Reportagem: Aline Tavares
Fotos: José Felipe Batista
Um estudo publicado na edição de janeiro da The Lancet Regional Health - Americas mostrou que a Butantan-DV, vacina da dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan e aprovada em novembro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pode ajudar a reduzir a carga viral (quantidade de vírus) em pessoas infectadas pelo patógeno, além de manter eficácia robusta contra os diferentes genótipos do vírus circulantes no Brasil. Em geral, baixas cargas virais estão associadas a quadros menos graves.
Os pesquisadores analisaram amostras de 365 voluntários que tiveram dengue sintomática durante o ensaio clínico de fase 3, realizado entre 2016 e 2021 em 14 estados do Brasil, e compararam dados do grupo de vacinados e do de não vacinados. Apesar de algumas pessoas terem sido infectadas após a vacinação, a carga viral nos vacinados foi consideravelmente menor do que em participantes não imunizados, demonstrando a eficácia da vacina em induzir resposta imune e diminuir a replicação do vírus nas células.
“O estudo principal da fase 3 já havia apontado uma incidência menor de dengue grave na população imunizada. Agora, essas análises reforçam a capacidade da vacina de atenuar a infecção”, afirma o infectologista e gestor médico de Desenvolvimento Clínico do Butantan, Érique Miranda, um dos autores do artigo.
A vacina da dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan foi aprovada pela Anvisa após análise dos dados de cinco anos de acompanhamento dos 16 mil voluntários participantes do ensaio clínico. No público de 12 a 59 anos, faixa etária indicada pela agência reguladora, o imunizante mostrou 74,7% de eficácia geral e 91,6% de eficácia contra dengue grave e com sinais de alarme.

Outro achado importante da pesquisa publicada recentemente foi que o imunizante se mostrou seguro do ponto de vista evolutivo, ou seja, não induziu o surgimento de variantes mais agressivas. Para chegar a essa conclusão, os cientistas sequenciaram o material genético dos vírus encontrados nos participantes infectados e constataram que não houve diferenças nas taxas de mutação entre vacinados e não vacinados.
As mutações genéticas são processos naturais que contribuem para a evolução adaptativa do vírus, aumentando sua capacidade de sobreviver e se disseminar. Quando uma nova vacina é introduzida, ela pode alterar o contexto epidemiológico de tal forma a contribuir para o surgimento de variantes mais agressivas ou transmissíveis do vírus, induzindo o aparecimento de mutações que “escapem” da imunidade vacinal.
“DENV-1 e DENV-2 foram os sorotipos predominantes durante o período de ensaio clínico, mas dentro disso há uma população heterogênea de vírus circulando, com variações genéticas. Às vezes, um imunizante pode se tornar parcialmente ineficaz porque os vírus da natureza se diferenciaram da estrutura original contida na vacina. Os dados mostraram, no entanto, que a Butantan-DV não gerou pressão seletiva e não influenciou mutações no vírus”, explica Érique.
Uma das grandes questões era se a vacina protegeria contra diferentes genótipos de um mesmo sorotipo. Segundo o infectologista, o estudo indicou que a Butantan-DV manteve uma eficácia robusta contra as diversas linhagens circulantes no Brasil, como o genótipo V do DENV-1 e o genótipo Cosmopolita do DENV-2, introduzido no final de 2021.
“Isso é um dado importante, uma vez que o genótipo Cosmopolita é conhecido por sua rápida disseminação e gravidade, especialmente em crianças pequenas”, destaca Érique Miranda.
Para o gestor médico, a pesquisa também reforça a necessidade de vigilância genômica contínua para monitorar qualquer mudança na eficácia da vacina frente a futuras mutações do vírus. No Butantan, o Centro para Vigilância Viral e Avaliação Sorológica (CeVIVAS) trabalha na vigilância genômica dos vírus da dengue circulantes no estado de São Paulo, no Brasil e nos países vizinhos, além de monitorar o vírus influenza e o SARS-CoV-2.

A Butantan-DV é a primeira vacina contra a dengue que pode ser aplicada em apenas uma dose, o que facilita a logística da campanha e pode favorecer a cobertura vacinal no país.
No final de dezembro, o Instituto deu início à primeira entrega de 1,3 milhão de doses da vacina ao Ministério da Saúde, destinadas ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). A campanha começará com os profissionais da Atenção Primária, que atuam nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e em visitas domiciliares, e que estão mais expostos à doença.
Com a ampliação da capacidade produtiva, o Ministério deverá estender a vacinação ao público geral gradualmente, começando pelos adultos de 59 anos.



