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Formar cientistas envolve cultivar o talento e o caráter deles, diz pesquisadora do Instituto Butantan homenageada entre os maiores nomes da herpetologia

Com quase quatro décadas de dedicação à ciência, Anita Mitico Tanaka Azevedo reflete sobre seu trabalho e seu papel como uma "mãe profissional" para gerações de cientistas


Publicado em: 11/05/2026

Reportagem: Camila Neumam
Fotos: Bruna Custodio

Caminhar pelos corredores do Laboratório de Herpetologia do Instituto Butantan é para a pesquisadora científica Anita Mitico Tanaka Azevedo, de 61 anos, percorrer a própria história. São 38 anos desde o dia em que foi aprovada para o concurso público do Instituto, trajetória que se confunde com a evolução da herpetologia – a ciência que estuda os anfíbios e répteis - no Brasil.

Anita trilhou o caminho das escolas e das universidades públicas com a determinação de quem sabia, desde cedo, que o estudo seria sua ferramenta de transformação social. Formou-se em Biologia, fez mestrado em Biotecnologia e doutorado em Ciências (Fisiologia Geral), todos pela Universidade de São Paulo (USP), e pós-doutorado pela Universidade de Lille I, na França. 

No Instituto Butantan, seu talento investigativo a levou a atuar sobretudo com bioquímica, trabalhando com proteínas plasmáticas e variabilidade dos venenos de serpentes, além de ser orientadora plena de mestrado e de doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades de Biotecnologia, realizado em parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e com a USP. 

"Eu sempre tive muita curiosidade, sempre gostei muito de estudar e de ler e acabei indo para a pesquisa por causa disso", recorda ela, rememorando os tempos de juventude em Itaquera, na zona leste de São Paulo, quando se dedicava intensamente aos estudos. 

O desejo ilimitado por conhecimento fundamentou a carreira de Anita e a transformou em uma das principais estudiosas dos efeitos dos venenos de serpentes no mundo 

No panteão dos grandes nomes da herpetologia

Em fevereiro de 2026, Anita foi uma das homenageadas no 13º Congresso Latino-americano de Herpetologia, sediado em San José, na Costa Rica, juntamente com a colega pesquisadora do Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv) do Instituto Butantan Selma Almeida e outros herpetólogos notáveis, como o estadunidense Jonathan A. Campbell e o espanhol Juan Calvete, entre outros.  

Campbell é autor da obra de dois volumes The Venomous Reptiles of the Western Hemisphere, que detalha todas as espécies de cobras e lagartos venenosos das Américas, a composição de seus venenos e tratamentos para picadas, considerada a "bíblia" da herpetologia. 

Juan José Calvete é reconhecido mundialmente pela criação e desenvolvimento do campo científico da Venômica, ou seja, o estabelecimento das bases metodológicas para o estudo proteômico de venenos, transformando a forma como cientistas analisam as toxinas de serpentes.

Ele também desenvolveu o conceito de Antivenômica, uma plataforma analítica que permite testar a eficácia de soros antiofídicos contra venenos específicos antes mesmo de testes clínicos, o que é crucial para o tratamento de acidentes com serpentes. Calvete mantém extensa colaboração com o laboratório de Herpetologia do Butantan.

"Eu fiquei meio chocada [com a homenagem] na realidade", confessa com a humildade que lhe é característica. Para a pesquisadora, estar naquele panteão parecia um "exagero", mas o reconhecimento mundial provou o contrário.
O que mais a emocionou foi perceber que sua trajetória não era apenas uma sucessão de experimentos, mas um relato vivo da natureza.

"Eles afirmaram que eu estou conseguindo contar a história natural através da análise do veneno", afirma. 

No evento, sua contribuição para a ciência ganhou rosto e voz quando jovens pesquisadores de diversos países a abordaram. "Uma menina me falou: 'Eu leio os seus trabalhos, uso seus trabalhos para minha pesquisa’. Reconhecer que sua produção científica faz a diferença na vida de novos cientistas traz uma felicidade e um senso de dever cumprido”, reflete.

Apesar do reconhecimento internacional, Anita mantém o foco no retorno social de seu trabalho, que é formar novos cientistas e participar de projetos de educação ambiental, desmistificando o medo de serpentes e mostrando sua importância ecológica e medicinal. "Temos que ter consciência de que as serpentes são importantes porque o veneno delas pode trazer cura para as pessoas ", ressalta.

"Mãe profissional": o cultivo de talentos e de caráter

Se a pesquisa é o motor de Anita, os alunos são o seu combustível. Com mais de 20 pós-graduandos formados e dezenas de alunos de iniciação científica em sua bancada, ela encara a orientação como uma missão que extrapola o laboratório.

"Para mim, meus alunos são como família. Eu não formo só a parte profissional, mas a parte humana deles também", declara.

Apesar de se definir como "extremamente exigente”, seus alunos a veem como uma "mãe profissional", ou seja, ao mesmo tempo rigorosa e acolhedora, e, acima de tudo, profundamente comprometida com o sucesso deles. 

Anita emociona-se ao falar das conquistas dos estudantes, sobretudo daqueles que enfrentaram dificuldades pessoais e financeiras, mas que conseguiram expandir seus trabalhos até mesmo para o exterior. "O sucesso deles me deixa tão feliz! É uma realização saber que o nosso trabalho está fazendo diferença na vida deles. Essa é a nossa obrigação como ser humano: fazer a ciência ser possível para todos, não somente para alguns", diz com os olhos brilhando.

