Reportagem: Camila Neumam
Fotos: Andrey Ricoy
Na ensolarada tarde de 7 de maio de 2026, cinco adolescentes, com idades entre 15 e 18 anos, deixaram o centro da Fundação CASA em Praia Grande, no litoral paulista, rumo a uma jornada de descobertas no Instituto Butantan, na capital.
No Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv) e no Museu da Vacina, os jovens viveram uma experiência imersiva, onde o medo de serpentes deu lugar ao respeito pelos animais e a desconfiança sobre vacinas se transformou em orgulho de aprender as etapas de desenvolvimento de um imunizante vestidos com jaleco e crachá de pesquisador.
A parceria entre Instituto Butantan e a Fundação CASA, vinculada à Secretaria da Justiça e Cidadania, nasceu em 2024, por meio de um projeto apresentado pela equipe do Museu da Vacina, que propôs uma agenda de atividades educativas feitas exclusivamente para os internos, com foco em ampliar os públicos que têm acesso ao museu.
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Adolescentes da Fundação CASA participaram de experiência imersiva no LEEv
A Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (CASA) é uma entidade que aplica medidas socioeducativas de privação de liberdade (internação) e semiliberdade para jovens de 12 a 21 anos incompletos, em conformidade com as diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE).
“Apresentei um portfólio com algumas atividades de divulgação científica para a Gerência de Arte e Cultura [GAC] da Fundação CASA, que ficou muito grata e as aceitou prontamente”, conta a analista administrativa do Centro de Desenvolvimento Cultural do Instituto Butantan Raíssa Bombini, idealizadora e coordenadora do projeto.
Após algumas reuniões de alinhamento, equipes do GAC visitaram o Instituto para conhecer a estrutura do museu e oferecer um treinamento para os educadores. Juntas, as equipes ajustaram os conteúdos para o público adolescente, com foco em infecções sexualmente transmissíveis como o HPV e hepatite B, além de fake News sobre vacinas.

A educadora Karina José vibrou com os acertos do adolescente em quiz do Museu da Vacina
"A ideia de trazer os adolescentes da Fundação CASA é mostrar para todo mundo que, por ser um local público, não há ninguém que não possa vir ao Museu da Vacina. Todos são bem-vindos", afirma a coordenadora do Museu da Vacina, Maria Augusta Barradas.
A parceria se manteve como um projeto-piloto ao longo de 2024, sendo implementado definitivamente em 2025, mesmo ano que o LEEv entrou no projeto. No futuro, outros museus do Parque da Ciência Butantan poderão fazer parte dessa iniciativa.
A visitação ao LEEv pelo projeto segue o mesmo padrão da que é oferecida para os visitantes que fazem o agendamento prévio.
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Adolescente doma o próprio medo e segura coral-falsa durante visita ao LEEv
“O objetivo do LEEv é furar a bolha e permitir que o laboratório seja acessível a todos, inclusive aos que podem não ter fácil acesso à educação ambiental”, conta a educadora do LEEv Aline Freiria dos Reis.
A Fundação CASA tem 93 centros socioeducativos no estado de São Paulo, distribuídos em 41 municípios - 29 na capital e região metropolitana; 18 no litoral, ABC e Sorocaba; 21 em Campinas e no Vale do Paraíba; e 25 no interior.
Atualmente, 4.802 jovens estão em atendimento, sendo 97% de meninos e 3% de meninas.
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Adolescentes receberam crachá de pesquisador durante atividade no Museu da Vacina
"Parcerias como a do Instituto Butantan são fundamentais para dar sentido concreto ao processo socioeducativo. Quando um adolescente sai do centro e é recebido em um museu como pesquisador em formação, ele não está apenas fazendo uma visita: está sendo convidado a se enxergar em outro lugar. Isso resgata dignidade, amplia horizontes e ajuda a despertar sonhos que muitas vezes estavam adormecidos. Não podemos mudar o passado que trouxe esses jovens até aqui, mas podemos transformar vidas e construir novas trajetórias para o futuro”, afirma o presidente interino da Fundação CASA, Oswaldo Caetano Junior.
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A jornada teve início nas instalações de mil metros quadrados do Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv) sob a condução do educador Rafael Mendes Teixeira, que introduziu os meninos no universo dos répteis de forma lúdica e com uma intensa e divertida troca de ideias. Logo no primeiro terrário, que reproduz o ecossistema da Ilha da Queimada Grande, no litoral paulista, os garotos foram desafiados a localizar a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) camuflada na vegetação.
As dúvidas surgiram rapidamente, revelando a curiosidade aguçada dos visitantes. Ao observarem a serpente, um dos meninos questionou: “Elas comem pessoas?”
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O educador Rafael Mendes Teixeira introduziu os meninos no universo dos répteis e tirou dúvidas deles
Rafael prontamente desmistificou o medo: “Não, as serpentes geralmente preferem roedores. Porém, como nessa ilha não existem roedores, as jararacas-ilhoas se adaptaram para se alimentar de animais que ficam nas árvores. Vocês têm ideia do que seja?”
