“Estar no Butantan é uma forma de provar a várias comunidades no mundo que mulheres podem fazer ciência”, diz pesquisadora da Tunísia

Hajer Aounallah é doutoranda pelo Butantan e participa de pesquisas de impacto sobre moléculas anticoagulantes


Publicado em: 08/03/2022

São muitos os desafios enfrentados diariamente pelas mulheres no âmbito pessoal e profissional, e para quem faz ciência não é diferente. A bióloga tunisiana Hajer Aounallah, de 27 anos, está entre as 60% de estudantes mulheres da Escola Superior do Instituto Butantan (Esib) e as 30% cientistas mulheres do mundo. Hajer faz doutorado em cotutela na Pós-Graduação em Toxinologia do Butantan (PGTOX) a partir de um acordo acadêmico com a Universidade de Tunis El Manar – Instituto Pasteur na Tunísia, o que lhe permitirá receber o título de doutora em ambas as instituições. 

“Trabalhar com ciência é muito desafiador. Desde pequena, ciência para mim é uma paixão, não apenas uma carreira. Eu sempre fui fascinada pela natureza e por tudo o que não podemos ver com os próprios olhos”, diz a doutoranda. Ela acrescenta que estudar em um país diferente, aprendendo outro idioma, também não é uma tarefa nem um pouco fácil. “É um grande desafio porque o Brasil tem uma cultura muito diferente da minha, mas é uma experiência enriquecedora. O Butantan tem sido uma grande oportunidade para descobrir como é a ciência fora da Tunísia”.

 

A primeira viagem internacional sozinha de Hajer foi ao Brasil, há três anos, durante seu mestrado, para participar de um estágio de quatro meses no Laboratório de Desenvolvimento e Inovação do Butantan, coordenado pela pesquisadora Fernanda Faria. Desde 2014, a equipe estudava em parceria com o Instituto Pasteur da Tunísia a composição da saliva do Hyalomma dromedarii, carrapato dos camelos do deserto do Saara, para identificar substâncias com atividade anticoagulante.

Após defender a dissertação de mestrado na Tunísia, Hajer voltou ao Butantan para ingressar na PGTOX e dar continuidade às pesquisas. Um dos resultados de seu doutorado, publicado em dezembro na revista Toxins, foi a descoberta da molécula dromaserpina na saliva do carrapato. Ela é capaz de inibir o principal fator da coagulação, a trombina, proteína essencial para a formação dos coágulos sanguíneos, e também interfere na agregação das plaquetas. O trabalho pode ajudar na busca por novos medicamentos para distúrbios da coagulação sanguínea, presentes em doenças cardiovasculares e no câncer, por exemplo.

 

Uma forma de resistência

Como cientista mulher e muçulmana, Hajer acredita que a sua trajetória vai além dos resultados de seus estudos, e representa uma oportunidade para combater preconceitos. “Mulheres de países como o meu sofrem com julgamentos de que elas não podem viajar ou viver sozinhas em outro país. Para mim, estar aqui também é uma forma de provar para a minha comunidade e outras comunidades no mundo que mulheres podem sim viajar sozinhas, viver sozinhas em um país bem diferente do seu, e que elas também podem fazer algo tão nobre e desafiador como a ciência”, reforça.

Estar longe de casa no meio de uma pandemia também foi um teste de força e coragem, mas certamente Hajer não estava sozinha. Sua orientadora, Fernanda Faria, fala sobre as dificuldades e aprendizados desse período. “Ela estava longe da família e passou por um momento que ficou em quarentena e não podia trabalhar. Para nós do Butantan também foi um grande aprendizado para receber alunos estrangeiros. A estadia dela aqui é com certeza um desafio por completo, mas estamos saindo vitoriosos”, diz Fernanda. “Podemos dizer que eu tenho uma boa história para contar aos meus futuros filhos”, acrescenta Hajer.

 

 

Diferentes culturas, um mesmo objetivo

Hajer conta ainda que, na Tunísia, não é nada comum pensar em fazer pesquisa no Brasil, e que a maior parte das oportunidades acadêmicas é com destino à Europa. “Antes de vir para o Brasil, eu cheguei a fazer um estágio na Europa e, para ser sincera, não há diferença: nós todos trabalhamos pela ciência, temos os mesmos objetivos e temos as ferramentas e o conhecimento para alcançá-los”, aponta.

Contudo, ela chama atenção para a necessidade de mais investimentos e uma maior valorização da ciência. “A única diferença, talvez, é que a ciência é mais valorizada nos países europeus do que em nossos países [Tunísia e Brasil]. Mas todos nós somos motivados pelo objetivo de servir a humanidade. Graças a instituições como o Butantan, a ciência é muito desenvolvida no Brasil, mas precisa de mais olhares voltados a ela.”