Reportagem: Camila Neumam
Fotos: Renato Rodrigues, Serena Migliore e arquivo
No fim da tarde de 27 de novembro de 2025, a bióloga Serena Migliore, do Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan (LEEv), caminhava pelo Parque da Ciência quando seu olhar se deteve sobre uma pequena planta. Ali, repousava um besouro de brilho metálico, dourado e alaranjado, diferente de tudo que ela já havia visto.
“Quando eu estava saindo do laboratório, por volta de umas 17h30, vi um besouro com uma coloração diferente e maior do que os que eu costumava ver. Mandei uma foto dele para minha irmã, que é entomóloga [especialista em insetos], e o coletei bem rápido para não o perder de vista”, conta a bióloga, que estuda a reprodução de lagartos no LEEv sob orientação da pesquisadora científica Selma Almeida Santos.
A espécie foi encontrada sobre folhas de uma árvore nativa da Mata Atlântica, conhecida como chal-chal (Allophylus edulis), recolhidas por Serena e colocadas no mesmo pote onde ela depositara o besouro.

Letizia e Serena Migliore no Parque da Ciência Butantan onde foi encontrada a espécie de besouro-joia Agrilus butantan
Em casa, Serena entregou o recipiente com o besouro para ser analisado pela sua irmã gêmea, Letizia Migliore, pesquisadora vinculada ao Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo e ao Instituto Nacional de Coleoptera (INCol), da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). A planta serviu de alimento durante os dias em que o animal foi mantido vivo para observação.
“Os besouros do gênero Agrilus fazem parte do meu campo de estudo, mas eu nunca tinha visto nada igual ao espécime coletado. Mostrei a outro pesquisador e ele pensou o mesmo. Era algo totalmente novo e poderíamos descrevê-lo”, conta a entomóloga.
O inseto pertence à família Buprestidae, dos “besouros-joia”, chamados assim por suas cores vibrantes e metálicas. Em um artigo publicado no Biodiversity Journal em março de 2026, ele foi descrito como Agrilus butantan por Letizia Migliore e pelo entomólogo Gianfranco Curletti, do Museu de História Natural de Carmagnola, na Itália.
O batismo da nova espécie foi uma homenagem ao Instituto Butantan, onde o exemplar foi encontrado. Para as irmãs, o gesto simboliza não apenas a descoberta científica, mas também o reconhecimento da importância da organização como guardiã da biodiversidade em meio à metrópole.
"O Instituto é um oásis. Encontrar uma espécie nova aqui, em meio ao asfalto de São Paulo, mostra que ainda temos muito a descobrir e proteger. Dar o nome de 'Butantan' ao besouro foi um gesto natural de gratidão a esse lugar que é um símbolo da ciência brasileira", diz Serena Migliore.
O artigo descreve as características únicas da morfologia do besouro, como o padrão de pubescência (os "pelos" que formam desenhos no corpo) e a coloração ventral, que tornam o Agrilus butantan uma espécie inconfundível na fauna global.

O Agrilus butantan encontrado é um besouro-joia fêmea, de 12 milímetros de comprimento, da família Buprestidae
O exemplar encontrado é uma fêmea, com cerca de 12 milímetros de comprimento, que apresenta um corpo alongado com coloração preta brilhante na cabeça e no pronoto (parte anterior do tórax), enquanto as asas endurecidas (élitros) exibem tons de ocre que escurecem em direção à extremidade.
O besouro estava com uma pequena malformação na asa, o que pode ter dificultado seu voo e facilitado sua captura, já que essas espécies costumam habitar as copas das árvores.
"A descrição desta espécie contribui para o conhecimento da vasta agrilofauna brasileira. É uma honra para nós vincular o nome de uma instituição tão prestigiosa a uma descoberta que agora pertence ao patrimônio científico mundial. Isso reforça a importância das coleções biológicas e do trabalho de campo contínuo”, afirma Letizia Migliore.

Irmãs gêmeas, Letizia e Serena se dedicam ao trabalho científico, uma no campo da entomologia e outra na herpetologia
As gêmeas Serena e Letizia, de 34 anos, dividem não apenas laços familiares, mas também uma rotina de colaboração científica. Uma se dedica à reprodução de lagartos e à ecologia, a outra à entomologia, mas ambas se apoiam em campo.
“Eu sempre observo insetos para ajudar a minha irmã, e ela olha serpentes e lagartos para mim. É uma troca constante, quase natural”, diz Serena.
Não é a primeira vez que Serena encontra insetos no Parque para a irmã, mas a coleta recente chamou mais a atenção da entomóloga do que as outras.
“Quando recebi a foto, percebi imediatamente que era uma espécie inédita. Foi emocionante saber que esse achado vinha do Butantan, um lugar tão simbólico para a ciência brasileira”, completou Letizia.
Segundo os autores do estudo, o gênero Agrilus é extremamente vasto e a identificação de novas unidades taxonômicas, mesmo a partir de exemplares únicos, é fundamental – não só devido à sua morfologia inconfundível, mas também à necessidade de documentar a riqueza biológica dos biomas brasileiros antes que espécies desapareçam sem terem sido conhecidas pela ciência.
Por ser um inseto xilófago (que se alimenta de madeira em certas fases da vida), a presença do Agrilus butantan ajuda pesquisadores a entenderem melhor a saúde do ecossistema local e revela a força da biodiversidade urbana. Isto é, mesmo em áreas cercadas por concreto, pequenos refúgios naturais guardam segredos ainda não revelados.

O besouro-joia Agrilus butantan no momento em que foi encontrado e coletado por Serena no Parque da Ciência
“A biodiversidade urbana é muitas vezes subestimada. Mas ela existe, pulsa e precisa ser estudada. Cada espécie encontrada é uma prova de que a vida insiste em florescer, mesmo onde menos se espera”, ressalta Letizia.
Além da espécie paulistana, o estudo descreveu o Agrilus ciliaris, coletado no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso.
O nome "ciliaris" faz referência ao habitat onde foi encontrado: a mata ciliar (que margeia cursos d’água), um ambiente pouco comum para besouros deste gênero. Esta espécie é menor que a Agrilus butantan (8,3 mm) e apresenta uma coloração avermelhada metálica com manchas amarelas distintas nas asas.
Letizia Migliore reforça a necessidade dos trabalhos de descrição de novas espécies (taxonomia) para que a biodiversidade seja compreendida e protegida.
“Sem nome não há como estudar a biodiversidade. A taxonomia é o primeiro passo: dar identidade a cada ser vivo. Só assim conseguimos entender suas relações, seu papel ecológico e pensar em estratégias de conservação”, explica.
Para a entomóloga, embora muitas vezes este trabalho seja invisível ao público, ele é a base de toda a biologia. “Estudar novas espécies é como abrir uma porta para mundos desconhecidos. Cada descrição acrescenta uma peça ao grande mosaico da vida”, conclui.