“Passarinho", alguns jovens arriscaram, o que o educador confirmou: “Exatamente! Elas comem aves, mas apenas espécies que visitam a ilha em diferentes épocas do ano”.
A cada terrário, mais a curiosidade dos jovens era estimulada e um deles se destacou por encontrar rapidamente todas as serpentes escondidas. A cada achado, o menino de 18 anos ouvia frases como “nasceu para isso” e “temos um novo biólogo aqui”, que visivelmente lhe enchia de orgulho. De forma perspicaz, ele disse que o laboratório parecia um “Big Brother das Cobras”.
Outras dúvidas curiosas marcaram a visita ao LEEv. Diante da sala de anatomia, onde um esqueleto de uma cascavel e vidros com animais e órgãos conservados em álcool estavam expostos, um jovem apontou para uma estrutura achando ser um dente. Rafael esclareceu: “Essa estrutura espinhenta é o órgão reprodutor masculino de uma cobra, chamado hemipênis”, que rendeu risadas de canto de boca dos meninos.
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O zoom do celular ajudou o adolescente a encontrar uma serpente escondida em terráreo do LEEv
No recinto do lagarto conhecido como dragão-barbudo (Pogona vitticeps), o mais novo perguntou:
“Aqui tem o lagarto que cospe fogo?”. Rafael brincou: “Esse só tem no Pokemón, é o Charizard”.
Ao verem a muda (pele trocada) da cobra cipó enrolada em um galho, um garoto exclamou:
“Parece isopor, um plástico bolha”; enquanto um outro rapaz questionou: “Pode pegar no bicho quando ele está trocando de pele?”. Rafael explicou a necessidade de reclusão do animal nesse estágio.
A conexão entre a biologia e a saúde pública foi estabelecida quando o educador explicou a origem do Captopril, medicamento para pressão alta desenvolvido a partir do veneno da jararaca brasileira.
“Conseguiram fazer um remédio com o veneno dessa cobra!”, destacou um dos garotos impressionado com a informação ao observar uma jararaca.
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No recinto das sucuris, os meninos ficaram impressionados ao verem as serpentes repousarem nas árvores
O tour no LEEv terminou no "Recinto das Sucuris", onde os meninos ficaram boquiabertos ao observarem grandes sucuris-verdes (Eunectes murinus) rastejando na água e equilibradas em galhos.
“Eu consegui ver uma sucuri escondida em cima da árvore”, comemorou o "novo biólogo" do grupo.
O viveiro abriga três sucuris, um macho e duas fêmeas, que têm em média quatro metros de comprimento e quase 60 quilos cada. Uma delas tem 4,5 metros de comprimento, o mesmo tamanho da ilustração que pode ser vista do lado de fora do recinto.
Apesar de grande, exemplares da espécie podem crescer ainda mais, alcançando mais de seis metros e pesar mais de 200 quilos.
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O momento mais aguardado e tenso da visita ao LEEv foi a atividade “Mão na Cobra”. A estrela da vez foi Jade, uma coral-falsa, que deixou os garotos em silêncio enquanto decidiam se enfrentariam o medo de tocá-la ou carregá-la por alguns segundos.
O educador Rafael Mendes Teixeira preparou o terreno com uma instrução detalhada para os jovens.
“Sabemos que as cobras despertam diferentes sentimentos, do medo à curiosidade. Por isso, a ideia é sentirmos que as cobras não são os monstros que as algumas histórias contam. Fora do Butantan devemos sempre manter distância. Porém, aqui no LEEv podemos fazer esse contato de forma segura e responsável seguindo as orientações que vou dar”, disse.
Dos cinco jovens de Praia Grande, três encorajaram-se a segurar Jade; um a tocou gentilmente com os dedos indicador e médio da mão direita, enquanto outro preferiu apenas a observar de longe.
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Alguns dos meninos preferiram apenas tocar na serpente, não segurá-la
Entre os que toparam a experiência de ter a serpente nas mãos, a cara de pavor deu lugar a um sorriso confiante que ornou com o corpo ereto e o peito estufado como pose oficial para as fotos. Os que esperavam sua vez, tentavam a todo custo conter a euforia, sem gritar, para não assustar Jade.
A educadora do LEEv Débora de Sousa Rodrigues destaca que a atividade costuma ser um divisor de águas durante as visitas ao LEEv, no sentido de quebrar o estigma de que serpentes são más e picam humanos de propósito – o que não é verdade, já que os acidentes acontecem por reação da cobra ao que considera um possível ataque.
"Em uma visita anterior, um dos meninos da Fundação CASA estava com muito medo de tocar na serpente. Quando finalmente a segurou, ficou um bom tempo olhando para ela como se tivessem criado uma conexão. Aquilo me tocou muito", lembra.
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Após o contato com os animais, o grupo seguiu para o Museu da Vacina, onde os meninos foram recebidos pela educadora Karina Assunção de Barros José.
