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Diretor do Instituto Butantan fala sobre soberania científica e segurança sanitária em evento sobre inovação em São Paulo

Painel abordou o impacto das mudanças climáticas no avanço das doenças infecciosas; instituição paulista trabalha no desenvolvimento de produtos para combater e prevenir as enfermidades


Publicado em: 18/05/2026

Reportagem: Natasha Pinelli
Fotos:  Governo Estado SP
 

O diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, participou na última quinta (14/5) do São Paulo Innovation Week, um evento sobre inovação, tecnologia e empreendedorismo, que reuniu representantes do poder público, empresas, investidores e acadêmicos para debater soluções inteligentes, sustentáveis e transformadoras para os setores da economia, educação e saúde, na Arena Pacaembu, na capital paulista.

O médico infectologista compôs o painel Ameaças invisíveis: o novo mapa das doenças infeciosas no mundo moderno, junto com a gerente de Tecnologias Avançadas para Equidade em Saúde do Einstein Hospital Israelita, Luana Araújo, e do assessor científico sênior de Bio-Manguinhos/FIOCRUZ, Akira Homma.

A participação do diretor do Instituto Butantan reforçou a importância dos investimentos e do fomento à inovação no setor da saúde. “O país, a comunidade, a sociedade que não continuar investindo em ciência e transformar isso em benefício para as pessoas está fadado a desaparecer. Não vai conseguir enfrentar ameaças como as que vimos na pandemia de Covid-19. A forma de fazer isso é termos a consciência de que o desenvolvimento, baseado em evidência científica, é estratégico para o país”, disse sob aplausos da plateia.

Por cerca de 40 minutos os especialistas discutiram sobre como as mudanças climáticas, a alta mobilidade humana e o desmatamento têm acelerado a proliferação de patógenos e a resistência bacteriana, redesenhando o mapa das doenças infecciosas e exigindo novas estratégias de vigilância, prevenção e resposta rápida, assim como a importância de o país avançar em autossuficiência científica e sanitária.
 


Natureza das pandemias, mudanças climáticas e estratégias de resposta

Akira Homma abriu a discussão com um panorama sobre o aumento de ameaças invisíveis e a necessidade de uma preparação global para as futuras doenças que ainda vão surgir. O especialista explicou que as pandemias começam de forma silenciosa e os sintomas demoram a aparecer, o que permite que a doença se espalhe com rapidez antes de ser identificada – um exemplo é o vírus influenza, causador da gripe.

O assessor científico de Bio-Manguinhos também reforçou o conceito de “Uma Só Saúde” – abordagem integrada que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental –, ao destacar que as mudanças climáticas são um dos principais desafios da humanidade no século 21.

“Essas alterações impactam a distribuição e densidade de vetores e hospedeiros, favorecendo novas interações e o aumento do risco de patógenos emergentes e reemergentes”, pontuou, reforçando também que o período de 2026-27 pode ser um dos mais quentes já registrados devido a previsão de um “Super El Niño” – o fenômeno causa o aquecimento anormal das águas do Pacífico, alterando o clima global. 

 

Informação como aliada da inovação

Na sequência, a médica infectologista Luana Araújo ressaltou a importância da abordagem de “Uma Só Saúde” e aprofundou sobre outro relevante problema de saúde global: a resistência microbiana. O uso inadequado dos antibióticos, descobertos há cerca de 130 anos, tem gerado bactérias resistentes, com as quais a comunidade médica tem tido cada vez mais dificuldades de lidar. Para ela, uma das alternativas para o possível desenvolvimento de novos fármacos poderá ser o uso de Inteligência Artificial para entender melhor ou buscar novas moléculas.

