Você no Butantan - Carla Matos Viegas
Publicado em: 21/02/2020

A nossa convidada para esta edição do Você no Butantan é a bióloga Carla Matos Viegas, 35, que está há oito anos no Butantan e atualmente trabalha como tecnologista de laboratório nível II, no Laboratório de Coleções Zoológicas.

Com licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas, Carla sempre viveu em contato com a natureza, mas revela que começar a trabalhar no laboratório não foi fácil devido ao medo que tinha de aranhas e alguns insetos, após um episódio marcante com abelhas durante a infância. Hoje ela se diz acostumada com os animais e se sente segura por ter aprendido aqui a identificar as espécies perigosas e as inofensivas.

Natural de Pedro Leopoldo, município da Região Metropolitana de Belo Horizonte, a bióloga mora atualmente em Cotia, São Paulo, com os pais, uma gata e uma cachorra, chamadas Luna e Hidra.. Comunicativa, rebelde e muito agitada, como se define, ela já morou em Rio Claro (SP), em Santa Catarina e também Curitiba (PR). Nesta entrevista, ela compartilha seu hobbies e também um sonho de uma sociedade que apoie mais a ciência.

Butantan Notícias: Conte um pouco sobre seu trabalho realizado no IB.

Carla Viegas: Eu trabalho na parte técnica da curadoria das coleções zoológicas de aracnídeos e miriápodes, como centopeias. Junto com um outro colega de trabalho faço o registro e a organização dos materiais da coleção, ou seja, meu trabalho é tombar os bichos, colocar as etiquetas e organizar a coleção nos armários. Trabalhamos com animais que vêm de coleta de pesquisa em campo e alguns também chegam pela recepção de animais. O registro desses animais é importante porque eles serão colocados na coleção para, por exemplo, um pesquisador consultar para um estudo de identificação de nova espécie. Se for comparar com uma biblioteca, nós cuidamos da parte dos arquivos, ou seja, não estudamos o material, mas cuidamos e o organizamos. Então tem muita coisa, tem muito material e ainda continua chegando mais. Eles chegam com as informações de origem, coletor, e, às vezes, identificação de espécie. Nós os recebemos para então fazermos o registro, e aí cada um ganha um número de identificação que vai para uma planilha, o que facilita encontrar o animal caso alguém precise.

 

BN: Qual a média de animais que você registra em um dia de trabalho?

Carla: Normalmente fica em uma média de 250 bichos. Depende muito de como o material está organizado, às vezes chega um lote do mesmo animal, do mesmo lugar, então o preenchimento da planilha é mais rápido, por exemplo.

 

BN: Há quanto tempo você trabalha no Butantan?

Carla: Minha história no Butantan começou em 2007, quando fiz um estágio voluntário no Museu de Microbiologia durante o período de férias na faculdade, que fiquei sabendo por uma veterana do meu curso. Eu vim e na verdade passei por um treinamento de quase dois meses, mas não consegui ficar por causa da minha rotina. Em 2011 eu estava trabalhando em um lugar, mas já não estava mais satisfeita e queria sair. Comecei a mandar currículos e resolvi mandar um e-mail para o Museu de Microbiologia e perguntar se por acaso havia alguma vaga. A Glaucia Colli [diretora do museu] respondeu que naquele momento não tinha, mas que em janeiro iriam abrir contratações. Então no começo de 2012 voltei a entrar em contato. Vim aqui com meu currículo, conversamos e ela lembrava de mim da época do estágio, mas dessa vez não rolou contratação. Em março do mesmo ano recebi uma ligação dela, querendo saber se ainda tinha interesse na vaga. Eu respondi, supercalma, “tenho claro”, mas por dentro eu estava explodindo pedindo para ser contratada, estava imensamente feliz. Acabei entrando em abril de 2012 como educadora no Museu, onde fiquei até julho de 2015, porque em agosto me transferi para cá.

 

BN: Como foi começar a trabalhar em outra área, com animais como aranhas?

Carla: Aqui eu comecei mexendo com os opiliões [artrópodes da classe dos aracnídeos] e, com o tempo e a exposição gradual, fui percebendo que meu medo foi diminuindo. Teve até uma atividade no ano passado aqui, que eu consegui segurar as aranhas caranguejeiras vivas. Então foi gradual, de repente quando eu vi os bichos já não me causavam tanta aflição quanto antes.
O meu medo vinha da infância, tinha medo de insetos e todos eram abelhas para mim, porque meu irmão tinha sido atacado por elas uma vez. Lembro que uma vez, quando eu era pequena, estava ajudando minha mãe no jardim e uma aranha morta caiu em mim, mas eu vi como se ela fosse gigante, então vinha daí meu medo. E hoje eu mexo com elas, exceto as Phoneutrias vivas que ainda me causa uma certa aflição (risos). Eu tenho animal de estimação e tenho sobrinha pequena que me visita em casa, e como moro em área de mata, me sinto feliz em poder identificar animais que aparecem. Meus pais são idosos e sinto que esse conhecimento me ajuda a proteger também a saúde da minha família e dos meu pets.

