Com meio século de Butantan, pesquisador ajudou com descobertas históricas e se tornou fotógrafo por amor à biologia
Publicado em: 27/09/2021

Não só vacinas e cobras mobilizam a rotina dos pesquisadores do Butantan. Foi dos laboratórios do instituto que saíram dois artigos científicos que mudaram a forma como a ciência enxerga os anfíbios. Dois papers, publicados em 2006 e 2020 pela equipe liderada pelo pesquisador Carlos Jared, sobre as cobras-cegas ou cecílias, animais da classe Amphibia, deram um passo importante no estudo destes misteriosos animais com quase 400 milhões de anos de evolução. A contribuição do cientista, uma das maiores descobertas recentes sobre anfíbios, arremata uma trajetória guiada pela pesquisa científica, mas na qual há espaço para prêmio de fotografia, apuros com serpente e escorpião, e muitas outras histórias.

 

Não é exagero dizer que a história do Butantan e a de Jared se misturam. São décadas dedicadas à ciência, e dos 120 anos do instituto, em quase metade deles Jared esteve por perto. “Tive a sorte de ter toda a área do parque do Butantan como o quintal da minha casa”, lembra.

O pai do pesquisador foi pracinha – soldado que fez parte da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e lutou na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) com os Aliados, na campanha da Itália. Ao voltar da Europa, foi trabalhar no Ministério da Saúde, no antigo Serviço Nacional da Peste. “Meu pai foi para o Nordeste, no meio da caatinga. Eu nasci bem no sertão, a 90 quilômetros de Feira de Santana. Aí, por causa da experiência que ele tinha com peste bubônica, veio trabalhar no Butantan, na década de 1950, logo depois que eu nasci. Eu vim bebê para cá”, conta Jared.

Por conviver entre pesquisadores, Jared foi tomando gosto pela ciência. No ensino médio, já manuseava serpentes. Ele começou em 1972 no instituto como estagiário e, em 1974, foi efetivado como técnico de laboratório. Depois, passou a ser assistente de pesquisa científica, diretor do laboratório de biologia celular, até se tornar professor e pesquisador científico.

Histórias dentro do Butantan não faltam. Em 1978, Jared extraía veneno das glândulas de uma cascavel (Crotalus durissus) quando a serpente saltou e cravou os dentes em um de seus pés, atravessando o material da bota. Jared correu para o Hospital Vital Brazil, dentro do parque, a 100 metros de onde estava, e recebeu o soro anticrotálico. Ficou internado por 15 dias, sentindo o efeito do veneno, com a vista turva e as pálpebras caídas, até se recuperar completamente. E os acidentes com animais peçonhentos não pararam aí. “Já fui picado por escorpião também, na caatinga. Fui levantar uma pedra procurando um sapo e encontrei o escorpião. Era uma dor tão grande que a língua parece que tinha vida própria. Como estava a 150 quilômetros de Natal e 140 quilômetros de Mossoró, tive que aguentar sem remédio. Foi quase um dia todo de muita dor. Ainda bem que depois passou”, recorda.

 

Jared se formou em ciências biológicas em 1993 pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), onde fez doutorado em morfologia em 1999. Anos depois, em 2018, fez outro doutorado em história da ciência pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

E foi nessa época que ganhou um prêmio fora da área científica. Amante da fotografia, Jared gosta de imortalizar as imagens dos lugares por onde passa enquanto pesquisa. Ele aprendeu sozinho a mexer em câmeras profissionais e resolveu registrar a natureza. Com a foto “A estação chuvosa, a perereca verde de árvore e a manutenção da vida", o pesquisador recebeu menção honrosa na competição fotográfica da Royal Society 2017 – categoria Ecologia e Ciência Ambiental, da Inglaterra. (Confira abaixo a foto vencedora.)

 

Entre dois mundos

Mesmo com toda uma vida ligada à ciência, Jared prefere não ser chamado de cientista. “Eu tenho um certo receio da palavra cientista. Ela tem um viés obsoleto. Quando você fala em cientista, logo imagina aquela pessoa de jaleco metida à besta que não sai do laboratório”, brinca. “Eu sou cientista, na concepção, mas me considero um profissional que está trabalhando com conhecimento, só isso.”

Ele gosta mesmo é de conversar sobre filosofia, antropologia, religião, economia e até cinema. Na juventude, optou por fazer farmácia e filosofia, e diz que a grande frustração de sua vida é não ter atuado no campo filosófico. Foi daí que veio a ideia de fazer o doutorado em história da ciência – para juntar duas paixões. E para concluir o curso, trouxe novamente a ciência para o protagonismo. Estudou a medicina brasileira do século 19 e 20, na época da criação dos institutos Butantan e Oswaldo Cruz, e como era o país do ponto de vista político e da saúde pública.