A gerente de Tecnologias Avançadas para Equidade em Saúde do Einstein Hospital Israelita destacou que, para além da inovação, a comunidade científica precisa se comunicar de maneira mais efetiva com a população. “Não adianta toda essa inovação, caminhar com o desenvolvimento técnico e científico, se não conseguimos ultrapassar essa última milha”, observou. Para Luana Araújo, a divulgação científica tem papel essencial para as pessoas entenderem, aceitarem e aderirem ao que está sendo feito.  

 

 

Fortalecimento do ambiente de pesquisa e inovação

Ao fechar o debate, Esper Kallás fez uma viagem didática no tempo. De acordo com o médico infectologista, apesar da civilização moderna ainda ser bastante recente em relação ao surgimento do próprio planeta Terra, estamos no melhor período da história para se estar vivo. Ele destacou o recente salto na expectativa de vida, que pulou da casa dos 30 para cerca de 70 anos, graças aos avanços proporcionados pela ciência – principalmente o surgimento das vacinas e dos antibióticos.

O diretor do Instituto Butantan defendeu o investimento em ciência como uma estratégia de soberania nacional, afirmando que ela deve ser uma política de estado perene, capaz de orientar os três poderes, independentemente de mudanças governamentais.

“A minha tarefa nessa passagem pela diretoria do Instituto Butantan é perpetuar o espírito já existente de curiosidade, de busca de respostas para o desenvolvimento de novos produtos, traçando rotas tecnológicas e se preparando para o que vai vir pela frente”, afirmou Esper Kallás.

O médico infectologista citou alguns produtos e plataformas que estão no horizonte de eventos do Instituto Butantan, como o desenvolvimento de uma vacina contra a gripe aviária – o imunizante já se encontra na fase 2 de ensaios clínicos. A instituição também tem trabalhado com outras tecnologias para o desenvolvimento de vacinas e soluções terapêuticas, entre elas imunizantes de base celular e RNA mensageiro. 

“Quando desenvolvemos uma tecnologia para enfrentar um certo vírus, nós também podemos aplicá-la para o combate de outros patógenos semelhantes. Ter diferentes plataformas para o desenvolvimento desses produtos é fundamental e estratégico para o país”, completou.

A abordagem dialoga com a proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS) batizada de “Doença X”, um conceito de planejamento que incentiva pesquisas e o desenvolvimento de vacinas e outras estratégias de enfrentamento, antes que um novo patógeno cause uma crise sanitária, garantindo preparo global. 

 

 

Contribuições para o avanço da saúde

Há mais de um século que o Instituto Butantan contribui para a melhoria da saúde pública brasileira e do mundo todo – uma história que começou com o combate à peste bubônica, em 1901, e com a doação da patente dos soros antiofídicos por Vital Brazil ao governo do estado de São Paulo, em 1917.

Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso e a fabricação de duas novas vacinas desenvolvidas pelo Butantan. Em 26 de novembro de 2025, a agência autorizou o uso da Butantan-DV na população brasileira de 12 a 59 anos. A vacina é a primeira em dose única do mundo para proteger contra os quatro sorotipos da dengue, resultado de mais de uma década de trabalhos intensos conduzidos por pesquisadores e colaboradores do Instituto Butantan.

Já no início de maio de 2026, o órgão federal autorizou a fabricação local da vacina contra a chikungunya, batizada de Butantan-CHIK. Dessa forma, a versão do imunizante – desenvolvido em parceria com a farmacêutica franco-austríaca Valneva – feita no complexo bioindustrial da instituição está liberada para uso no Brasil e poderá ser incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). O público-alvo inclui pessoas de 18 a 59 anos.

Em relação às doenças infecciosas, o Instituto Butantan possui duas Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs): uma vacina contra Covid-19 em plataforma de RNA mensageiro, em parceria com a Moderna; e outra contra o vírus sincicial respiratório (VSR), junto com a Pfizer. Também há parcerias estratégicas para o desenvolvimento de uma vacina de RNA mensageiro autorreplicante (srRNA) contra a raiva e de anticorpos monoclonais contra o vírus da Zika e o tratamento da febre amarela.