Inicialmente, os garotos ficaram impressionados com a interatividade dos vídeos com os cientistas Edward Jenner (1749-1823), desenvolvedor da vacina contra varíola, considerado o primeiro imunizante da história; Louis Pasteur (1822-1895), idealizador da vacina contra a raiva; e Robert Kock (1843-1910), quem isolou o agente causador da tuberculose, possibilitando o desenvolvimento da vacina anos depois.
Karina os levou a uma das salas do museu que simula um laboratório e lhes questionou: “Se vocês fossem fazer uma vacina, o que teriam que fazer primeiro?” A resposta de um dos jovens foi certeira: “estudar”.
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Os adolescentes se impressionaram com os vídeos dos cientistas Edward Jenner, Louis Pasteur e Robert Kock na entrada do Museu da Vacina
As discussões sobre ética e testes de vacinas geraram diálogos importantes para desmistificar informações falsas.
Karina esclareceu que só se pode testar um possível imunizante em humanos depois da comprovação de sua segurança.
“Atualmente testamos primeiramente em animais; em humanos somente após a confirmação de que é seguro”, explicou enquanto detalhava as fases de pesquisa clínica.
Ao observar o incômodo de um dos meninos sobre o teste em animais, Karina respondeu. “Muitas vacinas ainda precisam ser testadas em animais, mas estamos avançando para futuramente testarmos somente em células, como já ocorre com cosméticos”.
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A educadora Karina José instigou os adolescentes a fazerem as atividades interativas do Museu da Vacina
Nos jogos interativos sobre a ação das vacinas no organismo e nos quizzes sobre imunização, os garotos comemoraram cada resposta certa.
O ápice da diversão no museu foi a ida ao cinema 6D localizado em um anexo fora do casarão. Usando óculos 3D e aconchegados em poltronas chacoalhantes, que espirram água, os garotos embarcaram em uma viagem pelo corpo humano para combater o coronavírus.
Gritinhos e risadas preencheram a sala, culminando em um “sim” uníssono quando questionados se haviam gostado da experiência.
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A parte final da visita ocorreu em uma sala reservada, onde o foco foi uma conversa sobre a prevenção contra o HPV e outras doenças sexualmente transmissíveis. Por meio de jogos de perguntas e respostas, os jovens descobriram que mesmo quem já teve a infecção pelo papilomavírus humano deve se vacinar e que a vacina não protege contra todos os vírus HPV existentes, mas previne contra os mais prevalentes e que podem causar diferentes tipos de câncer.
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Os meninos participaram de um jogo que informa e diverte sobre o HPV
Na mesma sala, os jovens foram avisados que fariam uma atividade que simula o desenvolvimento de uma vacina. Para tanto, vestiram jalecos e crachás confeccionados exclusivamente para eles e passaram a ser chamados de doutores pela equipe do museu.
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Em atividade que simulava o desenvolvimento de uma vacina, os garotos vestiram jalecos e crachás de pesquisadores
A proposta era que cada um deles fizesse uma vacina seguindo um passo a passo, orientado por Karina, no qual foram utilizadas pipetas de plástico, água, vinagre, água oxigenada e permanganato de potássio para gerar mudanças na coloração da água, semelhante ao processo de purificação de um imunizante.
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Na simulação de uma vacina, os meninos utilizaram pipetas de plástico, água, vinagre, água oxigenada e permanganato de potássio para gerar mudanças na coloração da água
“Muitos chegam ‘travados’, com os ombros tensos, e uma certa formalidade no tratamento, já que chamam os educadores de ‘senhor’ e ‘senhora’. Mas ao final da visita terminam dando tchau, nos chamando pelos nossos nomes e apertando as mãos da equipe”, conta Karina José.
O fato de conseguir quebrar o gelo com os visitantes é comemorado pelas educadoras.
“Conseguimos derrubar a barreira, fazendo eles se sentirem bem-vindos e integrados e isso faz toda a diferença”, observa Raíssa Bombini.
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Um dos adolescentes conseguiu simular o processo de purificação de um imunizante
O objetivo da idealizadora e das educadoras é que o projeto traga um impacto que possa ir muito além das quatro horas de visita.
“Nós acreditamos que os jovens possam se tornar replicadores de informação, compartilhando com os colegas e com seus familiares o que aprenderam sobre os imunizantes”, afirma a coordenadora do projeto.
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Um dos adolescentes respondeu o quizz Fato ou Fake sobre imunização
Há, inclusive, planos das educadoras de ampliar essa parceria. A coordenadora do Museu da Vacina, Maria Augusta Barradas, e sua equipe pretendem levar oficinas de divulgação científica para dentro das unidades da Fundação CASA, e fazer uma exposição no próprio Butantan com as obras criadas pelos jovens.
"A gente não sabe como foi o passado deles e o que os levou a estar ali, mas acreditamos que isso não precisa ser o futuro deles. Com esse projeto, queremos mostrar que o Instituto Butantan pode se tornar um símbolo de acolhimento e de novos pontos de partida", conclui Raíssa Bombini.
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Ao observarem cartazes de antigas campanhas de imunização, os garotos tentaram advinhar qual era o mais antigo deles



