Metodologia pioneira do Projeto S possibilita vacinação segura sem uso de placebo nos testes clínicos


Publicado em: 09/12/2021

Antes do Projeto S, estudo de efetividade da vacina CoronaVac realizado na população do município de Serrana, interior de São Paulo, para saber se um imunizante era seguro e eficaz, o protocolo dos ensaios clínicos costumava envolver apenas voluntários divididos em um grupo que tomava a vacina ativa e outro que recebia uma dose de placebo (ou seja, uma substância sem efeito no organismo). Esses dados eram comparados para atestar se o primeiro grupo estaria mais protegido na comparação com o segundo, que permanecia desprotegido durante a pesquisa.

O método inovador escolhido para o ensaio clínico em Serrana foi a pesquisa escalonada por conglomerados. O procedimento dividiu o município em 25 áreas, formando quatro grupos, nomeados no Projeto S como “clusters” e identificados por diferentes cores: verde, amarelo, cinza e azul. Mas a distribuição não era geográfica: o cluster azul, por exemplo, envolvia moradores de todas as regiões de Serrana, e o mesmo acontecia com os demais grupos. Essa divisão foi possível porque alguns meses antes da imunização foi realizado um Censo da Saúde que mapeou a cidade inteira, inclusive com informações sobre a incidência de Covid-19 entre os moradores. A vacinação aconteceu de forma escalonada (daí o nome da técnica): primeiro o cluster verde, depois o amarelo, em seguida o cinza e, por último, o azul. A ordem das cores foi sorteada publicamente. 

Antes de ser colocado em prática, o Projeto S passou por ampla análise dos órgãos regulatórios. “Submetemos a uma comissão de ética, que avaliou e aprovou, fizemos relatórios mensais e semestrais para mostrar os resultados para eles e também para a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]”. Puderam participar da pesquisa e, portanto, se vacinar, os moradores da cidade maiores de 18 anos.

Na avaliação do diretor do Hospital Estadual de Serrana, Marcos Borges, a metodologia randomizada se mostrou bastante eficaz para a vacinação de uso emergencial durante a crise sanitária. “Do ponto de vista ético, no meio da pandemia, é um modelo muito apropriado. O fato de vacinar cada área num momento distinto, com intervalo de uma semana, permite determinar o que a gente chama de imunidade indireta”, explica. “Pelo percentual de pessoas imunizadas é possível ver o efeito indireto da vacinação, da proteção de quem não tomou”, completa Marcos, que é o investigador principal da pesquisa. 

A primeira fase em Serrana foi implementar a vacinação de primeira e segunda dose, com intervalo de 28 dias entre uma e outra. Toda a imunização ocorreu em oito semanas, nos meses de fevereiro a abril. Os resultados mostram que os casos sintomáticos caíram 80% e as mortes, 95%. A vacinação com duas doses protegeu não apenas os adultos, mas também crianças e adolescentes com menos de 18 anos não vacinados, criando uma barreira imunológica. O Projeto S tem previsão de acontecer ao longo de um ano e a população vem sendo analisada a cada três meses. O protocolo de avaliação realizado em quatro períodos tem o objetivo de evitar análises enviesadas. 

Marcos Borges ressalta que para a metodologia poder ser empregada foi essencial o entendimento e adesão de 95% da população à campanha de vacinação, já que o estudo é totalmente voluntário. “O pioneirismo da metodologia está em conseguir avaliar no mundo real como a vacina vai se comportar, num modelo muito pouco utilizado, justamente pela dificuldade técnica de aplicação”. 

O município de Serrana foi escolhido para hospedar o projeto por apresentar um alto nível de infectados com Covid-10 e por ter um hospital regional que comportasse os estudos. A pesquisa foi conduzida pelo Instituto Butantan e aprovada pelas autoridades éticas e sanitárias, em uma parceria com a Escola de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e com o apoio da Prefeitura de Serrana.

 

Diferentes métodos para avaliar segurança 

Para avaliar a efetividade de uma vacina, diversas metodologias podem ser empregadas. A mais comum é ter um grupo vacinado com o imunizante e outro sem o princípio ativo, e depois comparar as reações de ambos. Outra maneira, segundo Marcos, é fazer uma vacinação massiva ao longo de um final de semana, como ocorreu em Botucatu, no interior de São Paulo, com avaliação rápida do antes e depois da imunização.

Um terceiro modelo é a implementação escalonada realizada no Projeto S, dividindo a cidade por regiões vacinadas em períodos distintos. Uma vantagem é oferecer a intervenção para todos que quiserem participar, sem distinção.

“Existem alguns relatos do uso da metodologia de implementação escalonada na Gâmbia, nos anos 80, e estudou-se também a possibilidade de usar para combater o ebola, mas não ocorreu porque foi controlado antes”, diz ele. “A metodologia escalonada nunca havia sido empregada no mundo usando uma vacina para achar imunidade indireta e combater a pandemia”, resumeo pesquisador.

O diretor do Hospital Estadual de Serrana, Marcos Borges, estará presente na abertura do Symposium CoronaVac, promovido pelo Instituto Butantan e Sinovac. No evento internacional online, o médico apresentará a base da metodologia da pesquisa do Projeto S, valores de efetividade direta e indireta na população de Serrana e alguns dados de sorologia.

 

 

Entenda o que é o Projeto S

Acesse o site (projeto-s.butantan.gov.br)

Siga no Instagram (@projetoserrana)

Ouça o podcast no Spotify

Assista ao documentário no Youtube