Ser um especialista nas áreas de humanas e biológicas ajudou Jared a lidar com diferentes tipos de profissionais. “Dentro da biologia a gente vê que tem pessoas que trabalham mais para o lado de história natural, que têm uma linguagem mais filosófica, e a turma do experimental, que tem uma linguagem mais científica. Eu gosto de fazer a integração entre os dois tipos de pesquisadores, ser um elo entre eles”. Sua especialização é saber trabalhar com todo mundo. “Olha quanto progresso tivemos desde a idade média, de Galileu Galilei [considerado o pai do renascimento científico e ciência moderna] até hoje. E tudo isso aconteceu por causa de pessoas que sempre pensaram por outros ângulos. É bom enxergar o mundo de outra forma.”

Mesmo com tanto jeito com as pessoas, o grande amor de Jared é o mundo animal. Ele diz gostar mais dos anfíbios pela riqueza dos detalhes e dar uma atenção especial às serpentes, por virem de uma origem em comum, mas terem se adaptado de formas diferentes. E foi justamente o darwinismo que chamou cada vez mais a atenção do pesquisador. Jared cita os golfinhos e baleias, que são mamíferos, mas se adaptaram ao mar, perdendo a característica de pata, do focinho e ficando mais semelhante aos peixes. Assim como o morcego, que colonizou o ambiente aéreo e transformou as mãos em asas. Jared lembra que as galinhas têm escamas nas patas, como os répteis, mas que o sangue quente faz com que sejam consideradas aves. “Todos estão conectados de alguma forma, mas evoluíram de jeitos diferentes.”

 

Do darwinismo às cobras-cegas

A evolução dos animais aproximou Jared das cobras-cegas. Foi mais de uma década estudando esses curiosos anfíbios de mata atlântica, que muitas vezes são confundidos com répteis, pelo formato. Ele e os pesquisadores do Laboratório de Biologia Estrutural perceberam que os animais, geralmente de cor cinza chumbo, perdiam a pigmentação quando estavam com a ninhada. “Esses bichos são cegos, pois vivem embaixo da terra e não precisam enxergar. Pensei que a fêmea deveria secretar feromônio pra atrair os filhotes e eles irem atrás dela. Mas vimos que ela produz substâncias nutritivas na pele de todo o corpo, semelhante àquelas que compõem o leite dos mamíferos, usado pelos filhotes como alimento. Vimos, também, que os filhotes recém-nascidos já nascem com dentes. Daí foi um pulinho para percebermos que eles comem a pele da mãe”, explica o pesquisador. O grupo descobriu que a pele das cobras-cegas é rica em lipídios e proteína, por isso os filhotes praticam a chamada dermatofagia (ou skin feeding em inglês).

Esse tipo de alimentação já foi encontrado em uma espécie africana semelhante, o que indica que o comportamento é anterior à separação dos continentes, há mais de 100 milhões de anos. Essa é considerada uma das maiores descobertas feita sobre anfíbios nos últimos anos, e está descrita em artigo científico publicado em 2006 na revista científica Nature. A pesquisa mais recente, de 2020, foi publicada na iScience, e mostra que as cecílias têm glândulas de veneno, o que faz dela um bicho ainda mais diferenciado na natureza.

Estudar uma cobra-cega é bastante complicado. Por serem animais subterrâneos, eles são quase inacessíveis. A coleta das cecílias só é possível por meio de escavação manual, e leva de quatro a 20 horas de escavação para localizar um único espécime. Mesmo assim, os danos ao solo podem resultar na morte da cobra-cega. É preciso ter paciência.

 

O que significa fazer ciência

Para Jared, como a ciência é uma atividade social, quanto mais gente envolvida, melhor o processo. Afinal, cada pessoa terá uma visão diferente do todo. Prova disso é que foi com muita ajuda que o biólogo chegou até a divulgação destas pesquisas científicas – e ele ainda pretende escrever muito mais sobre o assunto. “A gente está colocando as cecílias aqui no laboratório do Butantan para acompanhar o nascimento e desenvolvimento dos filhotes. Os animais já copularam e devem botar os ovos no final de novembro, início de dezembro”, esclarece.

Como o pesquisador gosta de explicar, para fazer ciência, é preciso, além de muito amor, sempre estar atento à sua volta, seja brincando no parque do Butantan ou escavando na mata atlântica. “Primeiro você olha de cima e vê um ambiente que você gosta. Aí vai em uma área especifica e acha um riacho. Nesse riacho, você senta em uma pedra e olha o musgo, ali cava um buraco de um milímetro e acaba estudando a ciência dali. O grande problema é a falta de paciência. A pessoa quer mergulhar direto naquele buraco de um milímetro, mas não sabe nem como chegou lá. Ele perde a referência. E só com muita referência você vai conseguir contribuir para o mundo.”