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Deu match no mundo dos insetos! Cupins namoram à meia-luz e se escondem na madeira

Esses pequenos invertebrados adoram calor e umidade e usam da luminosidade para estimular o voo nupcial


Publicado em: 02/04/2026

Reportagem: Beatriz Milanez
Fotos: Renato Rodrigues

A mistura das altas temperaturas com as chuvas é a combinação perfeita para que um tipo muito específico de inseto saia da toca: eles chegam em bandos e se amontoam em qualquer ponto luminoso: postes, lâmpadas, abajures e até tela de celular. Se você pensou no bicho de luz – também conhecido como aleluia ou siriri –, acertou!  Biologicamente falando, eles são cupins alados. Sim, aqueles insetos que se alimentam da madeira dos móveis e deixam as asinhas espalhadas pelo chão. 

Deles, o planeta está cheio: são cerca de 3 mil espécies espalhadas pelo mundo, com 350 apenas no Brasil. E, como são bons foliões, consideram as estações bem iluminadas, quentes e chuvosas um verdadeiro carnaval: é durante a primavera e o verão que eles preferem sair em busca do par ideal para garantir a reprodução. A luz que tanto os atrai, juntamente com a temperatura e a umidade elevadas, são os fatores ambientais perfeitos para desencadear o voo nupcial, fundamental para a perpetuação da espécie. 

Essa voltinha em torno da luz é a revoada para o acasalamento – uma performance para atração. Durante o voo, os machos e fêmeas férteis se encontram com indivíduos de outras colônias para formarem pares de casais mais diversos. Depois, ao pousarem no chão, perdem as asas de maneira natural. Por isso, não tem erro: encontrou asinhas transparentes pelo chão? É sinal de que tem algum cupinzeiro por perto. 
 

Cupinzeiro em tronco de árvore

 

Já sem as asas, as fêmeas “levantam “o abdômen e liberam substâncias químicas, os chamados feromônios, para atrair os machos. Ao darem match com seus respectivos parceiros, é hora de buscar o lugar perfeito para viver o romance: a fêmea vai na frente e o macho segue atrás, no comportamento chamado “tandem”, como se fosse um “trenzinho”, até encontrarem o local ideal para fundar uma nova colônia, onde acontecerá a primeira cópula.

O melhor ambiente para os aleluias – ou siriris – são aqueles onde há algum vestígio de madeira, como móveis e estruturas, que servem de alimento e abrigo. Mais uma red flag: se encontrar pó da madeira amontoado em casa, é melhor ficar esperto! Pode ser um sinal de que os cupins estão escondidos em local próximo. E o pó, que parece ser a madeira esfarelada, na verdade, são as fezes dos atrevidos. (Spoiler: no filme Aquarius (2016), dirigido por Kleber Mendonça Filho, a protagonista é a única moradora de um prédio visado por uma construtora. Para forçar a personagem vivida por Sonia Braga a se mudar de seu apartamento cheio de lembranças e valor sentimental, funcionários da construtora plantam uma infestação de cupins no local, com o objetivo de demolir o prédio e construir um novo empreendimento.) 

A capacidade dos cupins colocarem estruturas abaixo vem do fato de que os danados são celulósicos, ou seja, se alimentam da celulose presente na madeira, no papel ou até mesmo em tecidos. Eles são divididos nos seguintes tipos: 

•    Cupins de madeira seca: vivem inteiramente dentro da madeira com baixo teor de umidade (como móveis e portas) e não precisam de contato com o solo.
•    Cupins subterrâneos (ou de solo): constroem seus ninhos no solo úmido, construindo túneis (galerias) para alcançar fontes de alimento, como madeira em contato com o solo ou em estruturas como edificações.
•    Cupins arborícolas (ou arbóreos): constroem ninhos externos e volumosos sobre troncos ou copas de árvores, mas também podem ser encontrados em telhados e estruturas altas.

 

Cupins em tronco de árvore

 

Para instaurar o caos nos móveis, esses insetos usam um aparelho bucal mastigador que os torna capazes de triturar, de maneira silenciosa, a parte interna da madeira em que estão alojados, deixando a peça completamente oca. Isso quer dizer que os cupins de madeira seca podem viver na sua casa por anos sem você perceber, até que o estrago esteja feito. 

De comportamento social, os cupins vivem em colônias, onde tudo é bem-organizado, com tarefas e responsabilidades bem distribuídas. Dentro dos cupinzeiros, eles se separam em castas, que são divididas entre cupins reprodutores (reis e rainhas), operários e soldados. Enquanto reis e rainhas estão focados na reprodução para aumentar a colônia, os operários têm a função de construir o ninho, de buscar o alimento e garantir que todos estejam bem alimentados. Já os soldados protegem e asseguram que o cupinzeiro esteja a salvo dos predadores. 

Para além de sua capacidade de destruir móveis e estruturas de madeira, esses insetos exercem papéis essenciais no equilíbrio dos ecossistemas. Aves, mamíferos, serpentes e sapos são alguns exemplos de espécies que se alimentam dos cupins. Além disso, eles são uma importante ferramenta para a nutrição e fertilização do solo em que vivem, uma vez que são responsáveis pela decomposição de matéria orgânica. 

 

Cupinzeiro visto em tronco de árvore


Cupins alados 

Onde habitam: madeira seca, solo ou sobre a vegetação (troncos de árvores). 
Características físicas: o tamanho pode variar de 3 a 25 milímetros de comprimento (sem as asas). Os operários são menores que os soldados, e os reprodutores são maiores que todos – sendo a rainha a maior de todas, já que seu abdômen se expande de forma extraordinária para comportar a produção de milhares de ovos por dia.
Ciclo de vida: ovo, larva, ninfa e adultos. É na fase da ninfa que são designados, com base nos hormônios determinantes de cada espécime, quem serão os operários e quem serão os soldados.
Tipo de alimentação: a celulose é a base alimentar comum a todos os cupins, seja vinda de madeira, papel ou tecidos.
Curiosidades: operários e soldados apresentam olhos vestigiais ou ausentes, orientando-se principalmente por feromônios e vibrações, possuindo expectativa de vida média entre 1 e 2 anos. Já os reprodutores podem viver por décadas, com a longevidade variando de acordo com a espécie e as condições ambientais.

Este texto teve a colaboração da bióloga e técnica do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan Natalia Batista Khatourian.