 

BN: Como foi trabalhar com uma parte da coleção perdida no incêndio de 2010?

Carla: Quando eu cheguei este prédio já tinha sido inaugurado, e eu entrei para fazer a conferência da coleção de opiliões porque, depois que teve o incêndio, os materiais ficaram todos meio bagunçados. Então, foi tudo retirado para ser feita uma conferência, para ver o que tinha sobrado e daí partir para a reorganização. Na época do incêndio, eu não trabalhava aqui, mas vi tudo pela TV e era muito triste ver aquilo. Até hoje a gente começa a tombar materiais dessa época e tem papel das identificações um pouco queimado.

 

BN: Como surgiu seu interesse pela biologia?

Carla: A casa que moro hoje é a mesma que passei minha infância, e ela fica no meio do mato, tanto que consigo montar um tripé e câmera na varanda para fotografar pássaros. Minha casa sempre teve bicho, cresci tendo galinha, coelho, codorna, cachorro, gato, tudo no quintal. Minha mãe também gosta muito de plantas. Então, quando eu era mais nova sonhava em trabalhar em zoológico. Assim que saí do Ensino Médio, fui fazer faculdade de zootecnia, mas eu não tinha muito conhecimento de profissão, e não tinha ideia do que era o curso. Prestei o vestibular da Universidade Federal do Paraná e fiquei um ano estudando lá, mas quando cheguei, vi que não era nada do que eu pensava e nem o que queria. Voltei para São Paulo, fiz cursinho pré-vestibular e passei em Ciências Biológicas. Aí me identifiquei e a vontade de zoológico passou.

 

BN: O que você aprendeu trabalhando aqui no Butantan?

Carla: Eu sou uma pessoa supercomunicativa, apesar de ser tímida, e o IB me permite conhecer pessoas diferentes. Aqui eu já participei do time de futsal e hoje estou no Coral, então conheci pessoas de setores diferentes. Na época que estive no Museu de Microbiologia, tive muito contato com públicos diferentes, tive oportunidade de vivenciar uma visita organizada por uma ONG que realiza sonhos de crianças pacientes terminais e foi muito marcante.
Aqui pude aprender a identificar os bichos, descobrir e aprender coisas novas.

 

BN: O que o Butantan significa para você?

Carla: Tinha uma época que eu falava que o IB era minha quarta casa, depois da minha casa mesmo, da rodovia Raposo Tavares (risos) e do The Clock , um bar onde eu costumava ir para dançar rockabilly. Para mim, o que marca o Butantan é o lugar que ele fica. Eu moro num pedacinho do paraíso e eu também trabalho num pedaço do paraíso também, com todas essas árvores e aves.

 

BN: Você tem algum hobby?

Carla: Eu gosto muito de fotografar aves. Isso e o rockabilly são as coisas que uso para arejar a cabeça. Uma vez fotografei um ninho de bacurau atrás da biblioteca, isso em 2014, e uma ONG fez uma seleção para exposição na linha lilás do metrô, e minha foto foi uma das selecionada. Nas horas vagas, eu gosto de passar o tempo com meus pais e quando dá, eu vou dançar rockabilly, estilo de rock dos anos 50 e 60. Eu comecei em 2012 frequentando um lugar e gostei bastante. Eu sou muito rebelde, muito agitada, e o rockabilly é mais solto, então funcionou muito bem para mim, eu até já dei aula e tenho um monte de saias que uso para dançar. Até brinco que é a única oportunidade de me verem usando uma (risos).

 

BN: Finalizando nossa entrevista, poderia compartilhar o que você espera e deseja para o futuro?

Carla: Eu espero que as pessoas voltem a dar valor à Ciência e deem atenção ao que a Ciência fala, porque estamos vivendo uma Era onde as pessoas acreditam que vacinas causam autismo. As pessoas estão botando em dúvida a Ciência e isso é extremamente perigoso. Por mais bizarro que seja meu sonho, desejo que a Ciência volte a ser ouvida e ter voz.

 

(por Caroline Roque)