Encontro de gerações: descendentes de Vital Brazil seguem o caminho da pesquisa científica no Butantan

Há 80 anos, Maria Brazil trabalhou com a vacina da tuberculose; Osvaldo e Morena estudam vacinas e tratamentos


Publicado em: 28/04/2022

Propriedades terapêuticas de uma proteína do veneno da cascavel, desenvolvimento de vacinas de via oral e produção da vacina da tuberculose: estes são alguns temas de pesquisa de Morena Brazil Martins Sant'Anna, 34 anos, seu tio Osvaldo Augusto Brazil Esteves Sant'Anna, 72 anos, e sua tia-avó Maria Brazil Esteves, 100 anos, descendentes de diferentes gerações do médico sanitarista Vital Brazil que seguiram os seus passos na ciência e atuam ou atuaram no Instituto Butantan – cada um escrevendo a sua própria história.

Morena conta que as pessoas de sua família costumam percorrer dois caminhos: ser cientista ou ser artista. “São dois lados muito diferentes, mas também muito similares, em que você precisa ‘sair um pouco da caixa’”, diz ela. Pianista, harpista, desenhista e artista plástico são algumas das profissões que se misturam e complementam o legado científico da família Brazil. Para Osvaldo, a ciência, assim como a arte, é essencialmente social – algo que se reflete nas características do Butantan. “Eu diria que o Butantan é um instituto único no mundo, pois engloba a sua produção científica com ações educativas e culturais.”

Primeiro bisneto de Vital, Osvaldo ganhou quando nasceu um quadro de seu bisavô com um importante recado, que mais tarde seria concretizado: “com os votos que lhe siga as pegadas”. “Esse quadro me acompanhou a vida inteira. Desde a adolescência, eu queria ser cientista. Com o tempo, descobri que seguir as pegadas do Vital não era seguir exatamente o que ele tinha feito, mas sim saber como eu poderia me desenvolver como cientista. Acho que era essa a mensagem que ele queria me passar.”

Neste aniversário de 157 anos de Vital Brazil, conheça mais sobre alguns dos familiares que dão continuidade ao seu legado.

 

Um século bem vivido

Neta mais velha de Vital Brazil, Maria Brazil Esteves acaba de completar 100 anos e lembra com clareza – e com saudade – de seus tempos no Butantan. Seu pai era Augusto Esteves, desenhista que foi contratado por Vital no início dos anos 1900 para ilustrar serpentes, e acabou conhecendo sua mãe, Alvarina Brazil, uma das filhas do médico, com quem se casou. Por incentivo do pai, Maria fez um curso de técnico de laboratório e ingressou no Butantan em 1944, aos 23 anos, onde trabalhou na produção da vacina da tuberculose com a médica Jandyra do Amaral – uma das primeiras mulheres brasileiras a obter o título de doutora em medicina.

Comprometida a estudar e se desenvolver na área de microbiologia e bacteriologia, Maria também fez faculdade de medicina, mas seguiu no lugar que realmente gostava: na bancada dos laboratórios. “Eu trabalhei com pesquisa a minha vida inteira. Me formei em medicina na Escola Paulista de Medicina, perdi muitos colegas e estou aqui. Sou a mais velha da minha turma.” Maria Brazil também trabalhou com Maria Siqueira, a primeira imunologista brasileira, reconhecida por seus trabalhos na imunogenética. “Ela foi muito minha amiga. Nós fomos amigas durante 47 anos, até ela falecer.”

Ao visitar a Praça Vital Brazil, Maria se senta ao lado da estátua de Vital – o “vovô”, como ela o chama, e relembra as tantas histórias da família. “Quando eles moravam todos aqui no Butantan, minha tia mais velha foi para Paris estudar piano. Na despedida, vovô chamou para tirar uma foto da família um fotógrafo muito conhecido, que era amigo de meu pai e o apresentou à família. Foi assim que meu pai e vovô se conheceram”, conta. Olhando para a estátua, ela quase não reconhece Vital: “está muito moço, eu conheci o vovô de cabelo branco”. O Pavilhão Lemos Monteiro ela lembra como a casa de seu avô, com uma escadaria rodeada de flores. “Antigamente era cor de rosa. Que saudade, viu? Foi uma época muito boa da minha vida trabalhar aqui”.

 

Olhar atento para o mundo

Osvaldo Augusto Brazil Esteves Sant’Anna tem 72 anos e publicou o seu primeiro artigo científico aos 23. “Eu sempre assinei como Osvaldo Sant’Anna e minha tia me perguntava por que eu não usava o sobrenome Brazil nas publicações. Eu respondia: porque cada um tem que ter a sua história”, afirma. Ele sempre quis trabalhar em laboratório e, assim que entrou na faculdade, começou um estágio em imunologia no Instituto Biológico de São Paulo.

