Publicado em: 05/08/2021

Uma, duas ou três doses? Todo ano, a cada dez anos, uma vez na vida? Entenda por que cada vacina tem um esquema vacinal diferente

A vacina contra a influenza (gripe) deve ser tomada todos os anos. A da difteria e tétano precisa ser reforçada a cada dez anos. A vacina BCG (contra tuberculose) e a da rubéola, apenas uma vez na vida. Já contra hepatite B, a aplicação é em três doses - com intervalo de 30 dias entre a primeira e a segunda dose, e seis meses entre a segunda e a terceira. 

Essa variação acontece porque as diversas avaliações e testagens às quais as vacinas são submetidas indicam qual é o intervalo entre as doses (se houver mais de uma dose), a formulação indicada e a melhor época da vida para recebê-la a fim de gerar a melhor resposta imune.

Vacinas que só precisam de uma aplicação são extremamente potentes e estimulam o sistema imunológico a desencadear uma intensa resposta, como se tivesse sido realmente infectado. Outras podem até ser potentes, mas não conseguem manter a imunidade por um longo período; por isso, precisam de doses de reforço anuais para estimular novamente a produção de anticorpos e as células de memória. Além disso, algumas doenças são prevenidas apenas quando níveis elevados de anticorpos estão presentes, o que leva também à necessidade de doses de reforço para aumentar a quantidade de anticorpos circulantes no organismo. Outra variável é a mutação do vírus, que pode exigir que a vacina seja sempre atualizada com as cepas em circulação naquele ano - como é o caso da vacina da gripe.

A seleção de dose (inclusive as doses adicionais) é definida por meio de testes de laboratório com animais, nos quais é possível ter uma ideia da potência do material e da quantidade necessária para gerar uma resposta imunológica protetora. A partir daí, define-se quantas doses são necessárias para imunizar um ser humano. As conclusões dos testes de laboratório são colocadas à prova nas primeiras fases dos ensaios clínicos, em que a dosagem é avaliada em testes envolvendo dezenas a centenas de pessoas.

 

Completar o esquema vacinal com o número de doses indicadas e no tempo recomendado é extremamente importante. Só assim o corpo estará realmente protegido. Ao se restringir a uma única dose (no caso de vacinas que precisam de duas ou três doses, por exemplo), o sistema imunológico gerará uma proteção momentânea, mas que não vai durar por muito tempo ou não será tão robusta. As células irão parar de produzir anticorpos e a pessoa voltará a ficar suscetível àquela doença.

Respeitar o intervalo entre as doses também é imprescindível para garantir a imunização. “Se você tomar uma dose hoje e outra amanhã, o seu organismo não vai nem ter processado a primeira dose ainda”, explica o diretor do Laboratório Multipropósito do Instituto Butantan, Renato Mancini Astray. O intervalo serve para o corpo reconhecer o antígeno, promovendo a maturação do sistema imunológico, que é fundamental para o desenvolvimento das células de memória. Por outro lado, deixar passar mais tempo do que o indicado de intervalo pode fazer com que seja necessário reiniciar todo o processo de vacinação, porque a primeira dose já terá perdido sua eficácia. 

 

Faixa etária para a vacinação

Toda e qualquer vacina passa por diversas etapas antes de ser aplicada no grande público, e um dos fatores analisados é a faixa etária de quem vai receber o imunizante. Por isso, pessoas de todas as idades são avaliadas nos ensaios clínicos. Há um público, no entanto, que envolve mais cuidados: as crianças. Nelas, o sistema imunológico está em amadurecimento e alguns mecanismos de resposta ainda não estão devidamente desenvolvidos. Isso faz com que, em alguns casos, a imunização não consiga cumprir o objetivo de proteger contra a doença porque a resposta do organismo é incompleta ou insuficiente. Por outro lado, as vacinas dadas logo na infância auxiliam o sistema imune a combater doenças que exigem muito do sistema imunológico justamente quando ele está amadurecendo.

“Desde que se instalaram as primeiras vacinas, a gente vê uma queda muito grande no número de casos dessas doenças, que são altamente transmissíveis", afirma Renato, lembrando de enfermidades que mesmo que não tenham alto índice de mortalidade podem deixar sérias sequelas, como o sarampo.