Para Anita, a pesquisa é um antídoto contra o imediatismo da nova geração, pois exige resiliência.

"A ciência tem seu próprio ritmo, e temos que trabalhar respeitando esse ritmo", aconselha. Ao olhar para trás, a pesquisadora faz um balanço objetivo de sua atuação.

"Eu me sinto muito privilegiada porque a vida toda eu ganhei para fazer o que gosto, que é estudar, ensinar e pesquisar", comenta. 

O legado de um mestre e a ciência da autonomia

A história de Anita no Instituto Butantan começou em 1988, em um programa de aprimoramento – algo semelhante a um estágio – com o professor e pesquisador científico Isaías Raw, para atuação no recém-criado Centro de Biotecnologia do Butantan, cujo foco era atrair novos talentos para a pesquisa e o desenvolvimento de novas vacinas. O convívio com o mestre mudou sua forma fazer ciência e de compartilhar conhecimento. 

A pesquisadora se lembra com carinho do primeiro contato que teve com Isaías na entrevista de emprego. “O professor me fez somente uma pergunta, eu respondi e ele me agradeceu. Achei que não tinha dado certo, mas depois descobri que ele era o tipo de pessoa que sabia muito bem o que queria e era objetivo. Eu tinha sido aprovada”, conta.

Sob a batuta de Isaías, Anita aprendeu o valor da autonomia na rotina da pesquisa. O mestre não "pegava na mão", ao contrário, entregava o desafio e esperava que o pesquisador buscasse as soluções. "Ele dava o projeto e você tinha que ir atrás, ser um pouco autodidata", conta ela, que hoje replica o mesmo modelo com seus próprios alunos, incentivando-os a caminharem sozinhos.

Da Biotecnologia ao coração da Herpetologia

A transição para o estudo dos venenos de serpentes foi, nas palavras de Anita, "meio casual".

Antes disso, ela focava seu mestrado no isolamento de uma proteína do plasma sanguíneo, conhecida como Fator VIII, cuja deficiência causa hemofilia A.

A proposta biotecnológica era ousada, pois previa contornar as reações imunológicas de pacientes com a doença genética que afeta a coagulação do sangue. 

Porém, no doutorado, o foco de sua pesquisa mudou para o sangue das serpentes, ao tentar compreender o porquê de a coagulação desses animais ser mais lenta que a dos mamíferos.

Anita isolou um inibidor de trombina no sangue da jararaca, batizado de BJI (Botropisinhibitor), descoberta que lhe abriu as portas do Laboratório de Herpetologia.

Em contato com exemplares de diferentes espécies, a curiosa pesquisadora quis encontrar respostas a outras tantas perguntas.

“Como o veneno muda com a idade, com o sexo, com a espécie e a localidade da serpente, já que, em cada espécie, o veneno vai mudando de acordo com o crescimento?", questionou, ao mesmo tempo em que explicou que serpentes jovens e adultas possuem "nuances de sintomatologia" diferentes, devido às dietas distintas. 

Princípio dos "Três Rs" e o Futuro In Vitro

Nos últimos cinco anos, o Laboratório de Herpetologia tem se dedicado ao princípio mundial dos "Três Rs" no uso de animais em pesquisa. O termo vem do inglês replacement (substituir), refinement (refinar) e reduction (reduzir).

Através da implementação de um laboratório de cultura celular, Anita busca substituir os tradicionais testes em camundongos por métodos in vitro.

O objetivo é audacioso e necessário: estabelecer uma correlação estatística entre a morte celular (citotoxicidade) e o efeito no organismo vivo. "Se conseguirmos mostrar que um teste se alinha com maior correlação ao uso de animais, podemos propor a substituição", afirma com entusiasmo. 

Essa linha de pesquisa conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e com parcerias internacionais com a Universidade de Bordeaux, na França, que utiliza plataformas de ômica para desvendar a composição molecular dos venenos.

A disciplina das pistas: o fôlego de uma maratonista

Fora dos laboratórios, Anita encontra na corrida o mesmo vigor e resiliência que dedica à bancada científica. Há aproximadamente 30 anos, as pistas de atletismo são seu segundo refúgio e foco de perseverança.

Eu sou apaixonada por corrida. Costumo competir no Sindusfarma pelo Butantan”, revela com o orgulho de quem carrega o nome da instituição no peito e medalhas no currículo, como as duas conquistas no Master 10 km, bronze em 2013 e prata em 2016.

Sua jornada nas pistas é extensa: dezenas de meia maratonas e quatro maratonas completas.

A disciplina para conciliar a prática esportiva com a vida de pesquisadora e mãe veio cedo. “Sempre adorei atividade física. Como, na época, minha filha Clara Tanaka, hoje com 32 anos, era pequena, consegui adaptar a corrida na minha rotina. Corria muito cedo, entre 5h30 e 6h30”, conta. 

Atualmente, Anita mantém a vitalidade que muitos jovens invejam, com uma nova motivação: mimar a neta Eva, de 6 anos. 

“Na época em que corria os 42 km das maratonas, eu seguia planilhas rigorosas e chegava a correr mais de 50 km por semana. Mas agora mantenho treinos semanais de cerca de 30 a 35 km”, completa.

A mentalidade de maratonista, que entende que a vitória é fruto de um esforço contínuo e silencioso, é o que ela transpõe para a ciência, onde os resultados muitas vezes levam anos para amadurecer.