Sua história no Butantan começou em 1971, com uma especialização em imunologia pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) que foi sediada no instituto. Depois fez mestrado e doutorado em microbiologia e imunologia pela Escola Paulista de Medicina, onde foi orientado por Maria Siqueira. No Butantan, foi diretor científico do Centro de Toxinologia Aplicada, diretor do Laboratório de Bacteriologia e hoje atua no Laboratório de Imunoquímica.

“Com o passar dos anos, minha relação com o instituto foi se estreitando e eu sempre tentei imaginar como o Vital pensaria em relação à ciência. E uma das coisas que eu logo percebi, e que aprendi lendo os trabalhos dele, é que o cientista não descobre nada: ele presta atenção. Se você prestar atenção, a natureza te ensina várias coisas.”

Uma das grandes contribuições de Osvaldo para a ciência foi o desenvolvimento da sílica nanoestruturada como um adjuvante vacinal, que permite a administração de vacinas por via oral. O antígeno fica protegido dentro da sílica e consegue chegar ao intestino, onde será absorvido pelo organismo. Feita em parceria com o Instituto de Física e o Instituto de Química da Universidade de São Paulo, a tecnologia foi patenteada e possibilitou a produção de uma nova vacina oral contra a hepatite B, atualmente em fase de testes.

“A vacina via oral tem uma importância econômica, já que dispensa o uso de seringas e agulhas. Não é preciso um treinamento técnico para aplicar a vacina, então também é vantajosa em termos operacionais. Além disso, a técnica tem uma função social importante, permitindo vacinar mais pessoas por ser mais barata”, explica o pesquisador.

Além da paixão pelos laboratórios, Osvaldo herdou outro interesse de seu bisavô: a leitura. Para ele, a vida é feita de aulas diárias, e a literatura tem um papel fundamental no aprendizado. “Para escrever um artigo, você precisa ser objetivo. E como eu consigo fazer isso? Lendo muito. Eu gosto muito de poesia, filosofia, história, música... Interesses que Vital também compartilhava. Acredito que o desenvolvimento intelectual é o mote para o seu desenvolvimento na ciência – isso é algo que eu sempre tento passar para os meus alunos.”

 

Busca por tratamentos inovadores

Com 34 anos, Morena Brazil Martins Sant’Anna é formada em fisioterapia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Durante a graduação, ela fez quatro anos de iniciação científica na área de farmacologia, o que despertou o seu interesse pela pesquisa e a fez seguir para o mestrado. “Eu acabei gostando muito de trabalhar com isso e entender como e por que determinados tratamentos funcionavam e como eu poderia aplicar na fisioterapia”, conta.

Depois, Morena decidiu voltar para São Paulo e ingressou no doutorado e pós-doutorado em toxinologia no Instituto Butantan, onde estuda os efeitos da crotoxina, uma proteína do veneno da cascavel, contra a dor crônica e a esclerose múltipla. “Foi muito interessante poder pesquisar isso, porque foi um jeito diferente de trabalhar com o que o próprio Vital Brazil trabalhava, com o veneno, mas para fins terapêuticos”, diz.

Hoje ela atua como tecnologista no Laboratório de Dor e Sinalização, coordenado pela pesquisadora Gisele Picolo, e as pesquisas de Osvaldo com a sílica acabaram contribuindo muito para os seus estudos com a crotoxina. Como se tratava de uma proteína tóxica, era necessário reduzir a sua toxicidade para poder testar o seu efeito em modelos animais. A solução foi conjugar a crotoxina com a sílica nanoestruturada: assim, a crotoxina era liberada no organismo mais lentamente, tinha a sua ação analgésica prolongada e sua toxicidade reduzida. Foi possível ainda aplicar uma dose maior da molécula, sem efeitos adversos.

A crotoxina com sílica também foi testada em modelos animais de esclerose múltipla. “Quando aplicado no início dos sintomas, o tratamento impediu o desenvolvimento da doença em 40% dos camundongos. Foi um resultado muito positivo e inesperado. Mesmo os animais que ficaram doentes apresentaram menor intensidade nos sintomas, com menos dor e menos perda de mobilidade”, explica.

Para verificar os genes envolvidos na modulação da doença, a equipe comparou o sequenciamento genômico dos dois grupos de animais. Os dados estão sendo analisados e a expectativa é que seja possível identificar novos marcadores mais específicos para a esclerose múltipla, o que pode contribuir para futuros tratamentos. Uma das limitações da crotoxina é que, por ser uma molécula muito grande e complexa, não é possível sintetizá-la em laboratório – ou seja, ela só pode ser obtida diretamente da extração do veneno da cobra. Os pesquisadores também investigam uma solução para esse problema.

Assim como Osvaldo, Morena deixa claro que está construindo o seu próprio caminho na ciência, mas com a satisfação de poder seguir o legado da família. “Eu tenho muito orgulho de estar aqui e fazer parte dessa família de cientistas. Vital Brazil foi extremamente importante para a saúde pública. Mas nós não queremos nunca crescer por conta de um nome; cada um de nós foi formando a sua própria história”, destaca.