Reportagem: Aline Tavares
Fotografia: Comunicação Butantan
Nesta segunda (2/2), o município de Mirassol, na região noroeste do estado de São Paulo, será o primeiro do Brasil a proteger sua população com a vacina contra a chikungunya desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica franco-austríaca Valneva. Em 2025, a doença viral, que é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, atingiu 129 mil pessoas e causou pelo menos 120 mortes no Brasil, de acordo com o Painel de Arboviroses do Ministério da Saúde.
A iniciativa, que faz parte de um projeto piloto, vai envolver outros 9 municípios de Minas Gerais, Sergipe e Ceará: Sabará, Sete Lagoas, Santa Luzia e Congonhas (MG); Simão Dias, Lagarto e Barra dos Coqueiros (SE); Maranguape e Maracanaú (CE). A seleção dos municípios se deu a partir de um estudo epidemiológico, que utilizou um modelo matemático para predizer as regiões com maior risco de apresentar surtos de chikungunya entre 2025 e 2027.
A vacinação em regiões endêmicas (onde o vírus circula) é essencial para avaliar a efetividade de um imunizante – ou seja, o quanto ele é capaz de reduzir as infecções. Para isso, o Instituto Butantan irá monitorar os casos positivos e negativos de chikungunya nos municípios participantes da estratégia e comparar os dados entre vacinados e não vacinados. O Instituto também irá conduzir estudos pós-comercialização a fim de monitorar a segurança da vacina a longo prazo. Após a vacinação, as equipes dos postos de saúde estarão disponíveis para orientar as pessoas interessadas em participar dos ensaios clínicos.

A vacina do Butantan contra a chikungunya é a primeira do mundo a ser disponibilizada para prevenir a doença. Aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em abril de 2025, ela teve sua segurança e capacidade de gerar anticorpos comprovadas em estudos clínicos feitos nos Estados Unidos e publicados na revista científica The Lancet. Dos 4 mil voluntários adultos que participaram da pesquisa, 98,9% produziram anticorpos neutralizantes. Além do Brasil, o produto já foi aprovado para uso no Canadá, Reino Unido e Europa.
Por ser desenvolvido com tecnologia de vírus atenuado, o imunizante não é indicado para pessoas imunodeficientes ou imunossuprimidas, pessoas que tenham mais de uma condição médica crônica ou mal controlada (comorbidades) e mulheres grávidas ou que estejam amamentando. Entre as principais reações adversas que podem ocorrer após a aplicação da vacina estão dor de cabeça, enjoo, cansaço, dor muscular, dor nas articulações, febre e reações no local da injeção (sensibilidade, dor, vermelhidão, endurecimento, inchaço).

A chikungunya costuma causar febre de início súbito (acima de 38,5°C) e dores intensas nas articulações de pés e mãos, além de dor de cabeça, dor muscular e manchas vermelhas na pele. Em casos mais raros, o vírus pode atingir o sistema nervoso central e gerar problemas neurológicos. O principal impacto da doença é que a dor nas articulações pode se tornar crônica e durar de meses a anos. Sem um antiviral específico disponível, o tratamento é feito com antitérmicos e analgésicos, além de repouso e hidratação.
O maior impacto da chikungunya ocorre quando ela evolui para a fase crônica, que pode atingir até metade dos pacientes. Nesses casos, a dor nas articulações pode perdurar por meses ou anos, prejudicando a qualidade de vida e impedindo atividades laborais. Um estudo da Universidade George Washington, dos Estados Unidos, avaliou 500 pacientes e mostrou que uma em cada oito pessoas diagnosticadas com a arbovirose apresentou dor articular persistente por três anos após a infecção.
Em outra pesquisa, cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte compararam um grupo de pacientes com chikungunya crônica e um grupo de pessoas saudáveis, e observaram diferenças significativas na saúde física e mental. Os indivíduos afetados pela forma crônica da doença tiveram um risco 13 vezes maior de desenvolver depressão, além de 76 vezes mais chance de ter problemas de locomoção.




