Artigo submetido, preprint e artigo publicado: entenda as três etapas para a divulgação de um estudo científico

Quando um artigo chega aos olhos do leitor, é porque ele já passou por fases de validação, comprovação e revisão


Publicado em: 04/05/2022

Nos últimos dois anos, ler e discutir estudos científicos se tornaram um hábito não só de cientistas, mas da população em geral. Afinal, para entender os resultados dos ensaios clínicos de novas vacinas e tratamentos contra o SARS-CoV-2, a gravidade dos casos e mortes da pandemia e a circulação de variantes, a melhor fonte são os artigos científicos publicados em revistas de renome internacional. Mas para aproveitar o conhecimento dos artigos da melhor forma possível, é preciso entender a diferença entre as principais etapas da publicação de um estudo científico.  

 

O paper em si

Depois da pesquisa concluída, os cientistas analisam tudo que foi feito e descrevem o que aconteceu e os resultados alcançados em um paper. Esse paper segue uma estrutura específica: precisa ter introdução, descrição da metodologia, apresentação dos resultados e referências bibliográficas usadas pelos pesquisadores. Além disso, o paper traz um pequeno resumo com os pontos principais do estudo e os nomes de todas as pessoas envolvidas.

 

A escolha da revista científica

Com o paper finalizado, os autores enviam o trabalho para avaliação de uma revista científica. A escolha da publicação na qual o estudo será submetido é uma etapa importante: ela precisa estar alinhada ao tema da pesquisa. A revista The Lancet, por exemplo, é especializada em ciências médicas; já a Nature é focada em ciência e tecnologia.

No mundo da ciência, existem dois tipos de revistas: as com acesso aberto ao público, chamado Open Access, e as que não têm. Para visualizar trabalhos nas revistas que não têm acesso aberto é necessário pagar uma assinatura. Submeter pesquisas nesse tipo de publicação não tem custo para o autor. Ao contrário, as revistas Open Access dão ao leitor a possibilidade de ler o estudo completo sem custo algum, mas os autores precisam pagar uma taxa para submeter seus estudos nelas. Naturalmente, artigos publicados em plataformas de livre acesso têm muito mais repercussão que os submetidos a plataformas fechadas.

 

Preprint

A etapa de preprint é quando o autor do estudo finaliza toda a pesquisa e a publica em plataformas que são chamadas de “bioarchives”, ao invés de enviar o paper diretamente para a revista, caso sejam submetidos e aprovados. Em muitos casos, essas plataformas servem como “vitrines” para papers que sairão posteriormente em revistas científicas conceituadas: os artigos da revista The Lancet, por exemplo, são muitas vezes publicados primeiro na plataforma de preprints SSRN.

Se o estudo está público nesse formato não quer dizer que ele foi “publicado”, mas sim, que foi disponibilizado em uma plataforma de preprints. Nas plataformas de preprint são depositadas as pesquisas que ainda não foram submetidas às revistas e não passaram por revisão de nenhum editor. A palavra é uma mescla de “pre” (antes) e “print” (impressão), ou seja, “antes da publicação”.

Os preprints são prévias do que poderá ser submetido e possivelmente publicado na revista escolhida pelo autor. Optar por divulgar um estudo em preprint é uma forma de acelerar a comunicação de resultados de forma mais rápida ao público – uma estratégia que vem sendo muito usada para estudos que envolvem vacinas e a pandemia do SARS-CoV-2.

Essa também é uma forma dos cientistas receberem feedbacks e correções de leitores antes de submeter o artigo às revistas. ”Às vezes o artigo está na internet, você acessa, mas ele ainda não está com a revisão fechada, o processo de editoração não está fechado”, conta a pesquisadora do Laboratório de Imunopatologia do Instituto Butantan Ana Maria Moura da Silva.

Os preprints devem sempre ser vistos com cautela. Como eles ainda não foram validados por especialistas, é possível que contenham imprecisões ou até mesmo erros.

 

Artigo submetido

Se o autor decide enviar o artigo direto para a revista ao invés de divulgá-lo previamente como preprint, ele acessa a plataforma da publicação escolhida e anexa o seu estudo lá. A partir daí, essa pesquisa vai passar pela avaliação dos editores da revista, a revisão por pares. Essa revisão é feita por pesquisadores da área do estudo que tenham familiaridade com o assunto, seja sobre animais, tratamento, vacinas etc. “Artigo submetido é um artigo que eu escrevi, escolhi a revista, coloquei dentro dos critérios dela e submeti para análise”, explica a diretora do Laboratório de Biofármacos e pesquisadora do Butantan, Ana Maria Moro.

 

Artigo publicado

Quando o estudo chega nesta etapa, significa que ele já recebeu todas as edições, está revisado e tem a chancela de revista científica para ficar público. De acordo com as pesquisadoras do Instituto, raramente um estudo é aceito pela revista na primeira vez que é enviado. Geralmente, os editores mandam correções e comentários para serem acrescentados ao trabalho, e às vezes, até perguntas que não foram esclarecidas. Após a tréplica dos autores, com todas as alterações sugeridas, o estudo entra em uma espécie de “fila” para aguardar sua vez de publicação.