem conseguir saber quando uma nova pandemia pode surgir, é possível ficar de olho em alguns vírus, como o Influenza (da gripe) e evitar algo pior. A primeira pandemia que tivemos no século 21, por exemplo, foi a da gripe suína, ou H1N1. O vírus se espalhou pelo mundo e a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou pandemia ainda em 2009, ano que tivemos o primeiro caso. “A H1N1 era um vírus que não tinha uma patogenicidade [quando o microrganismo provoca alterações fisiológicas no hospedeiro] tão elevada, então teve mais impacto em grupos de risco”, relembra a diretora técnica.

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O risco do surgimento de novas pandemias existe justamente pela situação global que vivemos. Com invasão de áreas rurais para ampliação de cidades, os animais silvestres passam a ter uma proximidade maior com os seres humanos e, consequentemente, aumentam as probabilidades de transmitirem algum tipo de vírus. O tráfico de animais silvestres e a caça excessiva também se tornam um risco. “A pessoa que manipula a carne do animal abatido corre perigo, pois a carne é uma fonte de vírus. Assim como quem compra e vende animais exóticos, já que os vírus podem estar presentes nas fezes desses bichos. Tudo se torna uma fonte de infecção do vírus para essas pessoas”, relata Viviane.

O desmatamento é outra questão preocupante, pois desequilibra o ecossistema e faz com quem mais insetos acabem invadindo as áreas urbanas – muitos deles são propagadores de vírus. 

Um relatório publicado em agosto e produzido por uma força-tarefa científica liderada pelo Instituto de Saúde Global da Universidade de Harvard (HGHI) e o Centro para o Clima, Saúde e Meio Ambiente Global da Escola de Saúde Pública TH Chan, também de Harvard, composta por pesquisadores da Africa Union e da Organização Pan-Americana de Saúde, além de professores da Índia, Estados Unidos e Brasil, corrobora essa hipótese. Segundo o documento, existem milhares de vírus desconhecidos que são potenciais ameaças. As recomendações dos especialistas para combater uma nova disseminação viral são investir na conservação florestal, mudar algumas práticas culturais, restringir o consumo de animais silvestres e a expansão das terras agrícolas, além de dar mais atenção aos sistemas de saúde, às pesquisas sobre as viroses e à vacinação. O levantamento mostra que são gastos menos de US$ 4 bilhões por ano em atividades de conservação da natureza, e só a pandemia da Covid-19 resultou em um prejuízo de US$ 4 trilhões ao Produto Interno Bruto global. 

A força-tarefa tenta prever onde pode surgir uma nova pandemia, e vê como críticas partes do leste da África, do sul da Ásia e da Ásia Oriental.  

Viviane acredita que a melhor forma de evitar novos vírus é a vigilância. Segundo a pesquisadora, é preciso monitorar não só os animais, mas também as viroses já existentes. O sarampo é um exemplo disso – a doença voltou a se tornar uma ameaça no Brasil, onde já estava controlada. “É preciso estudar o vírus e saber como ele circula hoje, se a vacina que temos é eficaz contra esse novo vírus, pois eles sofrem mutações. Então o monitoramento constante é essencial para o combate às novas e antigas pandemias.”

Ainda existem muitas pandemias em circulação no mundo. O próprio HIV (vírus da imunodeficiência humana, causador da aids) está espalhado em todo o planeta. Ebola, Marburg e Crimeia-Congo são vírus letais de febre hemorrágica já conhecidos e também monitorados pela comunidade científica, pois existe a possibilidade de uma disseminação para outras regiões – um caso isolado da febre hemorrágica da Crimeia-Congo, por exemplo, foi identificado no Brasil em 2020, depois de 20 anos sem registro no país.